Rosabeth Moss Kanter, a mulher de Harvard,
fala da vantagem competitiva das cidades

Há uma grande guerra em curso entre dois géneros de cidades. De um lado, há as que se cosmopolitizaram, que conseguiram casar o "local" com o "global". Do outro, as que ainda não conseguiram sair da sua paróquia, as que se tingiram de cinzentismo provinciano e que, por isso, definham. As primeiras promoveram novas estratégias, através das quais estão a posicionar-se para competir no próximo século; as segundas deixam morrer as indústrias e serviços, perdem os quadros, ou seja, desertificam-se.

Rosabeth Moss Kanter, uma das melhores especialistas da famosa Harvard Bussiness School, foi à procura dos ingredientes da vantagem competitiva das cidades e descobriu três cês, uma teoria que é explicada no seu novo livro "World Class - Thriving Locally in the Global Economy", acabado de lançar nos Estados Unidos e que já está no topo da lista de "best-sellers".

A EXECUTIVE DIGEST entrevistou-a na célebre universidade americana, em Cambridge (Boston), e pediu-lhe que explicasse alguns dos pontos centrais deste seu último livro, cuja investigação contou com o auxílio de Michael Porter, com quem aliás tivemos oportunidade de nos cruzar por breves momentos nos corredores de Harvard. Ambos são simultaneamente "cosmopolitas" e "bostonianos" ferranhos, preocupados civicamente com o andamento da sua comunidade que, nos últimos anos, tem demonstrado um renascimento notável.

Boston transformou-se, de facto, numa fábrica de ideias, em grande parte devido à acção de suas universidades: Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a Harvard Bussiness School. O MIT foi o berço da reengenharia, assinada pelo professor Hammer e pelo consultor Champy, e do conceito de "learning organization", através do professor Peter Senge. Também a actividade do Media Lab desta universidade, cujo pai é Nicholas NegroPonte, e a sua batalha visionária nos últimos dez anos em torno do multimédia tem suscitado grande curiosidade internacional. Harvard, pelo seu lado, todos os semestres debita novidades de "management", através de nomes sonantes com Porter, Chris Argyris, John Kao, Cristopher Bartlett e Steven Wheelwright. Os seus alunos são requisitados pelas maiores consultoras estratégicas como a McKinsey, Boston Consulting Group, Monitor Company, CSC Index e Booz Allen & Hamilton.

Desta vez, e pela mão de Rosabeth Moss Kanter, ex-editora da Harvard Bussiness Review e autora do best-seller "When Giants Learn to Dance", as novidades interessam a todos os cidadãos, em particular aos homens do planeamento estratégico municipal e regional, bem como a empresários e activistas na renovação urbana.


Como é que começou a interessar-se pelo problema da renovação urbana e da competitividade das cidades, que é o tema central deste seu novo livro "World Class"?

ROSABETH MOSS KANTER - Pela constatação de um paradoxo. Quanto mais eu observo as tendências globais que afectam positivamente cidades e regiões, que tenho visitado em países em desenvolvimento, mais estou preocupada em compreender os impactos dessas mudanças nas cidades e regiões dos países com um desenvolvimento mais maduro. O mundo dos negócios está cada vez mais interessado em desenvolver as suas cadeias de valor, as suas redes, fora das suas regiões de origem, e o próprio comércio internacional tem aberto novas oportunidades. Isso é óptimo para as empresas pois abre-lhes as portas dos mercados globais e liberta-as de estarem prisioneiras dos mercados locais...

O seu artigo de opinião no International Herald Tribune tinha, aliás, um título sugestivo: "Quando as empresas globalizam, as cidades ficam para trás"...

R.M.K - Nesse texto referia que, a reorganização industrial (com a deslocalização) e dos serviços (incluindo os bancos), bem como a emergência de novas indústrias (como as telecomunicações), estão a significar para as cidades a perda das sedes das corporações. Paralelamente, os líderes empresariais com consciência cívica estão a ser substituídos por gestores sempre em trânsito, que acumulam milhas de voo. Atenta a esta realidade comecei a ficar muito interessada em perceber o que se passava na minha própria região natal, Boston, e constatei que com a globalização passou a haver um crescendo de interesse pelo desenvolvimento regional. Começou a gerar-se um conjunto de questões de fundo para reflexão. Sobre qual é a unidade de governação adequada neste novo mundo global, se a Nação ou a macrorregião (como na vossa Europa). E, ao mesmo tempo, há também um renascimento do papel das cidades e das suas áreas metropolitanas, que são regiões mais pequenas. As cidades estão a assumir maior responsabilidade neste novo contexto. Na própria Europa, o grupo das eurocidades é um assunto interessante a seguir.

Que relação encontra entre os seus conceitos sobre a emergência das cidades e das áreas metropolitanas e a teoria de Kenichi Ohmae sobre a emergência das regiões, no seu último livro: "The End of the Nation State"?

