Um «crash» à vista na economia digital?

Foto: Paul Krugman

Jorge Nascimento Rodrigues com Paul Krugman
no MIT, em Cambridge (Boston)


Publicado no Expresso/Economia de 1/11/97 em versão mais reduzida


Começam a avolumar-se sinais de um «crash» bolsista futuro muito especial. A novidade é que, pela primeira vez, poderá machucar a sério o coração da economia digital. Uma vez mais, o economista Paul Krugman num discurso «politicamente incorrecto» alerta para o que poderá não agradar aos arautos da chamada «nova economia», uma corrente de optimistas furiosos que crê que, por efeito de magia da tecnologia digital, os ciclos económicos desapareceriam por milagre e as crises bolsistas idem. Este dogma tem favorecido o «sobreaquecimento» do mercado de capitais, segundo o polémico economista.

Krugman, depois de ter estado um breve período em Stanford, na Califórnia, voltou a casa, ao Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge, onde num pequeno gabinete do terceiro andar da Sloan School of Management, no Departamento de Economia, nos recebeu no meio de pilhas de documentos e entre a azáfama dos papeis dos seus dois próximos livros [um coligindo textos seus já publicados e outro, mais especializado, sobre geografia económica].

Para quem tenha apostado toda a sua fé - e dinheiro - na "nova economia", Krugman deixa alguns avisos (premonitórios?). Mas confessa que se tornou um «viciado» no correio electrónico e na Internet. Aliás, esteve todo o tempo nervoso com os olhos postos no écran do seu PC, pois esperava um «e-mail» importante do outro lado da América.

Como os assuntos europeus foram o prato forte da sua recente estada em Portugal, abrimos outros «dossiers» do irreverente Krugman.


Depois do seu livro, no ano passado, contra os "pop-internacionalistas" [Pop Internationalism]- essa nova corrente de proteccionistas com argumentos de «esquerda» -, em que criticava a «entourage» de Clinton, o que é que tem no prelo?

PAUL KRUGMAN -- «Os Teóricos Acidentais», onde vou coligir artigos que escrevi nas revistas «Foreign Affairs» e «Slate» (esta é «on line», onde tenho uma coluna), e nos diários USA TODAY e New York Times. Estes «teóricos» não sabem que o são e muito menos que são muito maus economistas! Também, tenho em mãos uma obra mais técnica sobre Geografia Económica, que se vai chamar "A Economia Espacial".

Depois dos "pop-internacionalistas", parece ter virado, agora, as baterias contra uma espécie de ultra-pessimistas, cujos expoentes que conhecemos na Europa dão pelo nome de Viviane Forrest - com «O Horror Económico», um livro de grande impacto publicado em França - e o americano Jeremy Rifkin, com «O Fim do Trabalho». Você começou a ficar preocupado a partir do momento em que o primeiro-ministro Lionel Jospin, em França, aparentemente lhes dá razão...

KRUGMAN -- Está a referir-se ao meu último artigo na revista «Foreign Affairs» [edição de Setembro/Outubro 97] sobre o que eu chamo de «global glutters»? Mas, na realidade, eu estou preocupado com duas correntes e meia. Do ponto de vista económico, são pura conversa fiada, mas são "apelativas" politicamente. Além desses «global glutters», que acham que o capitalismo é uma fartura de produtividade e que apelam ao «corte» do lado da capacidade produtiva e à partilha do tempo de trabalho, sem querer ir ao fundo das causas da situação de desemprego persistente (nomeadamente na Europa), há toda essa corrente do "novo paradigma económico", que se tem deixado empolgar pelo bom clima de negócios na América e que arranjou as mais diversas justificações, muito coerentezinhas, sobre a euforia do valor das acções dessa "nova economia". As implicações para o mercado de capitais vão sentir-se em próxima ocasião. [Recomendo aos seus leitores que leiam o meu pequeno artigo na revista «Fortune» que vai ser publicado em 10/11/97 - "Millenial Optimism confronts reality. Requiem for the New Economy", pg.16 na edição em papel, ou ver volume 136, nº9 em http://fortune.com]

E qual é a "meia" corrente que também o preocupa?

KRUGMAN -- Não sei se têm ouvido falar na Europa da «bionomia»? Tem altos patrocínios aqui nos Estados Unidos [a revista «Forbes» e o Instituto Cato...]. É uma gente que faz uma mistura entre a biologia e a economia, mas que não percebe nada nem de uma coisa nem de outra!

Mas voltando aos primeiros sinais negativos sobre a euforia bolsista em torno das «estrelas» da economia digital. Muitas expectativas estão a começar a sair furadas. Aliás, a Wall Street nova-iorquina tem andado muito sensível às acções da economia «high-tech». As explicações do valor do "imaterial" não parecem convencer uma abordagem de mais longo prazo...

