O vinho que não foi tentado pela Bolsa

Aos 167 anos de idade (2001), a mais antiga Casa vinícola familiar portuguesa começa a preparar a sua continuidade no século XXI

Jorge Nascimento Rodrigues

Outras empresas em mudança (em Portugal)

Numa altura em que os novos limites da taxa de alcoolemia incendiaram a polémica e em que ventos de pessimismo toldam o horizonte do mercado nacional do vinho, a José Maria da Fonseca acaba de inaugurar a maior adega de produção vinícola do país em Azeitão, com um investimento recorde de mais de 16 milhões de euros (3,3 milhões de contos), e prepara-se para lançar neste trimestre uma nova gama de vinhos "mais leves e suaves", fruto de uma nova estratégia, em homenagem à sétima geração de herdeiros do fundador, que poderão vir a tomar as rédeas do negócio nas duas próximas décadas.

Não sobram muitas famílias históricas na vitivinicultura europeia. Os grupos mais do que centenários que mantiveram a linhagem da Casa original de família contam-se pelos dedos das mãos - os Antiniori em Itália, os Torres em Espanha e os Rotschild em França, por exemplo. Nessa galeria tem lugar cativo a Casa José Maria da Fonseca, fundada em 1834, hoje nas mãos da sexta geração de herdeiros do miúdo de Nelas, na região do Dão, que se formaria em matemática em Coimbra e viria a dedicar-se ao negócio do vinho desde que o pai comprou umas terras na margem sul do Tejo, em Vila Nogueira de Azeitão.

A investigação das causas da longevidade deste tipo de empresas familiares revela sempre um conjunto de factores "estruturais" que se mantêm ao longo do tempo:
- sucessão garantindo uma liderança indiscutível e um domínio da estrutura accionista;
- abertura às tendências de mercado;
- focalização no negócio;
- e desenvolvimento de "know how" crítico nas mãos da família.

Cortar o braço

A história mais recente da J. Maria da Fonseca, vivida directamente pela geração dos Soares Franco que a dirige actualmente, não foge à regra. «No final dos anos 70, já havia a sensação de que uma Casa como esta tinha de ter uma maioria clara de capital num dos ramos da família», diz António Soares Franco, 48 anos, um economista formado no ISCEF, em Lisboa, e com uma experiência de marketing nos Estados Unidos, que está hoje ao leme da empresa.

Esse domínio societário por parte de Fernando Soares Franco, o pai de António, permitiria, nomeadamente, a superação de um período difícil e levaria a uma viragem estratégica decisiva em meados dos anos 80, em que os jovens irmãos António e Domingos viriam a participar ao lado do pai.

«Tivemos de pensar em sanear a empresa. Ou entravam novos sócios ou amputávamos um braço para realizar liquidez para investir», prossegue o actual presidente do Conselho de Administração, para concluir que a opção seria o "corte" do braço do negócio internacional da Casa então em "joint-venture" com os norte-americanos da Heublein. Na venda foi, também, a marca de prestígio internacional de vinho rosé "Lancers", criada nos anos 40 pelo tio António, e que faria a fama da Casa na América.

A amputação permitiria a recentragem no negócio histórico da vinha nos últimos quinze anos. A Casa de Azeitão tornou-se no maior viticultor português, reforçou a qualidade e a tradição de vinhos como o "Periquita" (o ex-libris da casa desde 1850) e consolidou um segundo lugar no "ranking" dos produtores portugueses de vinhos de mesa.

O sucesso da "arrumação da casa" permitiria em 1996 uma reviravolta com a reaquisição das empresas J.M da Fonseca Internacional e J.M da Fonseca Exportador e da própria marca "Lancers" aos ingleses da IDV, que entretanto tinham adquirido a Heublein. A Casa voltou à senda da "globalização", com mais de 75% da sua facturação (hoje na casa dos 6 milhões de contos) na exportação.

Fugir à tentação

Outro momento da história recente é sintomático da preservação do instinto familiar. Num dos períodos quentes da bolsa portuguesa, os herdeiros não se deixaram embebedar pela "bolha". O desafio feito por um ministro das Finanças da altura, para que a José Maria da Fonseca entrasse em bolsa e se financiasse no capitalismo financeiro institucional em alta, não encontrou eco nos Soares Franco. «Respondi que só tinha tempo para pensar em vinhos e não em bolsa. Não gostamos de nos distrair do nosso negócio», refere António Soares Franco.

Essa paixão pelo vinho levou a actual geração de herdeiros a enfrentar um outro desafio mais complexo: o do futuro dos vinhos europeus face à crescente concorrência dos vinhos do chamado Novo Mundo, em que se contam os novos países e regiões produtoras em ascensão - nomeadamente Califórnia, Austrália, Nova Zelândia e Chile.

Coligação genial

A necessidade de uma reformulação estratégica começou a desenhar-se. «O consumo do vinho tem de deixar de estar prisioneiro da refeição. Tem de ser encarado como uma bebida para momentos. É preciso seguir as pisadas dos produtores do Novo Mundo que foram os primeiros a entender isto, o que os levou a apostar em vinhos mais leves, suaves, frutados, mais simples de beber», diz, por seu lado, Domingos Soares Franco, 45 anos, o irmão mais novo, vice-presidente da empresa, e que é o enólogo da Casa, seguindo a tradição do tio, criador do "Lancers" e do "Faísca".

Domingos é a outra parcela da «coligação genial destes dois irmãos que está hoje à frente da empresa», na oportuna definição de Francisco, 18 anos, um estudante de gestão, que é um dos oito herdeiros.

"Septimus" e a sétima geração
O dedo de Domingos Soares Franco, que aos 19 anos estudou enologia e viticultura na Califórnia e ficou apaixonado por Napa e Sonoma, anda hoje pelos diversos vinhos de garrafeira e de mercado da Casa. Ele espera, ainda, que algum dos herdeiros tome o gosto por «provar, cheirar e imaginar um lote final», de modo a que o seu "know how" informal continue nos dedos da família.
A última experiência de Domingos com uvas é o "Septimus", a lançar neste trimestre, um vinho «suave e frutado» em homenagem à sétima geração que agora terá de começar a preparar-se para garantir amanhã que o negócio continuará na família.
Diogo, um dos herdeiros, de 21 anos, a tirar engenharia e gestão industrial no Instituto Superior Técnico, «espera ganhar experiência fora da empresa para depois poder trazer algo de novo», à semelhança do irmão António, de 24 anos, que hoje já trabalha em marketing numa multinacional. O mesmo sentimento é manifestado pela irmã Sofia, de 18 anos, que anda a tirar jornalismo político, mas que não se esquece que «nascemos e crescemos aqui dentro e sentimos um grande apego e gostaríamos de, mais tarde, dar o nosso contributo».
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