Paper premiado pela efmd sobre o «valor escondido» nas PME familiares,
da autoria de João Carvalho das Neves e Alexandra Henrqiues

O Valor «escondido» da PME familiar

Jorge Nascimento Rodrigues com João Carvalho das Neves e Alexandra Henriques sobre o «paper» apresentado ao 29º European Small Business Seminar realizado em Cascais em 1999.
Trabalho científico «made in Portugal» premiado.

As PME familiares valem mais do que aparentam nos livros contabilísticos e o uso de rácios tradicionais, típicos da análise em aquisições de grandes empresas, pode não servir rigorosamente para nada. Se for um comprador de uma pequena empresa não se fie no que lê e prepare-se para desembolsar muito mais do que, à primeira vista, deveria. Não só por causa do famoso «goodwill» (estimado subjectivamente pelos vendedores da empresa), mas porque a avaliação objectiva - ou a tentativa de aproximação - do património e dos rendimentos expectáveis tem de sofrer uma cirurgia delicada que pode levar à aplicação de um «factor de correcção» que pode empurrar para o dobro o valor dos resultados reais.

Esta opinião que pode ter a concordância do leitor por razões de bom senso, dado saber-se como a famosa criatividade da contabilidade conduz à optimização fiscal quer para a empresa como para a família, teve agora a «ajuda» de um primeiro trabalho científico realizado em Portugal por dois especialistas em aquisições e fusões que fizeram um estudo de campo numa amostra de 12 pequenas empresas familiares adquiridas recentemente entre 1997 e meados deste ano e que representavam um espectro de facturação entre os 300 mil e os 1,4 milhões de contos por ano. O trabalho daí resultante, em virtude da sua novidade, foi premiado internacionalmente no 29º Seminário das PME Europeias, realizado recentemente em Portugal.

As conclusões estatísticas deixaram de boca aberta a assistência: os resultados económicos reais, depois de «corrigidos», saltaram para mais do dobro e a margem operacional também, levando os autores a criar um «índice de riqueza» ajustado de 2.1, ou seja, se a margem operacional normalmente apurada for de 10% «corrija-a» para mais de 20% e não se enganará sobre o que se passa na realidade. Na amostra, se os resultados apurados nos livros foram, em média, de 7 mil contos (cerca de 35 mil euros), na realidade deverão ter sido de mais de 14 mil (mais de 72 mil euros).

Rever a doutrina clássica

«Ainda que não se possam fazer generalizações abusivas, pois se trata de um primeiro estudo exploratório, pretendeu-se contraditar a doutrina clássica em termos académicos de que o que predomina nas PME é o 'recurso pobreza', ligado às dificuldades financeiras e de gestão. O que viemos demonstrar é que existe a outra face da moeda, o 'recurso riqueza', escondido, em virtude da liberdade contabilística e financeira que os gestores da família têm em virtude de serem os donos e de não terem de responder perante sócios ou accionistas», refere João Carvalho das Neves, um doutorado em fusões e aquisições, que com Alexandra Henriques, uma jovem analista, apresentaram o «paper» intitulado «The wealthy resource in Small Family Business».

A teoria académica na área tem seguido o já clássico «paper» pioneiro de Welsh e White na revista de referência americana, a Harvard Business Review, publicado na edição de Julho-Agosto de 1981 (ver o artigo «A Small Business is not a Little Big Business» - não disponível na Web). Apesar da importância de chamar à atenção para a especificidade das pequenas empresas e de se dever corrigir a ideia de que são grandes empresas em ponto pequeno, o manto miserabilista em que envolveu a pequena empresa familiar conduziu a desprezar a outra linha de abordagem e, provavelmente, levou ao engano algum comprador de PME ou analista mais desprevenido.

O ponto de vista subjacente à investigação de Carvalho das Neves e Alexandra Henriques é que a pequena e média empresa familiar, para além dos seus objectivos de mercado que lhe garantam, naturalmente, a sua longevidade em termos capitalistas, é «um veículo para permitir estabilidade financeira e riqueza à família» e os seus princípios magnos de gestão são muito influenciados, para não dizer condicionados, por este imperativo económico extra-empresa. «O que leva frequentemente a ser muito difícil distinguir entre fluxos financeiros privados e da empresa, tendendo a haver uma confusão enorme neste campo», referem-nos os dois especialistas, que acabaram por dar com um «puzzle» difícil de resolver na amostra que estudaram.

O leitor adivinha, com facilidade, que as despesas tenderão a estar inflacionadas, com os mais diversos custos extra-empresa (desde ordenados a familiares que não exercem qualquer cargo, aos leasing e outros custos financeiros de bens utilizados pela família, a deslocações e estadias, seguros, comunicações, consumíveis diversos, etc.), e que os rendimentos tenderão a estar deflacionadas com os mais diversos mecanismos de «aspiração» das mais valias criadas. Mesmo a facturação - em empresas de venda directa ao cliente final - poderá estar «aliviada» de uns 5 a 6% do volume anual de vendas, de acordo com os resultados deste estudo no caso desta amostra.

O outro lado do baú

No entanto, se na avaliação é indispensável «corrigir» estes fluxos sugados, é preciso ter em conta que, por vezes, há custos que não são imputados, como no caso do imobiliário em que se instalou a empresa ou do valor real do trabalho efectuado pelos membros da família que se dedicam efectivamente ao negócio, e que não pode ser considerado, apenas, a partir dos salários e benefícios adicionais contabilizados para efeitos fiscais e da segurança social.

Dito de outro modo, quando comprar a PME familiar prepare-se para pagar rendas ou outros encargos muito mais elevados com as instalações e tenha em conta que os quadros de gestão profissional que terá de contratar (mesmo que alguns possam vir das fileiras da família fundadora) poderão custar muito mais do que o que era contabilizado antes.

Em suma, o outro lado do baú pode trazer surpresas aos potenciais compradores. Refere-nos Carvalho das Neves: «Os empresários portugueses atribuem, por exemplo, grande importância ao imobiliário. Daí que, muitas vezes, as instalações não são propriedade da empresa mas deles próprios. No entanto o que verificámos foi que, na generalidade das situações, a empresa nem sequer pagava renda ou a renda era definida abaixo do valor de mercado. Daí que os chamados 'facility costs' a valores de mercado deveriam ser corrigidos em alta para 15% mais na nossa amostra.».


João Carvalho das Neves é docente do Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, e coordenador científico do MBA desta Escola. Criou a Carvalho das Neves & Associados, uma firma de consultadoria especializada em fusões e aquisições. Doutorado na Manchester Business School inglesa, Carvalho das Neves foi administrador-delegado do CIFAG e gestor judicial de alguns casos polémicos, como a Torralta e a TVI. Dirige a partir do «site» da empresa (na Web em www.carvalhodasneves-assoc.pt) um Jogo Financeiro. Alexandra Henriques é recém-licenciada pelo ISEG.

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