Antecipação de «Natural Capitalism»

Entrevista Exclusiva com Hunter Lovins, co-autora com Amory Lovins e Paul Hawken

Versão original da entrevista publicada na Executive Digest
Jorge Nascimento Rodrigues

Rock Montain Institute

Para alguns será mais uma versão do capitalismo 'verde' surgido nos anos 80. Ou do grito sobre os 'limites ao crescimento' de anos antes. Os arautos do recém baptizado 'capitalismo natural' garantem que o seu pragmatismo faz ganhar todas as partes envolvidas: mais eficácia nas empresas, mais satisfação dos consumidores, mais sustentabilidade dos negócios, mais conservação dos recursos naturais elevados a principal factor escasso da economia do século XXI.

A publicação na prestigiada revista Harvard Business Review de um artigo do casal Lovins do Rocky Mountain Institute e o anúncio da edição ainda este ano de 1999 de um livro com o título de Capitalismo Natural estão a despertar o interesse pelo novo conceito, em particular no Silicon Valley. Fomos falar com Hunter Lovins, a líder do referido instituto nas montanhas do Colorado, no momento em que Amory Lovins partia para a Europa em 'campanha' pela nova 'buzzword'.


O 'Capitalismo Natural' é mais uma 'buzzword', depois da Economia Digital e do conceito de 'Nova Economia' que emergiram nos últimos anos?

HUNTER LOVINS - Não é uma 'buzzword'. Não é mais uma moda nos negócios. Nós acreditamos que se trata da fundação para a próxima Revolução Industrial. O Capitalismo Natural, como o próprio nome quer indicar, está baseado na forma como o próprio Mundo funciona. É a via que os homens de negócios e as pessoas em geral terão de acabar por seguir se é para durarem no longo prazo, tendo em conta a forma como o Mundo mudou [enfatiza a nossa interlocutora]. Nos tempos da Primeira Revolução Industrial fazia sentido explorar a fundo os recursos naturais aparentemente indefinidos em virtude da escassez enorme de gente com qualificações. Para se incrementar a produtividade, subsidiava-se o uso intensivo da Natureza. Hoje, a situação é outra. As pessoas qualificadas não escasseiam mais. A lógica capitalista é a mesma, mas o que escasseia modificou-se, sabendo-se que a escassez (de qualquer coisa vital) é a mola da economia.

A 'Nova Economia' fala da abundância, da inversão da velha lei económica da escassez. A única coisa que escassearia seria a nossa atenção, dizem eles. Qual é a vossa 'escassez'?

H.L. - O que escasseia hoje são coisas como estas que denominamos de 'serviços prestados pelo ecosistema': a capacidade da Terra em se desintoxicar ou do clima em estabilizar, ou das abelhas em polinizarem, ou do solo em regenerar a sua fertilidade ou dos bancos piscatórios fazerem o mesmo. Ou os problemas com a purificação do ar. Há tantos exemplos, é uma lista sem fim. Infelizmente, só nos damos conta do custo [sublinha, mudando o tom de voz] da destruição destes serviços do ecosistema, quando eles começam a quebrar-se. Na Bacia do Yangtze, na China, a desflorestação galopante gerou, em 1998, cheias inacreditáveis que mataram mais de três mil pessoas, obrigaram ao êxodo de mais de 223 milhões e inundaram 60 milhões de acres de terra cultivada. Resultado do desastre: 30 biliões de dólares de prejuízos e um programa de reflorestação de mais 12 biliões!

Crescimento 'verde'

Essa visão trágica dos 'erros' do capitalismo industrial faz lembrar o grito contra os 'limites ao crescimento'. Mas será que os capitalistas se vão convencer mesmo com essas imagens dramáticas diante dos olhos?

H.L. - Os bons capitalistas 'naturalistas' - ou os capitalistas de todo o género que tenham uma visão de longo prazo - terão de economizar nestes recursos escassos. Nós falamos de quatro princípios que devem guiá-los. Primeiro: usar os recursos naturais de um modo extraordinariamente mais produtivo, de modo a poupar dinheiro e a usar mais a inteligência humana e as pessoas em geral, adoptando desde o início uma visão sistémica global no próprio desenho do processo produtivo. Segundo: mudar o modelo de produção, de um uso de técnicas de produção viradas para a geração de desperdício, para o que nós chamamos de 'modelo biológico' em que qualquer desperdício deixa de o ser e se torna 'alimento' para outros processos. A ideia é mesmo eliminar o próprio conceito de desperdício. Terceiro: mudar também o modelo de negócio, centrado hoje em vender às pessoas coisas que mais tarde ou mais cedo terão de ser substituídas, para uma estratégia de fornecer aos clientes um fluxo contínuo de valor e serviço. Falamos de um modelo empresarial baseado numa economia de soluções, uma ideia lançada por James Womack, o inventor do conceito de 'produção sem gordura'. Quarto: Reinvestir no Capital Natural, de modo a que os negócios possam criar riqueza no futuro.

Um dos casos em que acenam aos empresários com uma melhoria significativa de produtividade das pessoas tem a ver com um desenho dos edificíos de escritórios virado para a eficiência energética. Mas isso é apenas propaganda ou têm dados demonstrativos?

