Lisboa a meio da tabela

A capital portuguesa resiste à regionalização ibérica do seu papel e está entre as 15 metrópoles europeias que vão atrair mais localização de empresas europeias até 2008, segundo o European Cities Monitor divulgado pela Cushman & Wakefield Healey & Baker

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Outubro 2003

Sítio na Web: www.cushmanwakefieldeurope.com

Os bloqueios estruturais de Lisboa a remover
European Cities Monitor 2003 revela tendências geo-políticas
Top 15 de melhores cidades para negócios na Europa

DESTAQUES

Imagem de Lisboa
A capital portuguesa resiste à regionalização do seu papel na Península Ibérica - em 2008 será a 12ª cidade europeia em termos de localização de multinacionais europeias.
É, também, menos afectada pelo "choque" da viragem a Leste, do que cidades como Munique, Berlim, Roma, Dusseldorf, Viena de Áustria, Copenhaga, Hamburgo, Atenas e Estocolmo.

Pontos fortes tradicionais de Lisboa
Custos de pessoal - Varsóvia lidera, seguida de Budapeste, Praga, Lisboa e Barcelona.
Incentivos financeiros e fiscais - Lisboa caiu para 13º lugar, descendo 4 posições em relação a 2002, estando numa posição desfavorável face a Dublin, Praga, Amsterdão, Varsóvia, Madrid, Barcelona e Glasgow.
Relação qualidade/preço dos seus escritórios - lidera o "ranking" neste critério.

Pontos fracos de Lisboa
Acesso a mercados - 20º lugar (subiu 3 posições em relação a 2002).
Disponibilidade de pessoal qualificado - 28º lugar, antepenúltima posição (desceu uma posição em relação a 2002).
Ligações interurbanas e internacionais - 22º lugar (subiu uma posição).
Qualidade das telecomunicações - 25º lugar.

A capital do Tejo subiu duas posições no "ranking" europeu situando-se a meio da tabela de classificação das 30 melhores cidades europeias para realização de negócios, analisadas pelo European Cities Monitor, anualmente publicado, desde 1990, pela consultora Cushman & Wakefield Healey & Baker (CWHB).

Nos resultados divulgados em Outubro de 2003, Lisboa readquiriu a posição alcançada em 1998, aquando da notoriedade em virtude da Expo 98, situando-se, agora, em 15º lugar, tendo ultrapassado Praga, a capital checa, e Estocolmo, a capital sueca, que estavam à sua frente no ano passado.

A capital portuguesa encontra-se confortavelmente distanciada de Varsóvia (22º lugar), Budapeste (23º), Viena (24º) e Atenas (30º), aos olhos dos 501 gestores de topo de empresas europeias inquiridos em Julho passado pela Taylor Nelson Sofres para a CWHB.

Sinais de optimismo

Ainda que Lisboa não consiga alcançar a primeira divisão deste campeonato - as primeiras dez posições da lista - e continue muito distanciada em termos de imagem e das outras duas cidades ibéricas internacionais (Madrid e Barcelona), os responsáveis europeus pela estratégia de localização de investimentos olham a cidade com optimismo.

Daqui a cinco anos classificam-na em 12º lugar em termos de presença de empresas europeias. E encaram-na como estando a realizar um esforço assinalável em termos de promoção, similar ao de Varsóvia e aproximando-se, neste critério de marketing territorial, de Barcelona (a cidade campeã nesta área), Madrid, Berlim, Praga e Paris.

Esta expectativa de localização de filiais de multinacionais europeias em Lisboa até 2008 revela, ainda, dois sinais importantes.

Face ao "choque do Leste", Lisboa comporta-se melhor do que Munique, Berlim, Roma, Dusseldorf, Viena, Copenhaga, Hamburgo, Atenas e Estocolmo, que deverão sentir mais agudamente este "desvio" de investimentos do que a cidade atlântica.

Apesar da emergência de quatro cidades da Europa de Leste - Moscovo, Varsóvia, Praga e Budapeste - como grandes "imanes" de investimento nos próximos cinco anos, a capital portuguesa não é "esmagada" por esta deriva do investimento europeu para a Euro-Ásia. E face a este "choque do Leste", Lisboa comporta-se melhor do que Munique, Berlim, Roma, Dusseldorf, Viena, Copenhaga, Hamburgo, Atenas e Estocolmo, que deverão sentir mais agudamente este "desvio" de investimentos do que a cidade atlântica.

Ainda que distanciada do bloco de sete cidades europeias que vão estar na moda do investimento - Moscovo, Varsóvia, Praga, Budapeste, Paris, Madrid e Barcelona -, Lisboa não foi "empurrada" para o nível de importância "regional" em que estão Sevilha ou Saragoça.

