O cardiologista do ferro

Um cardiologista do Hospital São João, do Porto, lidera negócio da família
na área do comércio do ferro e do aço. Uma empresa à beira dos 80 anos renova-se.

Reportagem na J.S. Correia. Armazéns de Ferro, na Folgosa, Maia (Norte de Portugal)
por Jorge Nascimento Rodrigues

Outras empresas em mudança (em Portugal)

Desde miúdo que Joaquim Alberto Correia dos Santos vivia paredes meias com os Armazéns do avô e do pai. Via os carros de bois puxar uma tonelada de material de cada vez de e para a J.Soares Correia fundada em 1922 e não esquece que apanhava «umas boas tareias sempre que chegava todo 'preto' a casa».

AS LIÇÕES DA J. S. CORREIA
  • Nunca adormecer à sombra dos louros
  • Criar uma estrutura accionista familiar estável
  • Prudência na gestão financeira
  • Conquista de quota de mercado através de aquisições
  • Centragem no cliente
  • Oferta de serviços de valor acrescentado
  • A paixão pelo ferro vem, por isso, desde que usava calções. Mesmo depois, já médico no Porto, e, por mais paradoxal que pareça ao leitor, ele nunca mais largou este comércio grossista de família nos produtos siderúrgicos para a construção civil, a metalomecânica e a metalurgia, que no último ano envolveu mais de 12 milhões de contos de facturação.

    Joaquim Alberto, hoje com 65 anos, é um cardiologista conhecido no Norte. Ele garante que o coração da firma da família está em plena forma depois de ter superado "a doença da terceira geração". «Apesar do bom relacionamento familiar, não ficámos isentos desta doença geracional e, assim, há alguns anos atrás, houve mudanças inicialmente dentro da Administração e depois na própria estrutura accionista que nos permitiram criar um polo de estabilidade», explica-nos o actual presidente do conselho de administração desta sociedade anónima.

    Estratégia de liderança

    A caminho de fazer oito décadas de vida, a longevidade desta empresa familiar é explicada, de um modo simples, pelo nosso "cardiologista do ferro": «Muitas empresas grandes do ramo desapareceram entretanto porque os nossos colegas adormeceram à sombra dos louros e os herdeiros já estavam 'moles' quando seria preciso tomar algumas decisões estratégicas».

    A par desta vigília constante, a empresa sempre se pautou «pela prudência na gestão financeira», diz Joaquim Alberto. «Sempre apostámos na boa solvabilidade e no autofinanciamento», o que garantiu à J.Soares Correia poder enveredar por uma estratégia agressiva de conquista de quota no mercado português sempre que as oportunidades surgissem.

    Sendo o mercado deste sector grossista muito fragmentado, a única forma de crescer e alcançar a liderança centra-se numa paulatina política de aquisições de outras empresas. «É um mercado muito tradicionalista, mas vão havendo oportunidades», refere o nosso interlocutor. Nos últimos anos, a empresa adquiriu a Transferro, a Ferrobeiras, a José Pinto de Magalhães e a M. Cardoso.

    Centrar no cliente

    Reconcentrada em novas instalações na Folgosa, perto da Maia, a J. Soares Correia encetou, também, um novo fôlego comercial e organizacional no último ano e meio, um projecto em que se envolveu a empresa de consultoria Erindale (LINKAR erindale.html). «Num mercado em que a concorrência é muito forte e em que a pressão sobre as margens do negócio é enorme, a atenção ao cliente é fundamental», explica Paula Correia dos Santos, 37 anos, filha de Joaquim Alberto. Economista de formação, Paula representa a entrada da "quarta geração" no negócio da família.

    A focalização no cliente levou toda a estrutura organizacional a uma viragem. Foi criada uma direcção de Serviço de Apoio ao cliente e instituída a função de gestor do cliente, para onde entrou uma nova geração de recém-licenciados depois de um estágio ao abrigo do programa PROCOM.

    Simultaneamente, foi feita uma aposta na prestação de serviços novos aos clientes, que permitam uma fidelização. Alguns destes serviços já são moeda corrente em países da Europa, mas, entre nós, foram pioneiramente introduzidos pela Sardaço, uma empresa do grupo J. Soares Correia, que se dedica ao corte e moldagem de aço por medida, fornecendo-o directamente às obras, com óbvios benefícios económicos no custo, técnicos e logísticos. «O negócio do ferro e do aço tem de ser pensado em novos moldes, tem de apostar no valor acrescentado, tanto mais que um abrandamento da economia poderá ocorrer. O que passámos a oferecer na Sardaço é um exemplo desse caminho», conclui Paula Correia dos Santos.

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