Massa cinzenta procura-se !

Uma mesa redonda com sete empresas da alta tecnologia portuguesa realizada
para o semanário português Expresso, moderada por Jorge Nascimento Rodrigues
e organizada na Altitude Software em Lisboa

As metanacionais portuguesas apostam nos tecnólogos nacionais
e localizam boa parte do seu desenvolvimento em solo luso, mas identificam alguns défices "estruturais". Faltam competências críticas em management, a mão-de-obra à saída do secundário é muito fraca, o país não tem visão estratégica nem explícita nem implícita, a "produção" universitária de profissionais do conhecimento é insuficiente e Portugal não tem imagem "tecnológica" no estrangeiro

Jorge Nascimento Rodrigues

Versão mais reduzida publicada no semanário português Expresso em Janeiro 2002

São todos fãs de Portugal. As empresas de alta tecnologia que fundaram apostam na massa cinzenta lusa - apesar de diversos "mas", que veremos mais adiante. Estes sete empreendedores criaram empresas e grupos nos últimos seis anos que se mantém independentes das multinacionais e que desenvolveram estratégias internacionais, nalguns casos tendo já estabelecido empresas em vários continentes.

São, por isso, casos de demonstração de que - mesmo a contra corrente - é possível criar um tecido empresarial novo no nosso país e absorver uma parcela da nata dos trabalhadores do conhecimento que são gerados pelos canudos universitários e pela experiência profissional. Ajudariam, também, caso houvesse uma política oficial de marketing internacional "agressivo" a mudar a imagem "não tecnológica" de Portugal no mundo.

Advertência ao leitor

Contudo, estes casos não são representativos do tecido empresarial português. Não se podem tomar estas "ilhas" pelo rectângulo nacional. «Aliás, os indicadores internacionais não são muito lisonjeiros para nós - e é pela análise deles que os investidores estrangeiros em projectos mais qualificados começam... e, muitas vezes, desistem, pois não vêm directamente falar com esta amostra», sublinha, com ironia, José Epifânio da Franca, um professor do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, que com mais dois colegas criou há quatro anos a Chipidea Microelectrónica, uma empresa 100% virada para um mercado mundial muito complexo, o dos semicondutores.

A influência dos estrangeirados e do cosmopolitismo destes empreendedores é um traço marcante

Esta amostra de empresas tem a particularidade de ter na sua origem dois tipos de personagens. Uns são "estrangeirados" que tiraram os seus doutoramentos nos Estados Unidos ou na Europa (como nos exemplos da Chipidea e da Critical Software) ou que desenvolveram actividade profissional lá fora (como no caso da Outsystems, cujo fundador trabalhou e estudou no Silicon Valley) e que por opção decidiram regressar.

Outros são empreendedores de um novo tipo que pelos laços internacionais que souberam desenvolver e por visão têm uma postura cosmopolita. «Nascemos aqui, mas temos os olhos no mundo», diz Valério Marques, fundador da Quadriga, que se transformou numa das PME europeias fornecedoras de software para telemóveis, a partir das ligações à Nokia finlandesa.

«A experiência de capital relacional de que estes empreeendores são portadores é fundamental para o nascimento e sustentação deste tipo de tecido empresarial», conclui Manuel Laranja, um professor do ISEG, que desde os anos 80 tem acompanhado as vagas de criação de "start-ups" de base tecnológica.

Vantagem temporária

A aposta na massa cinzenta portuguesa em alguns casos levou à concentração do desenvolvimento de software no nosso país. A Altitude Software, desde os tempos da Easyphone que lhe deu origem, que «faz desenvolvimento em exclusivo em Portugal», refere João Cardoso, responsável de Marketing. Apesar de ter 15 empresas em 18 países nos quatro continentes, os 110 quadros de desenvolvimento em sistemas de "interacção unificada com o cliente" estão radicados no nosso país. «No nosso caso, a descentralização traria consequências negativas», acrescenta.

A Critical Software, especialista em software ultra-crítico, apesar de ter uma delegação no Silicon Valley, e a Number 5, apesar de ter uma extensão em Los Angeles, desenvolvem software respectivamente em Coimbra e na Ericeira. «Vale a pena apostar aqui na I&D - somos apaixonados e criativos», acentua, com vigor, Vítor Marques, o fundador da Number 5.

Paulo Rosado, por seu lado, vislumbra inclusive «uma vantagem competitiva temporária para criar aqui em Portugal os departamentos de desenvolvimento». A qualidade dos nossos tecnólogos é enorme: «Nos Estados Unidos eu precisaria de três vezes mais engenheiros para obter os mesmos resultados», refere, o fundador da Outsystems. Valério Marques enumera as virtualidades da massa cinzenta portuguesa: «capacidade de adaptação, facilidade de assimilação de culturas diferentes, absorção de tecnologias, e o famoso 'desenrascanço'».

Noutros casos, a descentralização geográfica é assumida - a massa cinzenta é recrutada onde exista em função das necessidades de desenvolvimento. É o caso da Chipidea, que tem centros de engenharia - para além dos nacionais implantados no Taguspark em Oeiras e na Maia - em Macau, em Inglaterra e na Polónia, e que, em breve, poderá estender à Suécia e a Espanha.

Duche de realismo

Mas este entusiasmo tem de ser temperado com realismo, adverte Rogério Carapuça, líder da Nova Base, um grupo vasto de empresas nas áreas das tecnologias de informação, com uma empresa também no Brasil. «Este tipo de empresas tem acesso ao segmento dos melhores quadros saídos das melhores universidades técnicas portuguesas. Mas isto são 'bolsas'. O sistema de ensino está estrangulado, como se sabe», prossegue.

Manuel Laranja chama a atenção para alguns factos estruturais - há 50% de taxa de abandono nos três primeiros anos do ensino superior e a população entre os 25 e os 64 anos com frequência completa do secundário (21%) é quase 1/3 da percentagem média da União Europeia (60%). Neste último caso, a comparação com outros pequenos países europeus é dramática - 21% em Portugal contra 50% na Irlanda, 65% na Holanda e 72% na Finlândia. Mesmo a Grécia está à nossa frente (45%), bem como a nossa vizinha ibérica, a Espanha (35%).

O défice estrutural mais preocupante a nível dos quadros é a falta de "soft skills", de competências críticas em management

O líder da Nova Base aponta como deficiência estrutural muito grave a falta de "soft skills" nos quadros portugueses. «sobretudo na área comportamental», sublinha Rogério Carapuça. Apesar do boom de cursos de gestão geral e por áreas funcionais, do crescente número de MBA e da divulgação de uma cultura de gestão nos últimos dez anos, o país continua a ser muito fraco em management.

«A questão do sistema de gestão é crítico. Isso faz toda a diferença na produtividade», remata Paulo Rosado. «O 'desenrascanço' não é sustentável. Aliás, reflecte uma baixa cultura de empresa e debilidade de gestão», sublinha, por seu lado, João Carreira.

Podemos ter recursos de improviso para solucionar problemas, mas falta-nos competências em capacidade estratégica de decisão - esta última é o recurso fundamental assinalado, desde os anos 50, por Peter Drucker, que insistia na necessidade de «combater a falácia da importância das competências em solucionar problemas».

Mesmo em algumas áreas funcionais de gestão, o défice é particularmente sentido por este tipo de empresas - como nas áreas de marketing e de gestão de produto, o que as leva a ter forçosamente de recrutar os quadros no estrangeiro (Estados Unidos, Inglaterra, por exemplo) e a localizar esses departamentos lá fora.

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