Henry Mintzberg, o guru da estratégia

Não se fabricam gestores em proveta

O autor de «Ascensão e Queda do Planeamento Estratégico», um livro
do princípio dos anos 90 com um forte impacto em Portugal, vem a terreiro tocar numa das galinhas de ouro do negócio da gestão. Os MBAs
são programas de série B e não de classe A. Um tema que vai abordar
daqui a dois anos num livro certamente muito polémico

«A Web está a acelerar a evolução da gestão nos últimos cinquenta anos
no sentido de uma maior fluidez»

«Falar de tendências é em si mesmo errado.
Recuso-me a alimentar esse jogo»

Jorge Nascimento Rodrigues com Henry Mintzberg

Entrevista Exclusiva Janela na Web e revista portuguesa Executive Digest

Site da Universidade de McGill no Canadá
Site do Center for International Management Studies | Perfil de Mintzberg
Edição especial da Sloan Management Review sobre estratégia (Spring 1999)
Artigo reflectindo sobre o processo estratégico editado na Revista Portuguesa de Gestão nº2 (tradução do artigo publicado por Mintzberg na Sloan)
Livro que Mintzberg vai lançar em breve, «Why I hate flying»
Livro no Prelo Developing Managers Not MBAs (a sair em 2002)
Principal Bibliografia do autor | Outros Gurus

Henry Mintzberg A única palavra que conhece da língua portuguesa é "saudade" ("sôdadji", dirá). Este guru da estratégia, com 61 anos, vive agora repartido entre dois gabinetes em dois continentes, entre a McGill University, em Montreal, no Canadá, onde é professor de estratégia e organização desde 1968, e Praga, na República Checa, onde tem uma empresa de consultoria com um parceiro.

Fora isso, corre mundo a dar aulas, nomeadamente na Europa, no INSEAD, perto de Paris. Por isso mesmo, prepara um livro entre a gestão e o humor, a sair em breve, intitulado «Porque odeio viajar?»

Na edição do 40º aniversário da revista Sloan Management Review (publicada no ano passado, Spring 1999), Henry Mintzberg assinou com Joseph Lampel um interessante artigo intitulado «Reflectindo sobre o processo estratégico», onde fala de 10 "escolas" de pensamento - dez "direcções", sublinhará, recusando-se a falar de "tendências" - sugerindo uma abordagem "unificada" sem estragar a riqueza deste eclectismo. O artigo foi traduzido para português e publicado na Revista Portuguesa de Gestão nº2, 2000.

Muito crítico em relação às "buzzwords" de gestão e ao "fabrico" de MBAs, Mintzberg concedeu esta entrevista a partir de Praga. É um "safari" curto (Estratégia Safari é o título de um livro seu de há dois anos - compra do livro) de perguntas e respostas com este gestor anti-modas, que marcou há alguns anos a agenda do "management" com Ascensão e Queda do Planeamento Estratégico (compra do livro), um livro que foi como um balde de água fria, no princípio dos anos 90.


Depois da Era de Ouro do planeamento estratégico, do período da vantagem competitiva e da reengenharia, para onde é que vai o "management"?

H.M. - Primeiro do que tudo - sou muito relutante em predizer para onde é que vai. Vai em diferentes direcções.
Muda tudo muito rápido. É absolutamente errado dizer aos decisores o que se vai seguir.

Mas, das dez "escolas" de que fala no seu artigo na edição do 40º aniversário da Sloan Management Review, qual delas poderá dominar no princípio do século?

H.M. - Vocês jornalistas querem sempre ter algo para colocar nas capas das revistas a dizer qual vai ser a próxima tendência. Mas eu não penso assim. Recuso-me a responder. Falar de tendências é, em si mesmo, uma ideia errada, na gestão. Ponto final.

De qualquer forma, reflectindo sobre o processo de formulação estratégica, o professor sugere, nesse seu artigo da SMR, uma abordagem "unificada". O que é que isso significa?

H.M. - A estratégia é aprendizagem, é política, é visão. Há várias dimensões. Nós precisamos de todas estas abordagens. Não devemos excluir nenhuma. Mas devemos ir para além das fronteiras de cada uma. Devemos dar atenção ao "elefante" no seu todo. Por isso, há que unificá-las - é o que explico no artigo da revista.

