MAIS UM "CASE STUDY" EMERGENTE DE METANACIONAL PORTUGUESA

'Lasers' revolucionários nascem na Maia (Portugal)
pela mão da Multiwave Networks

Criada no Silicon Valley por um professor e três ex-alunos portugueses, os laboratórios da Multiwave Networks foram instalados no TecMaia, o Parque Tecnológico da Maia, perto do Porto, em Portugal. Os especialistas dizem que dali vão sair 'lasers' com uma "tecnologia de ruptura". É mais um caso de "metanacional" lusa, criada em Maio de 2001 muito depois do "crash" da Nova Economia, e financiada já este ano em mais de 20 milhões de dólares por capital de risco americano e português. No centro da "start up" está José Salcedo, um ex-professor da Faculdade de Engenharia do Porto e fundador do INESC. Pode ser um exemplo que estimule outros professores e antigos alunos de doutoramento e de mestrado em áreas de ponta a virarem empreendedores - como é também o caso da ChipIdea, saída do IST em Lisboa e sediada no Taguspark, em Oeiras, com um laboratório também no TecMaia. «Em Portugal, os universitários estão acomodados ao funcionalismo público e são avessos ao risco», lamenta Salcedo, 51 anos.

Reportagem por Jorge Nascimento Rodrigues nos labs da Multiwave no TecMaia, Porto, Portugal

Protagonista principal: José Salcedo

A primeira reacção é de incredulidade total. Uma pequena empresa de base tecnológica criada em Maio de 2001 por ex-universitários portugueses...no Silicon Valley, que conseguiu captar, este ano, mais de 20 milhões de dólares em capitais de risco em plena "ressaca" de descrédito de tudo o que cheire a nova tecnologia.

No discurso de apresentação não entram subsídios comunitários, nem lamentos, nem "cunhas" aos políticos, e a plateia que ouviu o principal fundador da Multiwave Networks, José Salcedo, 51 anos, no TecMaia - o Parque Tecnológico da Maia, perto do Porto -, interrogou-se, certamente, se se trataria de algum "OVNI". Para mais, a empresa só espera começar a facturar em 2004. Até lá vai estar a fazer I&D, a desenvolver protótipos, a registar internacionalmente patentes (4 já o foram e mais 3 estão em fase final de preparação) e a organizar-se com quadros de gabarito internacional.

Neste ponto, o leitor dirá que isso são "coisas lá para a Califórnia". Mas não, o laboratório de desenvolvimento e de produção dos protótipos está no TecMaia e envolve mais de 20 pessoas na Multiwave Networks Portugal, a subsidiária da empresa de direito americano sediada em Oakmead Parkway em Sunnyvale, no coração do Vale mais famoso do Norte californiano.

Depois da "bolha" - aparentemente nasceu no "momento errado"

A empresa nasceu aparentemente no "momento errado" - no pós-"crash", ainda que seja um exemplo típico similar ao da vaga inicial de "start-ups" que se financiaram, sem truques, no capital de risco para concretizar ideias revolucionárias quando a Web abriu as portas ao "boom" da Nova Economia.

O parto da Multiwave em 2001 foi quase como uma teimosia, a contra-corrente: «Se conseguisse o financiamento que queria no período pós-'bolha', então estaria a lidar com um ambiente muito mais exigente e a nossa probabilidade de sucesso seria francamente superior. Para a nova empresa seria uma imagem de marca importante», diz Salcedo, que conseguiu, este ano, convencer várias capitais de risco no Silicon Valley, no Colorado e em Portugal.

O segredo é a originalidade dos 'lasers' integralmente construídos em tecnologia de fibra óptica, e não de semicondutores. O que logo "cheirou" a tecnologia de "ruptura" aos especialistas.

Contudo não se convencem as gentes da finança, ainda por cima em período pessimista, com palavras. O segredo é a originalidade dos 'lasers' integralmente construídos em tecnologia de fibra óptica, e não de semicondutores. O que logo "cheirou" a tecnologia de "ruptura" aos especialistas. «A nossa tecnologia muito diferente permite um conjunto de características altamente disruptivas - potência, estabilidade, pureza espectral, fiabilidade e baixos custos de produção», argumenta o ex-professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e co-fundador do INESC nos anos 80, onde fora pioneiro em optoelectrónica.

Feitas as contas, o mercado global para este tipo de dispositivos e sistemas é convincente - está avaliado em 400 milhões de euros em 2006, com um crescimento médio anual na ordem dos 20%. E com um mercado deste tipo, a estratégia da empresa é "naturalmente global" tanto no posicionamento nos mercados como na procura de conhecimento: «Queremos ser uma metanacional», confessa o ex-aluno de engenharia que antes de acabar o curso já construíra em casa um 'laser' de gás nos idos anos 70 do século passado.

Um voo ao Colorado

Não se fazem omeletes sem ovos e José Salcedo aplicou o ditado à letra. O essencial neste tipo de pequenas empresas é o capital humano. Ele começara por convencer à mesa três ex-alunos especialistas na área e colaboradores seus no INESC e numa empresa do grupo Efacec. Com faca e garfo, num restaurante da Maia, Salcedo com João Sousa, Paulo Guerreiro e António Ribeiro começaram a desenhar um "plano" e em Fevereiro de 2001 voaram para Denver, no Colorado, para ouvir um grupo de especialistas que o ex-professor conhecera nos Estados Unidos quando se doutorou em Stanford e trabalhou, entre outros sítios, nos Laboratórios Bell nos anos 70 e 80. «Era para apoiarem ou matarem logo à nascença o projecto», comenta Salcedo.

