Medicon Valley nasce no Norte

Grande Porto e Minho podem transformar-se no centro de uma nova especialização portuguesa em dispositivos médicos incorporando tecnologia e ajudando a "reconverter" o têxtil, a metalomecânica, a refrigeração e os plásticos

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Outubro de 2005

6 Oportunidades a não perder
1 - Vestuário hospitalar "inteligente" no cruzamento do têxtil técnico com a electrónica
2 - "Wearables" para aplicações de controlo de funções críticas humanas
3 - Instrumentação cirúrgica como diversificação relacionada na metalomecânica de precisão
4 - Dispositivos médicos à base do "know-how" adquirido nas componentes plásticas
5 - Refrigeração clínica e criopreservação como diversificação relacionada para a refrigeração industrial
6 - Micro-dispositivos para análises clínicas ("lab-on-a-chip")

A oportunidade de um novo "cluster" industrial no Norte em torno do fabrico de dispositivos médicos está na ordem do dia. Um "Medicon Valley" de nível europeu é um dos objectivos do "Norte 2015", um exercício de prospectiva sobre o futuro levado a cabo pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDRN). Atendendo aos sinais emergentes da iniciativa empresarial nesta área e às competências universitárias existentes no Grande Porto e no Minho, a CCDRN organizou, em meados de Outubro (2005), o que designou de ateliê temático sobre as oportunidades do negócio em torno dos consumíveis hospitalares e dos dispositivos e aparelhos para o sector da Saúde.

O sector dos dispositivos médicos poderá crescer 10% ao ano e ser uma oportunidade clara para PME e inclusive para atracção de investimento directo estrangeiro ou de 'outsourcing' em instrumentos, equipamento e dispositivos descartáveis.

Este mercado emergente pode valer 800 milhões de euros em compras hospitalares e de particulares, segundo o estudo apresentado no "ateliê" por Joaquim Cunha, um consultor de Braga especializado na área, responsável pela Caso-Consultores Associados. Trata-se de ocupar uma fatia dos 6% dos gastos nacionais em saúde, que é largamente fornecida por importadores e seus distribuidores. Cunha estima, ainda, que "o sector poderá crescer 10% ao ano e ser uma oportunidade clara para PME e inclusive para atracção de investimento directo estrangeiro ou de 'outsourcing' em instrumentos, equipamento e dispositivos descartáveis". Este estudo corrobora conclusões similares de um trabalho realizado para a Agência Portuguesa para o Investimento pelo economista José Féliz Ribeiro e pelo ex-ministro Mira Amaral.

A aposta neste sector permitirá inclusive a reciclagem de desempregados de indústrias em declínio, dado o seu carácter intensivo em mão-de-obra que é ainda competitiva face a outras localizações possíveis na Europa. "Nestes fabricos, o custo horário da mão-de-obra portuguesa é ainda competitivo em relação a locais mais baratos, mas claramente mais fracos em termos de produtividade. Também é fácil a formação para as novas competências", salienta José Manuel Guillade, pioneiro no sector, fundador da Pronefro, fornecedora a partir da Maia de produtos nefrológicos, para o diagnóstico e tratamento clínico de doenças do sistema urinário. De facto, a região nortenha não é virgem no sector. Várias empresas na Maia, Penafiel e Felgueiras estão já focalizadas nesta indústria. O êxito desta aposta estratégica pode ser observado em dois casos europeus "que nos podem inspirar": "A Irlanda domina hoje 2% do mercado mundial dos dispositivos médicos e a Dinamarca é imagem de marca em dispositivos topo de gama", refere Joaquim Cunha.

Migração estratégica

A viragem para este sector de fornecimentos à Saúde abre, ainda, novas saídas de negócio para especializações tradicionais na Região Norte. "Permite a migração de especializações no têxtil, plásticos, metalomecânica de precisão e refrigeração para uma nova área emergente", sublinha Manuel Mota, vice-reitor da Universidade do Minho, responsável pela estratégia de I&D e de "pipeline" do mundo académico para o tecido económico. Mota refere, a título de exemplos, o vestuário hospitalar, a instrumentação cirúrgica a partir da especialização em cutelaria no eixo Braga-Guimarães, e a diversificação para a refrigeração clínica (conservação de produtos sanguíneos e medicamentos) e criopreservação (de tecidos e órgãos) da indústria de refrigeração industrial da região.

«Permite-se a migração de especializações no têxtil, plásticos, metalomecânica de precisão e refrigeração para uma nova área emergente»

A própria Universidade do Minho (UM) tem vindo a desenvolver o cruzamento do têxtil com a electrónica para a área médica, por exemplo em "wearables" - computação integrada no vestuário ou ligada ao corpo - para o controlo de funções críticas (camisa com sensores para controlo cardiovascular) ou para electroencefalografia (uma touca cibernética). O Departamento de Electrónica Industrial da UM lançou, também, um micro-laboratório de análises clínicas de fluidos biológicos do tamanho de um "chip".

Um caso já visível de diversificação com base nas competências é o da aposta dos industriais de componentes e moldes plásticos no novo sector. Acabou de ser constituída a Nanologic, uma "start-up" criada pela Celoplás, de Grimarcelos, e a Plasdan, da Marinha Grande, virada para micro e nano-dispositivos médicos. "A nossa especialização em ferramentas técnicas de alta precisão permite-nos, agora, entrar nesta nova indústria", sublinha João Oliveira Cortez, o fundador da Celoplás, que espera ver a Nanologic começar a laborar em breve.

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