Ao findar este século, um período muito rico para a gestão, quem escolheria como tendo exercido a maior influência? Temos uma "dívida" para com Drucker?

H.M. - Peter Drucker teve muitas ideias, influenciou imenso, sem dúvida. Mas eu referiria, também, Herbert Simon, o Prémio Nobel da Economia de 1978. Fala-se pouco nele na comunidade da gestão - mas teve uma influência profunda sobre a questão de como se processa a decisão do gestor. Ele mudou a forma de encarar a aprendizagem em gestão. Mas, numa perspectiva histórica mais larga, eu colocaria Frederick Taylor - continuaria a colocá-lo como o mais influente. Ainda continuamos a praticar o taylorismo em larga medida.

Nos últimos dois anos vimos as revistas de "management" serem literalmente assaltadas pela invasão dos temas em volta da Web e da Internet. O "e-business" tomou de assalto revistas como a Harvard Business Review e a Sloan Management Review, para falar das com mais influência na Europa. A dita Nova Economia está a ter um impacto profundo na teoria da gestão?

H.M. - Não penso que se deva exagerar. O que a Web está a fazer é a aprofundar uma direcção que tem estado em desenvolvendo nos últimos 50 anos no sentido de uma maior fluidez do "management". Mas, não penso que isso seja novo. O que está a acontecer é que está a ser acelerado. O mais recente "e-business" vem colocar pressão adicional nesse mesmo sentido.

Uma das suas mais polémicas intervenções tem sido no sentido de uma crítica muito frontal aos programas de MBA. O que é que está errado com esse maneira de "formar" das últimas décadas?

H.M. - Muito sucintamente - eles formam as pessoas erradas de uma forma errada no sítio errado. Os MBA são programas de série B e não de classe A. Eles ensinam em sala. As pessoas julgam que estão a ser formadas como gestores. Mas que gestores? Eles aprendem mais a falar, falar, falar, do que a ouvir. Aprender a gerir tem de ser com base na experiência. Não se fabricam gestores em proveta. Aliás, estou a trabalhar num livro, para sair em 2002, intitulado «Desenvolvendo gestores e não MBAs».

UM ÓDIO DE ESTIMAÇÃO...COMO "CASE STUDY"
O leitor não imaginou ainda transformar a experiência de viajar de avião - síndroma dos passageiros frequentes, políticos, executivos, professores, investigadores, euro-burocratas e jornalistas - em "case study" de gestão e falar disso com humor.
Pois bem, o livro de Henri Mintzberg que está na calha de publicação leva o título bem sugestivo de «Porque odeio viajar» (Why I Hate Flying - compra do livro - apresentação do livro pelo autor), previsto para Janeiro de 2001.
O "check-in", as dores de cabeça com a bagagem, o seu vizinho na cadeira do lado do avião, a incrível comida de "plástico", o intrometido serviço de marketing das companhias prometendo este e o outro mundo (sem agoiro, em sentido figurado) com os programas de passageiro frequente, a realidade do voo com os passageiros tratados como sardinhas, são motivos de sobra para Mintzberg escrutinar as práticas de gestão das companhias de aviação e dos aeroportos a partir da sua experiência pessoal.
É um novo estilo de escrita em gestão. Coloque-o no seu carrinho de compras para a abertura do novo século.


ESCAPARATE MINTZBERGUIANO
  • «Reflecting on the Strategy Process», artigo publicado na Sloan Management Review, Spring 1999, volume 40, nº3, traduzido em português na Revista Portuguesa de Gestão, nº2, Primavera 2000 (revista na Web em www.indeg.iscte.pt/rpg/index.html). Disponível aqui
  • Strategy Safari: A Guided Tour through the Walls of Strategic Management, 1998 (compra do livro)
  • The Rise and Fall of Strategic Planning, 1993 (compra do livro)
  • Structure in Fives: Designing Effective Organizations, 1992 (compra do livro)
  • Mintzberg on Management: Inside our Strange World of Organizations, 1989 (compra do livro)
  • The Structuring of Organizations, 1978 (compra do livro)
  • The Nature of Managerial Work, 1972, reedição de 1997 (compra do livro)
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