Por outro lado, revela que Lisboa continua a resistir, com êxito, à sua regionalização ibérica. Os decisores europeus colocam-na em 10º lugar (numa lista das 30 melhores, recorde-se) no critério de presença obrigatória das suas filiais e encaram-na como um dos principais destinos de expansão nos próximos cinco anos.

Ainda que distanciada do bloco de sete cidades europeias que vão estar na moda do investimento - Moscovo, Varsóvia, Praga, Budapeste, Paris, Madrid e Barcelona -, Lisboa não foi "empurrada" para o nível de importância "regional" em que estão Sevilha ou Saragoça, duas cidades ibéricas referidas no estudo como indo atrair filiais europeias até 2008.

Estas duas "resistências" de Lisboa revelam que a capital portuguesa tem ingredientes estruturais que alimentam o seu interesse estratégico para a localização de firmas europeias - não só em relação ao próprio mercado português, como também em virtude do seu papel de plataforma para outros mercados além-Atlântico ou de base de "outsourcing" em diversas áreas.

Recuo em relação aos anos 90

Apesar destes sinais positivos, a capital portuguesa revela um comportamento muito irregular na última década. Olhando as posições que alcançou desde o início da publicação deste estudo em 1990, Lisboa não recuperou, ainda, as classificações obtidas em 1991 e 1992, quando a sua notoriedade a colocou à beira do "top 10" de melhores cidades europeias.

Em termos de marketing territorial, é indispensável um estudo comparativo em relação às cidades europeias que melhor se souberam promover - como Barcelona, Madrid e Dublin (capital da Irlanda) - e às que revelam ter os melhores programas de desenvolvimento - novamente Barcelona e Madrid, a que se acrescentam Berlim e Praga.

A comparação com Barcelona e Madrid ao longo da década é esclarecedora - as capitais espanhola e catalã mantiveram uma tendência ascendente imparável. Hoje estão muito próximas da notoriedade de Bruxelas e de Amsterdão. E, na previsão, para 2008, Madrid deverá subir ao terceiro lugar e Barcelona ao quinto em termos de localização de filiais europeias.

O estudo da CWHB recomenda, por isso, em termos de marketing territorial, um estudo comparativo em relação às cidades europeias que melhor se souberam promover - como Barcelona, Madrid e Dublin (capital da Irlanda) - e às que revelam ter os melhores programas de desenvolvimento - novamente Barcelona e Madrid, a que se acrescentam Berlim e Praga.

Os bloqueios estruturais de Lisboa a remover
O estudo da Cushman & Wakefield Healey & Baker (CWHB) permite, também, avaliar os pontos fracos da capital portuguesa.
Os critérios fundamentais para a tomada de decisão na localização de investimentos não se centram mais no custo de pessoal (que é colocado em quinto lugar nas prioridades de análise) ou nos incentivos financeiros e fiscais (que se situam em sexto lugar nas preocupações). Critérios como a existência de "clusters" - o que, apenas, atrai 9% dos inquiridos - ou a flexibilidade das leis laborais - que só motiva 6% - têm uma expressão muito apagada.
Os critérios fundamentais para a tomada de decisão na localização de investimentos não se centram mais no custo de pessoal (que é colocado em quinto lugar nas prioridades de análise) ou nos incentivos financeiros e fiscais (que se situam em sexto lugar nas preocupações).
A maioria dos 501 inquiridos coloca como factores decisivos o acesso ao mercado (58% dos respondentes ao inquérito), a disponibilidade de pessoal qualificado (57%), as ligações interurbanas e internacionais (56%) e a qualidade das telecomunicações (49%). É, neste quadro de prioridades de decisão estratégica, que a posição da capital portuguesa é, ainda, muito frágil.
Nas 30 cidades europeias analisadas, Lisboa está em 20º lugar no acesso aos mercados, em 22º nos transportes interurbanos e internacionais, em 25º na qualidade das telecomunicações e em 28º na qualidade de pessoal qualificado - a dois lugares da pior cidade neste critério. A comparação com Madrid e Barcelona é arrasadora e, nalguns critérios, é também desfavorável em relação a algumas capitais do Leste (nomeadamente no acesso aos mercados e na disponibilidade de pessoal qualificado).
Concorrência feroz nos factores tradicionais
Analisando os pontos fortes "tradicionais" da capital portuguesa, verifica-se que, em termos de custos do pessoal, a concorrência é muito forte por parte de Budapeste, Praga e mesmo Barcelona. E, no que se refere aos incentivos financeiros e fiscais, Lisboa perdeu muita capacidade de atracção, estando numa posição (13º lugar) muito desfavorável face a Dublin, Praga, Amsterdão, Varsóvia, Madrid, Barcelona e Glasgow (País de Gales, Reino Unido).
O problema da imagem de Lisboa é, por vezes, chocante. Há opiniões lá fora que não correspondem à verdade, o que denota falta de marketing territorial.
Apenas num critério não essencial, Lisboa lidera as 30 cidades. Na relação qualidade/preço da oferta de escritórios na cidade. Segundo a CWHB, "a qualidade dos edifícios de escritórios construídos em Portugal melhorou substancialmente ao longo da última década". No entanto, este aspecto favorável pode ser anulado pelo efeito da carga fiscal e da lei do arrendamento que são considerados "altamente penalizantes", o que poderá implicar "um desvio dos investimentos imobiliários para novos países membros da União Europeia com enquadramentos fiscais e legais mais favoráveis", comenta Eric Van Leuven, que dirige o escritório da CWHB em Portugal.
O problema da imagem de Lisboa é, por vezes, chocante. Há opiniões lá fora que não correspondem à verdade, o que denota falta de marketing territorial. Segundo os 501 inquiridos, a capital portuguesa estaria em 24º lugar em termos de línguas estrangeiras faladas, muito abaixo de cidades como Madrid e Barcelona. "É conhecimento comum o facto de se falar muito melhor em Lisboa inglês ou francês. Esta percepção errada demonstra claramente uma das falhas das iniciativas de promoção de Lisboa", segundo aquele responsável da consultora.