H.L. - Temos uma série de casos recentes. Eles estão detalhados num «paper» escrito por duas pessoas da nossa equipa que pode ser adquirido a partir da nossa página na Web (em www.rmi.org) e que se intitula 'Greening the Building and the Bottom Line'. Depois de várias medidas de poupança energética verificaram-se - ficou bem documentado - aumentos de produtividade entre os 6 e os 16%. A nosso ver uma estratégia de 'crescimento verde' gera bons resultados financeiros, não só, nem sobretudo em termos de poupança na factura energética, mas também em termos de produtividade, de vendas e de imagem. Por exemplo, há o caso de um Wal Mart em que na sua zona 'eco-mart', em que implementou um conjunto de medidas 'verdes', aumentou as vendas. Desenvolvemos esta nossa perspectiva no nosso documento 'Green Development Services' que pode ser adquirido pela Web (em www.rmi.org/gdsServices.pdf).

Uma economia de soluções

Quando fala de uma 'economia de soluções' - e se refere a James Womack, o «pai» da «lean production», a «buzzword» por ele criada em 1990 - no artigo que você publicou agora com Amory Lovins e Paul Hawken na revista Harvard Business Review, quer explicar em concreto o que é, exemplificando?

H.L. - No artigo ['A Road Map for Natural Capitalism', Harvard Business Review, de Maio/Junho de 1999, volume 77, nº3] damos muitos exemplos. Um que nos impressiona é a adopção de uma estratégia de 'leasing' no sector tradicionalmente de venda de determinados equipamentos e bens. Por exemplo, a empresa Interface em vez de vender carpetes para os escritórios e as residências, aluga um serviço global de cobertura dos soalhos, oferecendo a responsabilidade pela sua limpeza, conservação e substituição. Para o próprio cliente, em vez de um investimento, contabiliza um custo e tem o soalho impecável! Outro caso, o da Schindler, nos elevadores. Em vez de um negócio de venda de elevadores transformou-se numa empresa de serviços de transporte vertical. No ar condicionado está a acontecer o mesmo: a United Technologies está a mudar a sua estratégia da venda dos aparelhos para alugar serviços de conforto. É a esta perspectiva que Jim Womack chamou de modelo de uma economia de soluções.

Veja aqui uma entrevista com James Womack

Um exemplo curioso de impacto na preservação das florestas é aquele que é dado pela Dow Europe ao cortar no uso desnecessário do papel nos seus escritórios, ao desencorajar a mania de imprimir tudo o que se recebe via PC. Mas será que a Web e o correio electrónico estão a provocar uma reengenharia dos processos que fará encaminhar as empresas para a meta do vosso 'capitalismo natural'?

H.L. - Talvez nalguns casos. Contudo, o nosso ponto de vista é este: resolver os problemas que defrontamos não requer mais ruído e mais fluxo de dados - e depois mais os inevitáveis pacotes de software e mais máquinas para os digerirem. O que necessita é da transformação dos dados em informação realmente relevante e desta em sabedoria e acção. E esta última 'fase' é provável que requeira mais conversação e menos conversa fiada, mais relacionamento real e menos contactos, paradoxalmente falando. Como todas as ferramentas, a Web pode ser muito bem ou pessimamente utilizada. Não é resposta por si. Mas quando bem usada por grupos como o Ballaton - é um grupo internacional interessado em sustentabilidade como nós aqui no Rocky Mountain Institute, que se comunica através de uma lista de correio electrónico, e que se encontra de um modo imensamente divertido no Lago Ballaton, na Hungria, para fazer amizades e alianças - é, sem dúvida, um meio de aprofundar a comunicação e o conhecimento.

Os quatro princípios do Capitalismo Natural
  • Aumentar a produtividade dos recursos naturais
    Reduzir o fluxo de desperdício e destruição de recursos trazido pela delapidação e pela poluição é uma incrível oportunidade de negócio.
    Através de mudanças quer no design do processo produtivo encarando-o de um ponto de vista sistémico e global (e não isoladamente cada sua parcela) quer investindo em tecnologias amigas do ambiente, já disponíveis em muitos casos, mas pouco publicitadas.
  • Virar para modelos de produção inspirados na biologia
    O capitalismo natural não quer só reduzir o desperdício. Quer eliminar o próprio conceito de desperdício. Parafraseando os japoneses, será um modelo «zero desperdício». Num modelo de inspiração biológica, qualquer 'output' retornará ao ecosistema como nutriente, ou tornar-se-à um 'imput' para a produção de outra coisa qualquer.
  • Adoptar um modelo de economia de soluções
    O modelo de negócio tradicional baseia-se na venda de bens. No novo modelo, o valor é, pelo contrário, fornecido através de um fluxo contínuo de serviços virado não para vendas mas para soluções. Este novo modelo implica um percepção nova do valor.
  • Reinvestir no capital natural
    Em última análise, os negócios deverão restaurar, sustentar e expandir os ecosistemas do planeta, de modo a que estes continuem a produzir os seus serviços vitais.
  • Isso quer dizer que a gestão do conhecimento - outra 'buzzword' hoje em foco - é crítica para a emergência do capitalismo natural?

