Onda jovem na Maconde

A história de como uma gota no oceano da produção do maior exportador nacional de confecção para homem poderá vir a mudar o seu posicionamento estratégico no negócio da moda masculina.

Reportagem em Empresa em Mudança
por Jorge Nascimento Rodrigues

Curandel Maconde O que está em jogo na Maconde nos próximos anos é saber até que ponto um ensaio de cooperação com um dos mais prestigiados fornecedores de tecidos do mundo, a Marzotto, se poderá tornar numa inovação estratégica a nível do posicionamento daquela empresa no mercado da moda masculina portuguesa e, no futuro, no próprio cenário internacional.

A colaboração com o grupo italiano estreitou-se com o lançamento, em Abril, de uma nova colecção para homem para o mercado nacional, denominada "Alto", que visa, a preços verdadeiramente competitivos, servir uma solução topo de gama e mudar a imagem da Maconde Confecções em Portugal.

O objectivo é implantar uma marca de alta qualidade no "vestir português" e com um conceito "total" que vai quase da cabeça aos pés do homem, incluindo peças essênciais da arte de bem vestir, do fato, à camisa, à gravata, ao cinto, às meias, podendo ir até às carteiras, aos sapatos e aos perfumes.

No futuro, o reposicionamento chegará, naturalmente, à difusão internacional de uma marca própria "made in Portugal", que equilibre os milhões de facturação que a confeccionadora de Vila de Conde faz em produtos topo de gama com etiqueta do cliente estrangeiro.


Um paradoxo bem português

«É um paradoxo, salienta-nos Vasco Nina, o jovem gestor do projecto "Alto", que uma empresa como a nossa, conhecida por ter desenvolvimento próprio de moda e uma qualidade que a leva a fabricar para a alta moda de todo o mundo, não tenha um posicionamento equivalente dentro do país e uma marca própria afirmada». O novo projecto começou com 3000 fatos para a Colecção de Verão 98 e, de momento, já vendeu 70 por cento através das lojas MacModa do grupo. Para o Inverno 98/99 prevê-se dobrar a oferta de fatos, complementando-a com nove mil camisas e nove mil gravatas, para além dos acessórios.

«É uma gota de água no oceano da produção do grupo, que representará 4 por cento da facturação das lojas MacModa em termos da colecção de Verão e uns 6 por cento em relação à próxima colecção de Inverno», prossegue o nosso interlocutor, para mostrar o carácter ‘piloto’ da inovação. Recorde-se que as lojas facturaram 9 milhões de contos em 1997 e o grupo, no conjunto, 25 milhões. Estamos a falar, por isso, de uns trocos.

Mas a consciência do carácter estratégico destes primeiros grãos - e simultaneanente do risco da ‘experiência’ - é assumido não só por Vasco Nina, como por Rui Cardoso, o filho de Joaquim Cardoso, o ‘Senhor Maconde’ que há seis anos atrás encabeçou um ‘management buy out’ da empresa, passando-a da mão de capitais holandeses (a ‘holding’ MacIntosh) para um grupo de quadros nacionais. «É uma aposta muito pessoal. Sempre acreditei que era possível vendermos qualidade com marca própria. Esta colecção está a dar-me, por isso, um prazer diferente», diz-nos o jovem Cardoso, que trata por tu tudo o que tem a ver com os trapos, e que tem o cargo de Director Comercial Adjunto e responsável em particular para o mercado português.

O passo futuro poderá ser a internacionalização da marca própria em parceria com grandes cadeias de retalho internacionais numa lógica de ‘loja dentro da loja’. «A nossa estratégia a médio prazo passa obviamente por aí. No entanto, neste momento estamos concentrados em consolidar o conceito ‘Alto Collection’ e sentir o ‘feed back’ do nosso mercado», prossegue o nosso interlocutor, que refere alguns ‘ajustes’ já em curso como uma maior atenção ao profissional jovem na colecção de Inverno e a introdução de elementos de ‘merchandising’ alusivos ao «Tessuti by Marzotto».


O segredo da equipa

Apenas com 28 anos, Rui forma com Vasco, apenas um ano mais velho, «uma boa equipa, completamente entusiasmada, bem jovem, que assumiu posições importantes na empresa, ao mesmo tempo que se iniciou uma renovação de quadros intermédios em vários pontos chave», sublinha Henrique O’Neill, da Associação para o Desenvolvimento das Telecomunicações e das Técnicas Informáticas (Adetti), ligada ao Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), de Lisboa. A junção de Vasco Nina com o jovem Cardoso é particularmente interessante - o primeiro veio da gestão de clientes da Xerox, há apenas pouco mais de um ano, e trouxe a sensibilidade do marketing e do uso das novas tecnologias; o segundo, segue a tradição familiar dos trapos, e é considerado o ‘interface’ ideal entre a parte comercial e o mundo dos criativos de moda e dos tecidos. Segundo O´Neill, «é fundamental que a representação nos consórcios de cooperação esteja a cargo de pessoas abertas a novas ideias - e ser jovem ajuda -, mas com capacidade para poder assumir compromissos e tomar decisões a nível de gestão, com total apoio do topo».

Ao entusiasmo da onda jovem juntou-se a facilitação que as chamadas novas tecnologias estão a trazer às fábricas e aos negócios de produção de bens tangíveis, como é a roupa. O´Neill e a Adetti têm vindo a apoiar esta mudança estratégica através de um projecto comunitário denominado AITEAR (cuja tradução dá pelo nome completo de "Infraestruturas de tecnologias de informação avançada para uma reposição rápida num conceito de empresa ampliada", e que pode ser consultado em http://www.aitear.com) inserido no programa Esprit. Foi no quadro deste projecto facilitador de estratégias de cooperação transnacional que a relação com a Marzotto deu o salto qualitativo actual.


A cola que abre horizontes

Numa empresa que é uma ‘instituição’ da exportação nacional, as barreiras psicológicas às novas soluções e os hábitos arreigados à antiga filosofia da confecção são «algo natural, sobretudo a nível operacional, que levam as pessoas a descrer que seja possível fazer coisas radicalmente diferentes», refere Vasco Nina. A introdução do uso do correio electrónico e da videoconferência nas relações com os parceiros do projecto AITEAR foi uma «pequena revolução», agarrada com entusiasmo pelos jovens dirigentes da Maconde.

O uso de catálogos electrónicos de tecidos, a aprendizagem dos métodos de trabalho cooperativo e o desenvolvimento futuro do EDI numa plataforma Internet acelerará o relacionamento entre as várias partes da cadeia de valor da confecção. «Tudo isto forma uma cola invísivel que permite abrir horizontes e garantir o objectivo central de uma reposição rápida de fatos na distribuição», sublinha O’Neill. A reposição rápida é uma variante do ‘just in time’ e está na mesma onda da ‘resposta rápida’, hoje considerada a arma competitiva em diversos sectores industriais que vivem de satisfazer o cliente final com rapidez e qualidade total. Finalmente, as alterações estratégicas têm a sua natural consequência nos processos de fabrico. Por ora, uma pequena ‘ilhota’ no «layout» fabril, o impacto da nova filosofia da ‘reposição rápida’ poderá «vir a atingir os 25 por cento da nossa produção no prazo de um ano», conclui Vasco Nina.

Data de Reportagem: Maio 1998