O regresso da Inteligência Emocional

Os criadores do conceito em 1990 contra a psicologia organizacional
de cordel

A "buzzword" da inteligência emocional está de volta à gestão, tal como toda a filosofia do "lado humano" da organização, depois de um interregno. Mas os inventores do conceito em 1990 querem separar o trigo do joio e denunciam o sensacionalismo das receitas que oferecem o paraíso do sucesso e da competitividade na vida profissional e pessoal. As competências emocionais não podem ser confundidas com os traços da personalidade, ou com as aptidões talentosas de cada um. Os especialistas John Mayer, um dos fundadores desta corrente, e David Caruso pronunciam-se contra a "psicologia" organizacional de cordel.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, Março 2004,
com John (Jack) D. Mayer e David Caruso

Selecção de referências bibliográficas sobre o tema preparadas pelo Professor John Mayer
Pequeno artigo de divulgação, com uma síntese do tema, por J. Mayer na Monitor, revista da Associação Americana de Psicologia, em 1999: "Emotional Intelligence: popular or scientific psychology?"
O sítio na Web da equipa de Mayer, Salovey e Caruso: EmotionalIQ.com
Livros recomendados
Comentários críticos de leitores

Fomos habituados a duas ideias feitas quando ouvimos os entendidos falar de "psicologia" nas organizações e na gestão de recursos humanos. Uma "cinzenta", tradicionalista, de que as emoções ficam à porta da empresa (o reverso é que o nosso conhecimento e aptidões profissionais ficam no escritório durante a noite à espera que cheguemos no dia seguinte), e outra "vanguardista", pseudo-modernista, de que o comportamento emocional de sucesso, competitivo, se revê naquele gestor, quadro ou colega que todos os dias entra de peito inchado transpirando autoconfiança, optimismo e "pro-actividade". Apesar de muito populares, estas duas variantes da "psicologia" organizacional de cordel são mais dignas das tiras cómicas de Dilbert do que da gestão, reclamam os fundadores do conceito de inteligência emocional, que, agora, está, de novo, na ribalta.

O conceito teórico na abordagem de Mayer e Salovey
«Inteligência Emocional é a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros»

As empresas têm emoções pois são feitas de uma matéria-prima viva que são os humanos. Entender as emoções, saber expressá-las, potenciá-las como ferramenta do pensamento, e saber geri-las, é a razão de ser da inteligência emocional, uma "buzzword" criada, em 1990, por dois académicos norte-americanos, John D. Mayer e Peter Salovey, que lançaram, agora, um novo livro sobre o tema, sugestivamente intitulado "O gestor emocionalmente inteligente".

O NOVO LIVRO
DE MAYER E SALOVEY

The Emotionally
Intelligent Manager

Mayer e Salovey, juntamente com David Caruso, outro especialista no tema, pretendem colocar os pontos nos ii face ao sensacionalismo que a popularização do tema gerou desde 1995, quando um reputado psicólogo de Harvard, Daniel Goleman, e a capa da revista Time transformaram o tema em mais uma receita de gestão com a promessa de um "quociente emocional" que poderia substituir o "QI" (quociente de inteligência).

O termo suscita hoje mais de um milhão de referências no Google e as emoções saltaram para a ribalta científica graças, também, ao trabalho de um português radicado nos EUA. António Damásio, o autor do célebre livro "O Erro de Descartes", bem como outros cientistas, demonstraram que as emoções transmitem informação importante, influenciam a nossa maneira de pensar e as nossas preferencias e nos ajudam a tomar milhares de decisões no dia-a-dia.

O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano
ANTONIO R. DAMASIO
Livro recomendado para entender a revolução no entendimento da questão da inteligência e das emoções - "O Erro de Descartes" pelo cientista português António Damásio (traduzido em português em Portugal em 1995, ano em que foi galardoado com o Prémio Pessoa).
- Edição em português no Brasil
- Edição em português em Portugal, 1995
As decisões sensatas não saem de uma "cabeça fria", como é comum se imaginar. Para o neurologista António Damásio, a emoção e o sentimento são indispensáveis para a racionalidade, por isso a frase de Descartes, "penso, logo existo", encerra um erro porque a ausência de emoção pode destruir a racionalidade.

Arrogância intelectual

"As listas de 'boas' qualidades que muitos popularizadores falam são infelizmente uma má interpretação do que dissemos", sublinha-nos John Mayer, do Departamento de Psicologia da Universidade de New Hampshire, que em 1990 cunhou com Peter Salovey o conceito nas revistas científicas Journal of Personality Assessment (nº54, 1990) e Imagination, Cognition and Personality (volume 9, 1989-90).