    H.L. - É crítica, sem dúvida. As melhores empresas - vejam os casos que são falados na revista Fast Company - descobriram que não podem mais dirigir os seus quadros e o pessoal à antiga, de 'cima para baixo'. Têm de criar um ambiente de aprendizagem, e descentralizarem o processo de decisão. Mas a nosso ver não se pode, não se consegue 'gerir' o conhecimento - mas deve-se, sem dúvida, torná-lo o mais acessível possível. Algumas empresas estão à beira de terminar o que se tem designado de 'Mapeamento do Saber'. Estamos a trabalhar com uma delas, a Data Fusion, e contamos com esse caso e com a criação de um preliminar 'Mapa do Saber do Capitalismo Natural' para o nosso livro [Natural Capitalism, a editar pela Little Brown, em Setembro próximo]. O capitalismo natural é muito mais do que a gestão do conhecimento.

    Mais do que reduzir átomos

    Qual está a ser o impacto de toda a panóplia de intranets e extranets das empresas, da massificação do correio electrónico no relacionamento entre as pessoas, do comércio electrónico entre as empresas, na emergência do vosso 'capitalismo natural'? No fundo qual é a contribuição do que hoje se chama a economia digital no progresso para esse novo tipo de capitalismo?

    H.L. -- As tecnologias de informação e das comunicações têm o efeito prático de reduzirem os fluxos de materiais, se, de facto, as pessoas não tiverem a mania de imprimir tudo o que lhes chega electronicamente, como você dizia à bocado. Mas o Capitalismo Natural, de que falamos, é muito mais do que reduzir os fluxos de coisas materiais. Os seus princípios pretendem o seguinte: levar as empresas e os homens de negócio a se comportarem como se o capital natural e os serviços que nos presta o ecosistema fossem de facto contabilizados [enfatiza, de novo]. Eles valem qualquer coisa como 30 triliões de dólares por ano, mas nenhum sistema oficial de contas os contabiliza!

    Uma das vossas apostas no Rocky Mountain Institute tem sido na área do conceito de uma nova viatura, que esteja em consonância com essa viragem contra a delapidação dos recursos naturais. Que carro 'amigo do ecosistema' poderemos esperar no futuro?

    H.L. - O automóvel é hoje uma tecnologia madura. Apesar de muitas melhorias incrementais ao longo deste século, o seu design continua basicamente o mesmo. O seu conceito é igual aos primeiros. Contudo, houve avanços notáveis nalgumas áreas: nos materiais, na microelectrónica, no software, nos motores, na energia. Integrar tudo isto exige uma nova forma de pensar o design automóvel. A tal abordagem sistémica global. O problema central é que os carros continuam a ser muito ineficientes. O nosso programa designado 'HyperCar' [que pode ser consultado na Web em www.rmi.org/hypercar/] lida com este problema e sugere que a via é uma combinação da actuação em termos de construção ultra-leve, de design, de modelos híbridos em termos de energia, de computação e de acessórios eficientes.

    Mas não há uma série de construtores do sector já nessa via?

    H.L. - O que nós dizemos é que é preciso combinar todos estes ângulos numa abordagem global. Por exemplo, para nós os híbridos são muito superiores do que os veículos completamente eléctricos. Os materiais compósitos a usar na carroceria são outro ponto importante - preferimos o uso de materiais como os que se usam hoje nos caça bombardeiros ou nos carros de corrida das 500 milhas de Indianapolis. Quanto aos computadores, o que é preciso é inverter o conceito de carro: pense no tal 'Hipercarro' como um computador com um carro a embrulhá-lo, e não o contrário. Isto vai mudar completamente a face da indústria automóvel. A sua estrutura de mercado e da indústria vai mudar do dia para a noite tal como aconteceu com a mudança da máquina de escrever para o computador e hoje para a Web. Há já hoje umas duas dúzias de construtores, de fabricantes de componentes e de futuros construtores metidos neste jogo. Na deslocação este mês à Europa, Amory [Lovins] visitará alguns construtores europeus.

    Para finalizar, qual espera que seja o impacto cultural deste novo modelo de negócio 'naturalista'?

    H.L. - Vai ser profundo. Mas não consigo predizê-lo. Em primeiro lugar, vai conseguir alinhar os incentivos aos consumidores e aos fabricantes, ou seja todos ficam a ganhar com a produção 'magra' e eficiente, com bens mais duráveis e a redução da produção em excesso. Nós não o vemos de um modo utópico. Somos pragmáticos. Assumimos que a industrialização do mundo segundo o modelo ocidental vai continuar. Mas isto tem de ser feito sem a destruição dos serviços dos ecosistemas, muitos dos quais não têm qualquer substituto que se conheça! E fazer isto, tornará os negócios ainda mais rentáveis. Esta é a razão, é claro, porque esta nossa ideia está a ter muita receptividade no sector empresarial. O tempo dirá se o Capitalismo Natural é um conceito durável, ou um passo mais para algo ainda mais profundo.