O primeiro exemplo em Portugal de uma empresa de alta tecnologia típica do Silicon Valley no sentido mais puro

O resultado do voo ao Colorado foi o nascimento «do primeiro exemplo em Portugal de uma empresa de alta tecnologia típica do Silicon Valley no sentido mais puro», nas palavras de António Dias, um dos portugueses do "high-tech" radicado há mais de 20 anos no vale mais famoso do mundo, e convidado para dar a sentença. Hoje António Dias é um dos quatro quadros de topo na sede da Multiwave Networks em Sunnyvale que orientam as áreas do desenvolvimento do negócio, da gestão do produto, do marketing e vendas e das finanças. António conheçera Salcedo na FEUP no princípio dos anos 70 e depois reveu-o em Stanford. «Levei o meu 'sim' ao projecto ao seu extremo lógico com a minha própria participação financeira no primeiro 'round' de financiamento e, mais tarde, aceitei a vice-presidência para a estratégia e as operações», comenta.

Para solidificar o projecto, Salcedo abandonou em Outubro a pasta executiva do grupo e concentrou-se na direcção tecnológica. O cargo de CEO foi entregue, desde Novembro, a um "peso pesado" com mais de 35 anos nas telecomunicações, John O'Rourke, que trabalhara nos Laboratórios Bell, na Hewlett-Packard e na Agilent, onde criara a Divisão de Redes Ópticas. «Choquei com a Multiwave em meados deste ano quando andava à procura de novas tecnologias que permitissem redes com custos muito mais baixos», diz-nos O'Rourke, que não só encontraria o fornecedor que procurava...como arranjaria novo emprego.

Salcedo crê que virá a instalar na Maia uma linha piloto de produção de 1000 unidades por mês. Agora já viaja menos para os Estados Unidos - apenas uma semana por mês - e tem algum tempo para o seu refúgio no Gerês, onde planta árvores e acaba dois livros, um, obviamente, sobre 'lasers' e outro "pensando sobre a vida", que deverão sair em 2003.

20 milhões de "risco"... em período de "ressaca"
Por mais paradoxal que pareça ao leitor, o financiamento dos capitais próprios desta "start-up" tecnológica fez-se num período que continua a ser de reacção emocional à agonia que se seguiu ao "crash" da Nova Economia. No "round" institucional deste ano que mobilizou 20 milhões de dólares participaram a Vanguard Ventures, a Dynafund Ventures e a El Dorado Ventures, do Silicon Valley, a Wolf Ventures, do Colorado, e, em Portugal, o BCP Capital, a Inter-Risco, a Change Partners e a Cofina.

«Quando José me descreveu o trabalho que estava a fazer, fiquei logo excitado»,
Larry Schwerin, Vanguard Ventures (Palo Alto)

«Quando encontrei José Salcedo em Denver e ele me descreveu o trabalho que estava a fazer, fiquei logo excitado», diz-nos Larry Schwerin, da Vanguard, de Palo Alto, que é a principal investidora. Larry pertence a uma capital de risco com mais de 20 anos que "fareja" tecnologias de ruptura e aposta na fase inicial das "start-ups" que surgem. O californiano pediu a José Salcedo "uma prova", um protótipo com um conjunto de especificações para dali a cinco meses. «A equipa não só me colocou nas mãos o protótipo, como o primeiro 'laser' multi-frequência», recorda.

«Esta empresa é um caso muito especial»,
Luís Feria, administrador do BCP Capital (Portugal)

O mesmo sucederia em Portugal. «Apesar de estarmos em plena ressaca da bolha especulativa», sublinha Luis Feria, administrador do BCP Capital, «apostámos nesta empresa que é um caso muito especial». O que o sugestionou também foi a "tecnologia de ruptura, de nova geração", mas dá realce "à portugalidade" das opções de Salcedo ao querer envolver capitais nacionais e estabelecer o laboratório em Portugal. O BCP Capital deu pontos extra à coesão da equipa, à capacidade de liderança e pragmatismo de Salcedo, ao realismo do modelo de negócio, ao envolvimento de investidores americanos "especializados no sector" e aos académicos que enchem as cadeiras do comité de aconselhamento.

«A atitude de sobriedade nos custos permitiu-lhes passar a salvo pelo meio da depressão do sector das telecomunicações»,
Professor Robert Byer (Stanford University)

Entre os académicos conta-se Robert Byer, professor de Física Aplicada e presidente do Instituto de Fotónica da Universidade de Stanford. Visitou a empresa em meados de 2001 e ficou impressionado com a sobriedade dos custos e o trabalho duro. Byer tinha sido o orientador do mestrado de Salcedo nos anos 70. «Foi acertado terem tomado essa atitude desde o princípio, o que lhes permitiu passar a salvo pelo meio da depressão do sector das telecomunicações», conclui o professor.

A Multiwave Networks já valerá 29 milhões de dólares. Acrescentou 7 milhões de valor acrescentado aos capitais próprios de 22 milhões, sem ter ainda facturado um cêntimo.

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