Essas listagens populares servem para se vender, depois, pacotes de formação e de auditoria organizacional, e deram origem a um próspero segmento de negócio de consultoria. "A inteligência emocional (IE) é acima de tudo uma forma de inteligência e não uma colecção de características de personalidade, habilidades ou talentos", refere, por seu lado, David Caruso, que se doutorou orientado por Mayer, e que é responsável pela Work-Life Strategies e pelo portal Emotionaliq.org.

«É contestável a ideia muito generalizada de que o quadro ou gestor com IE tem de ser artificialmente optimista, aparentar activismo e dar ares de que não duvida, não hesita, nem erra»

"Há diferentes tipos de liderança e de profissionalismo. Só alguns envolvem a inteligência emocional. Muita gente tem uma boa performance profissional ou capacidade de liderança sem ter qualquer pingo de inteligência emocional", completa Mayer, que contesta, ainda, a ideia muito generalizada de que o quadro ou gestor com "IE" tem de ser artificialmente optimista, aparentar activismo e dar ares de que não duvida, não hesita, nem erra.

A autoconfiança é, muitas vezes, uma máscara da arrogância intelectual e do total desconhecimento da complexidade da realidade. "Seja realista sempre!", é o principal recado de Mayer transmitido na revista Harvard Business Review, na edição de Janeiro de 2004, onde o tema da liderança foi capa.

John Mayer reclama, por isso, o regresso à "pureza" do conceito. Deixa cinco regras simples (ver quadro). E David Caruso, alertando para o carácter ainda experimental, lançou um teste de auto-diagnóstico para os gestores e quadros, que o leitor poderá responder em www.emotionaliq.com/MSCEIT.htm.

CINCO REGRAS SIMPLES NA GESTÃO
. Encare os problemas como desafios e não como ameaças
. Equacione os problemas sempre do ponto de vista de todas as partes envolvidas; encoraje sempre a consideração de múltiplos pontos de vista
. Seja sempre realista
. Recomponha as suas emoções e exercite a gestão das emoções dos outros
. Como as emoções nunca ficam à entrada da empresa, esteja aberto e atento a compreender os sentimentos dos outros

PERFIL
O PORTUGUÊS DA IE
Paulo Nuno Lopes, 38 anos
Paulo doutorou-se, recentemente, em inteligência emocional (IE) orientado pelos fundadores do conceito. É um dos nossos "activos" na área, ainda que no estrangeiro. Licenciou-se em Economia na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, em 1986. Depois de uma passagem por Portugal onde trabalhou em gestão e jornalismo, voltou aos bancos daquela escola americana para se doutorar em psicologia no tema da ligação entre IE e relacionamento interpessoal, tendo tido Peter Salovey como orientador. Verificou empiricamente, na sua investigação científica, que "as pessoas capazes de identificar estratégias adequadas para gerir as suas emoções e situações emocionais, se relacionam melhor com chefias, colegas e amigos". Mas rejeita, naturalmente, a simplificação do tema: "Há muita gente a fomentar expectativas inflaccionadas sobre os benefícios da IE para vender livros ou programas de formação", adverte, para concluir: "As abordagens muito alargadas simplificam demasiado a realidade ao meter no mesmo saco competências muito distintas". Paulo vai a partir de Junho leccionar na Universidade de Surrey, perto de Londres, mas conta desenvolver investigação e acções de formação no nosso país.

PEQUENA BIBLIOTECA DA IE

. 2004: The Emotionally Intelligent Manager, John Mayer, Peter Salovey e David Caruso; na Web em www.eimanager.com
. 2004: Primal Leadership, Daniel Goleman, Richard Boyatzis, Annie McKee (edição em paperback)
. 2004: "Inside the Mind of the Leader", Harvard Business Review, Edição Especial, Janeiro 2004, edição especial
. 2003: P. Ekman: Emotions Revealed
. 2002: L.F.Barrett e Peter Salovey, editores: The Wisdom in Feeling - Psychological Processes in Emotional Intelligence
. 1998: Daniel Goleman: Working with Emotional Intelligence
. 1995: Revista Time: "What's your EQ?", Artigo de Nancy Gibbs "The EQ Factor", edição de 2 de Outubro de 1995, na Web em www.time.com/time/classroom/psych/unit5_article1.html
. 1995: Daniel Goleman: Emotional Intelligence: Why it can matter more than IQ
. 1990: P. Salovey e J. Mayer: "Emotional Intelligence", in Imagination, Cognition and Personality, nº9, 185-211, revista da American Association for the Study of Mental Imagery

Comentários críticos

Comentário do leitor Pedro Malheiro, Abril 2004
Pedro Costa Malheiro é Gerente da Fastrain e Director da TGV. Foi Vice-Presidente de People Relationship Management da Cap Gemini Ernst&Young em Portugal. Licenciado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA e com um MBA em gestão internacional pela European University. Começou a sua carreira na indústria farmacêutica (SANOFI); foi consultor/chefe de projectos da CEGOC, tendo lançado os escritórios do Porto e a consultoria de recursos humanos. Esteve também na Watson Wyatt, onde assumiu o cargo de Director da Consultoria de Capital Humano e Estudos de Remunerações.

