Cidades do Conhecimento - uma oportunidade para as cidades médias ibéricas

A nova "buzzword" que poderá salvar a estratégia de algumas cidades médias portuguesas e o caso catalão de Mataró

Jorge Nascimento Rodrigues, em Mataró (Barcelona), Julho 2003

Gestión del capital intelectual de ciudades | Citie's IC Benchmarking System
Projecto de Ciutat del Coneixement de Mataró
Entrevista completa com Saskia Sassen sobre cidades globais e cidades do conhecimento (em inglês)
Visão de Fora (comentário por Saskia Sassen)

O conceito de "cidade do conhecimento" esta a transformar-se numa oportunidade para as cidades médias europeias ou para corredores de cidades com uma massa populacional citadina entre os 50 mil e os 250 mil habitantes. Cidades que não podem aspirar, naturalmente, aos campeonatos das "cidades globais" ou das cidades emergentes com funções globais. A mensagem de esperança é trazida, a nível ibérico, por experiências como as de Mataró (uma cidade portuária da industrialização histórica catalã com mais de 100 mil habitantes), na área metropolitana de Barcelona, que pretende ser um "laboratório" de conceitos e práticas na área da gestão urbana do conhecimento e do capital humano, e pelo projecto pioneiro de "rede" transfronteiriça de cidades do conhecimento nas regiões do Alentejo português e Extremadura espanhola, em que estarão envolvidas Évora e Badajoz.

No escalão das cidades médias, segundo o mais recente Atlas das Cidades de Portugal publicado pelo INE em 2002, o nosso país dispõe de seis cidades entre os 100 mil e os 180 mil habitantes (Gaia, Amadora, Braga, Almada, Coimbra, Funchal), de outras seis entre 50 mil e 100 mil habitantes (Setúbal, Aveiro, Guimarães, Agualva-Cacém. Queluz, Odivelas), de quatro corredores urbanos com massa crítica entre os 50 e os 100 mil habitantes (Oeiras-Porto Salvo, Cascais-Estoril, Leiria-Marinha Grande, Faro-Loulé) e de algumas articulações transfronteiriças (por exemplo: Norte-Galiza; Trás-os-Montes-Galiza e Castela e Leão; Alentejo-Extremadura) que poderão criar redes urbanas de nível médio em termos europeus, permitindo a cidades portuguesas com menos de 50 mil habitantes colocar o seu nome no mapa. Algumas destas entidades municipais são dormitórios das áreas metropolitanas em que se inserem, mas outras dispõem de vários activos de saber.

Nova fonte de riqueza e poder

A emergência no discurso político governamental e autárquico do papel das novas tecnologias trazidas pela revolução digital dos anos 90, e da crescente influência local e regional dos "campus" de ensino superior, atraiu os dirigentes municipais, empresariais e universitários e as consultoras de desenvolvimento local e regional para esta "buzzword". Subjacente a esta nova linguagem está a compreensão de que mudou a principal fonte de riqueza económica e de projecção política: «No passado, os órgãos municipais formulavam as suas estratégias e seus objectivos com base nos activos tangíveis que eram considerados os factores determinantes da prosperidade e notoriedade das cidades. Hoje, com a emergência da economia do conhecimento, o papel do que designamos por activos intangíveis, de saber, converteram-se em peças fundamentais», diz-nos José María Viedma Marti (mailto:jose.m.viedma@upc.es), professor na Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), que tem divulgado internacionalmente o caso de Mataró. A novidade de Mataró, refere este professor, «foi ter sido a primeira cidade a aplicar com êxito um modelo de gestão e de medição do capital intelectual urbano». A cidade lançou em 2002 um projecto de Gestão do Capital Intelectual de Mataró (GECIM), que saiu da directiva política municipal de transformá-la nesta década numa "Ciutat del Coneixement" (em catalão), um projecto que está a ser dirigido pelo Tecnocampus, o parque tecnológico da cidade.

Mataró (área de Barcelona) foi ma primeira cidade no mundo a aplicar com êxito um modelo de gestão e de medição do capital intelectual urbano

Mataró tem tradição histórica que lhe dá capacidade de projecção e de marketing - o eixo Barcelona-Mataró foi o motor da industrialização catalã desde o século XIX; a primeira linha de caminho de ferro foi inaugurada em 1848 entre Barcelona e Mataró, bem como a primeira auto-estrada espanhola nos anos 60. O plano estratégico de Mataró trabalha, agora, com a ideia de criação de um "distrito tecnológico", com a potenciação dos seus micro-clusters locais (como turismo, têxtil avançado, logística, formação, saúde, floricultura) e do pólo de ensino superior (com a Escola Universitária Politécnica, a primeira a lançar um curso de telemática em 1983), e com o desenvolvimento do que é designado por "fomento da conexão social", ou seja criação de ciberespaços, massificação do uso do correio electrónico (gratuito, cedido pelo município) por todos os "mataronins" (habitantes de Mataró) e fomento da administração aberta, refere-nos Jordí Marín Puigpelat, director geral do Tecnocampus.