KRUGMAN. -- Houve Tóquio, não foi? Certamente por outras razões. Teremos Nova Iorque em 99? Ou antes, em 98? Não sei, não sou adivinho. Mas essas justificaçõezinhas todas sobre a nova economia não colam com a teoria económica. Em poucas palavras, e muito a crú: a «nova economia» não faz sentido nenhum, e se jogarmos fora toda essa parafernália intelectual vemos claro aquilo que entra pelos olhos a dentro - o «boom» do mercado bolsista não é mais do que uma enorme bolha! Você tem visto o que o próprio Alan Greenspan, o presidente da Reserva Federal [o equivalente ao Banco Central], tem vindo a alertar, apesar de anteriormente ter parecido endossar essa doutrina da «nova economia»? Ele parece estar claramente preocupado com a possibilidade de "irracionalidade exuberante" (são as palavras que lhe são atribuídas) no mercado de capitais.

Curioso, também, o facto de que os primeiros estudos sobre o impacto de uma crise bolsista na economia digital começaram a surgir agora. Um estudo divulgado aqui em Boston afirma que o vosso Estado será dos mais vulneráveis mesmo só com um tremorzinho na Wall Street.

KRUGMAN - Nem mais.

Mas não vê grande valia teórica nas análises que têm sido feitas sobre as novas «leis» da economia digital? Estou a lembrar-me de um artigo recente na revista «Wired»...

KRUGMAN -- Eles [da «Wired»] também me pediram para escrever sobre essa matéria, dentro dessa onda. Oxalá que eu também acreditasse nisso, mas não. Não lhe encontro qualquer «cheiro» de rigor na análise económica.

E sobre as novas teorias do crescimento, em que a tecnologia surge a desempenhar um papel crucial? Estou a lembrar-me dos trabalhos de Paul Romer.

KRUGMAN -- Os artigos de Romer dos anos 80 são muito bons. Mas não se tem encontrado muita confirmação empírica da hipótese. Talvez [a tecnologia] seja importante, mas será que o é mais hoje do que o era há 200 anos? Não há ainda modelos muito claros. Estou céptico sobre se essa teoria vai funcionar ou não. A prosa mais recente em teoria económica, pode muito bem não ser a coisa mais recente em economia!

Quando o professor diz umas quantas verdades a contra-corrente, quase que o crucificam. Estou a lembrar-me dos seus artigos de há três anos desmontando o "milagre económico" asiático. Depois chamou à atenção para as lições da crise do México em relação aos mercados emergentes. Mais tarde, a realidade encarregou-se de fazer a demonstração por si. Crise no Japão, agora seguiu-se o Sudeste Asiático, e até a própria Hong Kong já foi beliscada pelo tufão...

KRUGMAN - De facto, quando eu escrevi que não tinha havido milagre económico asiático nenhum e que os "valores asiáticos" não eram o suprasumo, ninguém concordou. Agora todos estão a descobrir que os asiáticos são vulneráveis. Eu não me coloquei a prever crises. Elas depois até foram piores do que eu próprio esperava. Veja o caso da Malásia, que foi colocada no pedestal. A glorificação do primeiro ministro Mahathir foi enorme, e olhe no que deu, com ele a atacar, de cabeça perdida, primeiro Soros, e agora até os judeus! Era preferível que os líderes asiáticos fossem mais modestos e realistas. A crise seria menos profunda e demoraria menos.


CARTÃO DE VISITA DE PAUL KRUGMAN


Ele esteve recentemente em Portugal pela segunda vez no espaço de mais de vinte anos, e deixou o público português desapontado com a sua opinião crua e nua sobre os problemas europeus (vidé entrevista ao jornal Publico de 13/10/97). "Mas foi tudo tão rápido, que não me ficou nada de especial gravado", diz com aquele seu ar meio tímido, que encobre um dos mais polémicos economistas americanos.

Ficou admirado de o taxarem de "conservador" entre nós, ele que é considerado um "liberal" nos Estados Unidos, onde «liberal» não tem o mesmo significado que na Europa como se sabe. Quem tenha lido Peddling Prosperity percebe a crítica à direita e à esquerda, e em particular a desmontagem da mitologia, das artimanhas e das políticas de direita do período, então ainda bem fresco, a que ele próprio chama de "economia conservadora", forjada por "vendilhões de políticas económicas".

Mas no fundo o que ele sempre faz é, sem papas na língua, argumentar contra as doutrinas políticas "com creme de economia no topo" e contra os aprendizes que se dão ares de grandes teóricos, tenham eles a etiqueta política que tiverem.

Escreve, por isso, colunas nos jornais e revistas mais lidas pelos decisores e políticos do mundo numa linguagem exigente em termos doutrinários, mas acessível, popular. Ficaram célebres nos últimos anos os seus escritos "malditos" na revista «Foreign Affairs». O último que escreveu neste revista desanca num novo tipo de falsos economistas com algum impacto na Europa («Será o capitalismo produtivo demais?», edição de Setembro/Outubro 97). Recentemente, repetiu na «Time» (29/09/97) a desmistificação do "milagre asiático" que já fizera em 1994.


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