Sobre o artigo «Empresas com Emoções»

Antes de mais, gostaria de subscrever a ideia de condenação em relação ao sensacionalismo e banalização a que muitos bons modelos de gestão acabam por ser tratados na formação e consultoria em Portugal. Muitos deles são, por isso, precocemente atirados para o descrédito e vêm a sua validade colocada em causa pelo descuido e má utilização por pessoas sem preparação e com excesso de voracidade para ganhar dinheiro fácil.

Da mesma forma, condeno o puro academismo que se pavoneia com “papers” e investigação feita sobretudo em populações estudantis, em muitos casos mais preocupadas com a agendas pessoais e de carreira dos “Profs.” do que em necessidades de pesquisa partilhadas com as organizações. Não há pior coisa que possam fazer a um gestor do que colocarem-lhe à frente “geniosinhos” mais procurados com o rigor metodológico e conceptual, do que com os reais problemas do seu negócio.

Poderia dizer que no meio está a virtude, mas seria uma expressão vazia, sem utilidade. O que gostaria de dizer em relação a este dilema da investigação aplicada em gestão dava para outro artigo, mas resume-se à palavra “colaboração” entre o mundo académico e as empresas. Curiosamente tenho acompanhado em Portugal vários bons exemplos de comunidades práticas onde se juntam académicos, consultores e gestores. Ainda na semana passada estive no Norte do país no arranque de uma sobre “ferramentas de gestão do conhecimento” organizada pela AEP no âmbito do programa Knet.

Concordo com adjectivação de “cinzenta” das escolas de gestão que perfilham a ideia de “...deixe as emoções em casa, você é um profissional, na empresa deverá representar esse papel!”. Não estou de acordo com a atribuição de “vanguardista” ou pseudomodernista à imagem do gestor super-confiante e optimista. Esta remonta aos anos 80/90 com os “yuppies”. Já deu o que tinha a dar!

- Inteligência emocional (IE) não é sermos simpáticos e agradáveis para toda a gente, o tempo todo. É sermos honestos.

- Inteligência Emocional não é sermos hipersensíveis. É termos consciência dos sentimentos, dos nossos e dos das outras pessoas.

- Inteligência emocional não é sermos emocionais. É demonstrar capacidade de gestão das nossas emoções.

Parece-me quase fundamentalismo colocar Salovay como o verdadeiro pai do conceito e salvador agora com o livro “O gestor emocionalmente inteligente”. Até porque sempre foi referido por Goleman como um dos percursores do conceito e inclusivamente participaram conjuntamente em filmes comerciais para utilização em formação. Também me parece despropositado colocar D. Goleman como alguém que prometeu um “coeficiente emocional” para substituir o ”QI”.

Sou acreditado para utilizar o ECI “Emotional Competency Invenctory” e não são apresentados quaisquer coeficientes de IE, as pessoas são confrontadas com a sua auto-avaliação e a avaliação dos outros (chefe, colegas, subordinados, clientes, etc.) e face a um “benchmark” nas 18 competências emocionais. Portanto uma filosofia aplicação, cotação e análise de resultados completamente diferente do “clássico” QI.

Por outro lado, sempre li nos livros e artigos do D. Goleman e de todos os que o seguiram na investigação nas empresas, na educação, na saúde e noutras áreas, que a IE não concorre ou substituiu QI. Inclusivamente as suas referências a António Damásio revelam uma preocupação muito grande em dar sustentabilidade ao modelo de IE na Neurofisiologia e Neurobiologia.

Esta discussão à volta de quem afinal está certo quanto à IE, parece-me mais uma guerra de escolas, bem típica dos americanos, que disputam um mercado chorudo de livros, programas de formação e intervenções de consultoria. Alinhar com isso significa, para nós portugueses, uma falta de distanciamento e sentido crítico.

Gostaria que este (s) modelos de IE possam continuar a ser importantes para ajudar as pessoas, os grupos e as organizações a adaptarem-se (já Darwin exortou o papel das emoções na evolução das espécies) ao mundo complexo e competitivo, e procurarem harmonia e saúde nas suas vidas.

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