R.M.K - Kenichi fala de regiões ainda maiores, que ultrapassam as fronteiras dos países actuais. Essas tendências transfronteiriças estão, de facto, a acontecer. Algumas sub-regiões dentro de alguns Estados-Nação estão a afirmar-se. Por exemplo, nos Estados Unidos há regiões fronteiriças com fortes relações com o Canadá que seguem essa lógica, e também na fronteira entre a França e a Alemanha. Julgo que continuarão a existir Estados-Nação, mas que, em simultâneo, estão a emergir muitos outros mecanismos de governação. É o caso, por exemplo, de algumas associações económicas, algumas muito maiores que Estados-Nação. Assistimos, assim, ao nascimento de mais níveis de coordenação, e de integração e de mais redes de cooperação, em que alguns desses níveis assumirão papéis que antes eram desempenhados pelos Estados-Nação. Isto significa que precisamos de uma grande flexibilidade. Nalgumas áreas assistimos a uma maior coordenação internacional, noutros casos surgirão blocos comerciais regionais, e noutros ainda aparecerão unidades económicas mais pequenas. Por exemplo, vemos isso nos Estados Unidos. Há aqui muitas sub-regiões económicas a moverem-se, tal como as cidades e os Estados da Federação estão a mover-se também. O mesmo acontece nalgumas cidades europeias. Ora, todas as cidades no mundo estarão interessadas em relações directas entre si, para trocas comerciais e de informação, e provavelmente até o farão sem o envolvimento dos seus Estados-Nação respectivos.

Mas, apesar de toda essa emergência urbana, para além das poucas megacidades "globais" existentes no mundo (como Nova Iorque, Londres, Tóquio...), existirá de facto um lugar nesta era da globalização para outras cidades?

R.M.K.- Obviamente. A minha colega Saskia Sassen, descreveu no seu livro, "The Global City", três delas que são actualmente capitais financeiras globais: Nova Iorque, Londres e Tóquio. Nessas cidades há muitas outras especializações em serviços profissionais, mas elas são basicamente capitais financeiros. Na Europa, creio que Frankfurt está também a tentar posicionar-se nesse jogo. Mas, poderão existir mais cidades globais especializadas noutras áreas, para além da financeira. Nos Estados Unidos, há outros casos. A minha cidade, Boston, ou a região de Silicon Valley, ou da baía da São Francisco, são capitais do ensino superior e de inovação tecnológica. Miami é a capital de comércio com o Sul dos Estados Unidos, tal como Hong Kong e Singapura funcionam como placas giratórias para a China. Estas duas últimas desempenham funções que Tóquio não desempenha e vice-versa. No fundo, penso que na economia global há lugar para os mais diversos tipos de cidades se tornarem centros globais. O problema é este: como é que se adquirem competências específicas para o desempenharem.

Como é que isso é possível? Pode dar-nos alguns exemplos?

R.M.K. - Deixe-me falar-lhe de casos recentes, nos Estados Unidos, de cidades que conseguiram "dar a volta". Por exemplo, Atlanta, onde se vão realizar os Jogos Olímpicos de 1996, transformou-se num centro internacional. E como cidade captou muitas sedes de multinacionais da área produtiva ou de serviços, tornou-se num centro de inovação e uma verdadeira placa giratória. Dou-lhe outro exemplo: na própria área financeira que fiz referência, há outras cidades, para além das três grandes globais, que descobriram o seu lugar à escala global. Por exemplo, Boston é a capital de um dos sectores financeiros de crescimento mais rápido - o dos fundos de investimento.

Ora, precisamente em relação às "especializações" competitivas possíveis por parte das cidades, como é que descobriu os três cês de que fala neste seu livro?

R.M.K. - Falando com imensas empresas, entrevistando, fazendo consultoria, estudando os casos e indo além das preocupações correntes dos últimos com os cortes nos custos; e depois com a reengenharia, olhando para as empresas que mais cresceram e procurando detectar padrões que sustentam tendências globais. Verifiquei que esse crescimento se deve ao investimento em inovação, em aprendizagem, em novas qualificações da mão-de-obra e, sobretudo, à criação de conexões e vias de colaboração, apostando no conceito de vantagem colaborativa. Num dos casos que estudei, o da Gillete - faça-se um parêntesis para lhe referir que esta empresa foi fundada aqui, em Boston, em 1901, por King C. Gillete -, essa colaboração existe dentro do seu próprio network, uma empresa em que 70% das suas vendas e 75% do seu pessoal estão localizados fora dos Estados Unidos. Noutros casos, verifiquei que as alianças e parcerias estratégicas são um factor crítico para o sucesso das empresas envolvidas. Por exemplo, no sector da electrónica para a defesa, no qual o fim da guerra fria gerou um impacto negativo fortíssimo, observei que, a diferença entre as que "deram a volta" e as outras, está precisamente nesses três cês. Esta história é bem representativa de uma transição com êxito de um mercado protegido (com um cliente local cativo: o militar) para um mercado competitivo. A meu ver, isto tem muito a dizer às empresas europeias, onde tem havido uma cultura de protecção dos "campeões nacionais" ou dos mercados governamentais "cativos". As cidades são feitas pelas empresas, entidades e pessoas que nelas trabalham. Os três cês nascem dessa realidade concreta.

