O Mundo segundo Hugues de Jouvenel

 

Global ou local: o que ganhará?

Assistimos a esses dois fenómenos simultâneos que podem parecer antagónicos mas que se cruzam um com o outro: de um lado o fenómeno da globalização, nomeadamente a económica e financeira, e do outro a ascensão das reivindicações de identidade, a expressão de um desejo de re-enraizamento no local.

O século XXI vai ser ainda o da Ásia como os futurólogos garantiam em meados dos anos 80?

No fundo, isso já é uma banalidade. 60% da população reside ali. Muitos países asiáticos - apesar da crise financeira dos últimos anos - continuam com uma dinâmica de desenvolvimento enorme. Parece-me evidente que países como a China e a Índia desempenharão um papel cada vez mais importante. Mas, atenção: um século dura cem anos e entre 2010 e 2090 muitas mudanças podem ocorrer.

Haverá uma superpotência hegemónica no próximo século?

Não me parece. Acho que, depois da queda do Muro de Berlim, estamos a caminhar para um mundo multipolar com países como a China, a Índia, o Brasil, talvez a África do Sul, a exercerem um poder crescente. Mas também é verdade que um certo número de transnacionais - como a Microsoft, a General Motors, a Daimler-Benz - desafiarão o poder dos Estados e induzirão novas repartições do poder mundial. Há uma multiplicação de riscos.

E a Europa conseguirá ser uma grande potência do Atlântico aos Urais como sonham os federalistas europeus?

Eu sou um europeista convicto. Acredito na Europa do Atlântico aos Urais. Mas estou, ao mesmo tempo, bastante perplexo perante as divisões internas desta Europa, perante a sua ausência de uma visão de longo prazo e diante da sua paralisia. O projecto europeu é algo de grande fôlego. Não penso que se possa realizar em poucos anos. Serão necessários decénios. A minha convicção pessoal é que o aprofundamento e alargamento da União Europeia será mais complexo do que se pretende. As escalas de tempo de transição no Leste da Europa são muito mais lentas do que se julgaria à primeira vista. A unificação alemã é um bom exemplo em micro sobre os atrasos e desvios nessa caminhada.

E a Rússia alguma vez conseguirá estar dentro desse projecto na próxima década ou a sua permanente instabilidade é sinónimo de fracasso da revolução capitalista democrática?

A Rússia é um grande país e pertence a este quadro. Está hoje numa situação dramática, mas é preciso contar com ela na Europa do futuro. O comportamento dos ocidentais é irresponsável diante da Rússia, a meu ver. Ela regressará amanhã à cena mundial e um comportamento político europeu errado é perigoso.

Onde está a ameaça estratégica à Europa hoje em dia, caído o Muro de Berlim: no renascimento do 'choque de civilizações', com o eslavismo e o fundamentalismo muçulmano às suas portas, como reclamam alguns?

A maior 'ameaça' resulta da Europa ter deixado de ter um adversário claramente designado. A Europa encontra-se confrontada com riscos multipolares de todo o tipo. A velha distinção entre segurança interna e externa já não tem grande significado, em virtude da multiplicação das mafias, do terrorismo, do casamento crescente entre o legal e o ilegal, etc.. Mas há um ponto fundamental: não subscrevo as análises de Samuel Huntington a que referiu, ligadas ao tal choque de civilizações. Acho dramático que se alimentem estas ideias. A nossa história europeia está marcada, pelo contrário, por uma fertilização cruzada entre civilizações, mais do que por afrontamentos entre elas. No entanto, creio que a hegemonia do Ocidente será posta em causa, e que teremos de fazer uma aprendizagem de um diálogo intercultural baseado no respeito mútuo.

Vão irromper guerras em torno da água um pouco por todo o mundo?

Creio que a escassez de recursos como a água e a sua repartição desigual vão provocar grandes desafios no próximo século e poderão acabar em conflitos de grande dimensão. O domínio e gestão dos recursos em água será a médio e longo prazo muito mais importante do que a posse de petróleo e de gás. Já 'lemos' isso nos sinais do que se passa no Próximo Oriente. É um risco geo-político novo. A arma da água é das mais eficazes, e o risco de conflitos transfronteiriços é cada vez mais possível.

O envelhecimento é a ameaça invisível da Europa?