A cidade contava em 2002 com 25% dos cibernautas e 32% das empresas usando banda larga e com 36% dos domicílios ligados à Web. Criou uma incubadora de empresas de base tecnológica que funciona num edifício com WiFi (comunicações sem fios) e um Observatório municipal da Sociedade da Informação (o primeiro na Catalunha) e pretende transformar a marina desportiva (a principal de toda a costa catalã) num espaço WiFi.

Em virtude da inexistência de modelos urbanos nessa área, a equipa do GECIM começou um processo de adaptação do modelo de gestão e medição do capital intelectual em empresas lançado pelo sueco Leif Edvinson, com base na experiência pioneira nos anos 90 na Skandia, e tem tido em conta os desenvolvimentos feitos a nível de gestão e medição do capital intelectual de países (como nos casos da Suécia e Israel em 1999).

Com base nessa experiência, Viedma construiu inclusive um sistema original de "benchmarking" (CICBS - Cities'Intellectual Capital Benchmarking System) que permite comparar «as actividades essenciais e os conhecimentos fundamentais de uma cidade com os correspondentes em cidades mais avançadas nos diversos micro-clusters em que se especializou o tecido económico urbano».

Para além do digital

Viedma considera que o adjectivo "conhecimento" pretende puxar a estratégia urbana para além do digital, em que muitas cidades europeias de referência se têm envolvido desde meados dos anos 90, desde os exemplos pioneiros de Amsterdão (De Digital Stad) ou Dublin (Dublin A World Class e-City).

O professor da UPC, que vai dirigir uma pós-graduação em Economia do Conhecimento, alinha vários tipos de "activos" fundamentais para se poder desenvolver uma estratégia de cidade do conhecimento: existência de alguns activos de saber (exemplos: ensino superior, centros de investigação, parques tecnológicos, centros culturais e artísticos); atracção de actividades económicas intensivas em conhecimento; atracção de quadros qualificados; ambiente institucional favorável ao empreendedorismo inovador ou localização de empresas inovadoras estrangeiras ou nacionais (incubadoras, capital de risco, desburocratização, etc.); forte sinergia dos principais "actores" (municipais, empresariais, associativos) a nível local; vontade política de acabar com a fragmentação de iniciativas locais; conhecimento de línguas; uso da informática e da Internet a nível empresarial (particularmente PME), dos quadros e dos cidadãos; cobertura infra-estrutural em banda larga e sem fios; fluxos turísticos e grau de cosmopolitismo; capacidade de atracção de artistas, criativos e juventude qualificada; ambientes urbanos e imobiliário atractivo para viver; capacidade de mobilização da diáspora qualificada oriunda da cidade.

Visão de fora
«São os modelos impuros que funcionam»
Entrevista com Saskia Sassen, especialista em estratégias de urbanismo, coordenadora
do projecto "Global Networks - Linked Cities"

The Global City | Global Networks

Apesar da ser sedutor o conceito de "cidade do conhecimento", os especialistas deixam alguns "recados". «Não é conveniente afunilar o conceito, caindo numa monoespecialização ou hiperespecialização em torno do saber», referiu-nos Saskia Sassen, autora do livro de referência "A Cidade Global" (publicado em 1991 e reeditado em 2001), nascida na Holanda, durante muitos anos especialista de planeamento urbano na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e actualmente professora de Sociologia na Universidade de Chicago. Saskia recomenda por isso uma estratégia de «maior embutimento na envolvente urbana», de uma preocupação com o que ela designa por uma economia urbana «largamente misturada» e «com redes diversificadas relacionadas com vários sectores característicos da economia local, regional, nacional ou mesmo transfronteiriça».
Da investigação no terreno, a especialista de Chicago verificou algo surpreendente: «São os modelos impuros que funcionam - precisamente porque estão relacionados com sistemas mais amplos e fortemente inseridos em redes». A prática, também, deixa outro alerta: «Não basta espalhar fibra óptica ou ter espaços urbanos sem fios para se falar de cidade do conhecimento - ou num patamar mais ambicioso - de cidade global. A conectividade social e a existência de funções centrais que extravasam o perímetro local é fundamental», conclui um dos estudos em que Saskia Sassen esteve envolvida, e que foi, agora, publicado em "Global Networks - Linked Cities" (2002), um projecto que ela coordenou desde 1996 até ao ano passado para o Instituto de Estudos Avançados da Universidade das Nações Unidas, sediada em Tóquio.

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