Quer sintetizar o que significam esses três cês de que fala em "World Class"?

R.M.K. - Na economia global de informação em que vivemos, o poder não provém da localização em si, mas da capacidade de operar um desses três "activos" intangíveis: os conceitos, a competência e as conexões. Conceitos são ideias avançadas, desenhos ou novas formulações para produtos ou serviços que criam valor para os consumidores. A competência, por seu lado, é a capacidade de traduzir ideias inovadoras em aplicações para o mercado, produzindo-as de acordo com os melhores standards, com as melhores práticas. Conexões são alianças entre negócios, para alavancar competências centrais, criar mais valor acrescentado, ou simplesmente abrir portas para horizontes mais vastos e para aproveitar a oportunidade de globalização das economias.

Como se traduz essa fonte de vantagem ao nível das cidades e das suas regiões?

R.M.K. - Isso pode significar três cenários. As cidades e regiões podem transformar-se em locais excelentes para conceitos, porque os inovadores podem aí florescer, entrar em contacto com novas formas de pensar e encontrar apoio para transformar as suas ideias em novos negócios visíveis. Ou estas podem diferenciar-se por potenciar a sua competência produtiva, mantendo consistentemente altos standards de fabrico e uma mão-de-obra altamente qualificada. Ou, ainda podem ser regiões que se baseiam em criar conexões para as redes globais, em que os negócios podem encontrar recursos e parceiros, que lhe fazem a ponte para outros mercados. São, todas elas, três formas de ligação do local ao global: ou como "pensadores" ("thinkers"), ou como "fazedores" ("makers") ou como intermediários ("traders").

Outra questão central, que aborda no livro, é o impacto da globalização na coesão social das cidades. Em termos sociológicos, acredita que é possível existir uma aliança entre a "classe" cosmopolita (a world class de que fala no título do livro) e a dos "locais" (os outros cidadãos que não têm hipóteses profissionais de se "globalizarem")?

R.M.K. - Não pretendo fazer uma distinção tão extremada entre "cosmopolitas" e "locais". São apenas duas categorias. Há certos "cosmopolitas" que têm as suas fidelidades locais; e há "locais" que, apesar de seus negócios serem regionais, estão abertos a novas ideias. Ora, esses cidadãos que estão localizados no meio-termo das duas visões, devem aliar-se, construir pontes e diminuir o fosso entre si. Definitivamente, o problema é com os extremos. A questão da coesão surge quando alguns "cosmopolitas" deixam de ter qualquer tipo de laços locais, quando até têm mais de um passaporte e nem sequer são cidadãos de um país concreto. São indivíduos que negoceiam em qualquer parte do mundo, guardam o seu dinheiro num banco da Suíça ou numa das inúmeras ilhas com paraíso fiscal, e não sedimentam ligações sentimentais com qualquer local em particular. E, no outro extremo, temos os cidadãos "locais", profundamente provincianos e que apenas se movem pelo seu grupo restrito de interesses de base nacional ou regional. Portanto, é entre esses dois extremos que prevejo as maiores tensões.

No fundo, está a falar-nos da necessidade de preservar nas cidades as pessoas mais qualificadas e que têm uma visão global da sociedade em que vivemos?

R.M.K. - De facto, penso que no "meio" há que cultivar uma cultura que incentive os "cosmopolitas" a desenvolver laços com os sítios onde operam, nos quais demonstrem ser bons cidadãos; e os "locais" a abrirem-se a novas ideias, a aprender com as outras partes do mundo, levando-os a descobrir novas oportunidades. Essa aliança poderá potenciar o desenvolvimento das economias locais, das regiões, das cidades e dar novas qualificações às pessoas que aí vivem. Por exemplo, no caso das duas cidades da Carolina do Sul (Spartamburg e Greenville), nos Estados Unidos, de que falo no meu livro, os "locais" beneficiaram da presença das multinacionais que ali se instalaram e, assim, também se tornaram mais "cosmopolitas" na sua maneira de pensar.

E como vê a ascensão política dos movimentos nacionalistas e dos chamados "nativistas", um segmento de pessoas revoltadas com os efeitos perversos da globalização que infelizmente é cada vez maior, sobretudo, nos países europeus?

R.M.K. - Há, de facto, grupos políticos, tanto na Europa, como nos estados Unidos, que não estão interessados nesta estratégia e captam o descontentamento de pessoas que não querem a mudança, para o seu proveito pessoal.

Julga que, a teoria da competitividade das nações, do seu colega Michael Porter, já não se adequa à emergência das cidades e das regiões neste final de século?

R.M.K. - Antes de mais, quero referir que tenho ligações de grande amizade, como colega e como bostoniana, com Michael Porter. Penso, no entanto, que por detrás do seu livro "The Competitive Advantage of Nations" está também um conceito de competitividade das regiões. As indústrias de sucesso em cada nação, de que Michael tão bem fala, são "clusters" de desenvolvimento localizados em regiões bem determinadas. Portanto, na minha opinião, essas duas metodologias de análise, a nível nacional e regional, complementam-se muito bem.


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