European Cities Monitor 2003 revela tendências geo-políticas
O estudo "European Cities Monitor" da Cushman & Wakefield Healey & Baker traz em 2003 algumas conclusões geo-políticas relevantes sobre o peso estratégico das cidades europeias e sobre as tendências nas decisões estratégicas por parte dos 501 decisores de topo ouvidos pelo inquérito anual da consultora.
  • A grande oportunidade do quinquénio é o alargamento a Leste - a abertura de filiais de multinacionais europeias privilegiará até 2008 Moscovo (9% das 501 respostas de decisores de topo), Varsóvia (6%), Praga (5,3%), Budapeste (5%) e Bucareste (2,8%). É grave que os empresários portugueses não estejam sensibilizados para esta tendência de fundo.
  • Continuarão na moda da localização de multinacionais europeias até 2008 as cidades de Paris (4% das respostas), Madrid (3,8%), Barcelona (3%), Lisboa (2,6%) e Bruxelas (2,2%).
  • Londres poderá perder o primeiro lugar no "ranking" a médio prazo, se persistir em ficar de fora da zona euro; Paris poderá ultrapassar Londres nas preferências para estabelecimento de filiais de multinacionais europeias em 2008.
  • Apesar da Alemanha ir reforçar o seu papel de nó estratégico para a Europa de Leste e a Euro-Ásia, cidades como Berlim e Frankfurt irão sofrer com a deriva de investimento europeu para o Leste.
  • Prioridades europeias na Ásia e América Latina - os principais destinos do investimento europeu fora da Europa privilegiam a China e a diáspora chinesa (Beijing como primeiro destino, e ainda Xangai, Hong Kong e Singapura), Brasil (São Paulo como segundo destino), Japão (Tóquio como terceiro destino). Além de São Paulo, mais quatro cidades latino-americana surgem nas prioridades - Buenos Aires, Cidade do México e Santiago do Chile. A aposta portuguesa no continente latino-americano não deverá esmorecer.
  • A América do Norte surge com Nova Iorque como 4º destino e Miami como 10º, e Montreal no Canadá como 15º.
  • A Índia surge com duas cidades - Nova Deli (7º destino) e Mumbai (Bombaim, 11º destino). A Índia é, como se sabe, o paraíso do "outsourcing" de serviços.
  • Lisboa consegue fugir à sua menorização como cidade "regional" ibérica. Subiu para 15º lugar, a meio da tabela das 30 melhores cidades europeias para negócios, e recebe sinais de optimismo na sua marcha até 2008, apesar de diversos pontos fracos.

  • Top 15 de melhores cidades para negócios na Europa
    "Ranking" da Cushman & Wakefield Healey & Baker
    2003 (por ordem decrescente)
     Londres (1ª também em 2002)
     Paris (2ª também em 2002)
     Frankfurt (3ª também em 2002)
     Bruxelas (4ª também em 2002)
     Amsterdão (5ª também em 2002)
     Barcelona (6ª também em 2002)
     Madrid (7ª também em 2002)
     Berlim (subiu dois lugares em relação a 2002)
     Milão (desceu uma posição)
     Munique (subiu um lugar)
     Zurique (desceu uma posição)
     Dublin (manteve-se em 12º lugar)
     Manchester (subiu 6 posições)
     Genebra (subiu um lugar)
     Lisboa (subiu duas posições)

    Evolução comparada da posição no European Cities Monitor (1990-2003)
    Cidade9091929394959697989900010203
    Barcelona1181310766766666 6
    Madrid1713161610996777877
    Lisboa1611111517171417151315161715
    Dublin     14161491212131212
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