Parece ser evidente que a queda da fecundidade na Europa se traduzirá num envelhecimento demográfico particularmente rápido no início do século XXI. O impacto económico, social e político deste envelhecimento arrisca-se a ser enorme, se reformas de fundo não forem rapidamente implementadas. Depois, é obvio que se uma dada população não assegura a reposição das suas gerações adequadamente no longo prazo, ela declinará, a não ser que beneficie de fluxos migratórios muito importantes vindos de fora.

Uma das consequências poderá ser a necessidade de trabalhar até mais tarde e não se reformar da vida activa tão cedo?

Reformar-se cada vez mais cedo, como apontam certas reivindicações e legislações no mundo desenvolvido, quando nós vivemos cada vez mais tempo, é evidentemente uma aberração. Até hoje a duração da actividade profissional em relação à duração de vida tem diminuído. Se continuarmos, nesta via, vamos gerar um desequilíbrio enorme entre o número de activos pagantes da segurança social e um número de inactivos cada vez maior beneficiando do sistema. Esse sistema não vai aguentar. Creio, de facto, que é preciso aumentar a duração da actividade profissional ao longo da nossa vida, de modo a reduzir a duração do trabalho semanal e anual. Pode parecer contraditório, mas não é.

Que alternativas existem para os sistemas de segurança nacionais?

Um estudo realizado aqui em França para a revista Futuribles sob a direcção de Gérard Calot revela que, para o período de 1995 a 2045 e para o conjunto dos quinze países da União Europeia, o impacto do envelhecimento demográfico em termos de saúde vai obrigar a uma de duas coisas: ou a aumentar a taxa de quotização em 53% ou a reduzir de 1/3 os reembolsos. Por outro lado, em termos de equilíbrio financeiro dos regimes de reforma, o envelhecimento irá exigir, uma de três opções: ou aumentar a taxa de quotização em 49% ou diminuir de 43% o montante das reformas em relação aos salários, ou, então, aumentar a idade de reforma em 9,9 anos...

A Revolução da Informação e do Digital vai tornar o mundo mais igualitário ou cavará ainda maiores divisões?

Julgo que o sucesso das tecnologias de informação e da comunicação criará naturalmente desigualdades sociais, entre info-ricos e info-pobres, entre tecnofóbicos e tecnófilos. Contudo, creio que essas tecnologias poderão ter impactos profundamente diferentes consoante a forma como serão usadas, o que depende, naturalmente, de escolhas eminentemente políticas.

A Economia Digital é acusada de destruir emprego e de precarizar os novos postos de trabalho que são criados. O que é que se está a passar no mundo do Trabalho?

A organização do Trabalho mudou profundamente no decurso da História - nós é que temos a memória curta. Continuamos a ter como referência a «sociedade salarial» que se desenvolveu a partir do século XIX. O mundo do Trabalho nascido desta sociedade está a sofrer uma metamorfose com a emergência de novas formas de organização e de emprego ligadas ao que já se chama de «sociedade pós-industrial». Creio que há mudanças a que devemos dar a máxima atenção. A gestão baseada no princípio da pirâmide está condenada a desaparecer. A divisão entre os que pensam e os que fazem tende a desaparecer, o que traz exigências acrescidas no tipo de empregados que são precisos. Por outro lado, as camadas intermédias de chefias e gestão estão a ser espremidas. É provável que assistamos ao declínio dos quadros intermédios e ao desemprego nestas camadas, se não forem capazes de se adaptar. Por outro lado, estamos a assistir à passagem de uma remuneração e carreira baseadas no «status» para outro modelo baseado na função e nas competências reais de cada um. A remuneração e a actividade profissional dependerão cada vez mais da função a desempenhar e das «performances» realizadas por cada um.

O que é que acha da ideia de partilhar o posto de trabalho para criar mais emprego?

É tentador proclamar que é preciso cada um trabalhar menos para todos terem trabalho. Mas, no fundo, isso é partilhar a penúria, não é verdade? Esse é o objectivo da política de redução autoritária, por via legal, do tempo de trabalho que, aplicada de um modo mecânico, sem reorganização, arrisca-se a reforçar a tendência. É preciso ir mais longe. É preciso reconhecer que o emprego e o subemprego não são fatalidades, mas consequências directas de uma política, pior ainda, de uma dinâmica de conjunto de uma sociedade cristalizada em modelos do passado. Sejamos sérios: não é a mundialização, nem a economia digital, que criam o desemprego. É o jogo perverso dos actores agarrados a hábitos e privilégios que se recusam a adaptar aos novos tempos. Isso depende de toda a sociedade, e em França ela é muito rígida, falta-lhe plasticidade.