Olhos postos em Hamel

Jorge Nascimento Rodrigues com o profeta da revolução na estratégia


Foto: Gary Hamel Gary Hamel já havia sido uma das nossas escolhas para a «Galeria dos Notáveis» de 1996. O trabalho que publicara na revista americana «Harvard Business Review» (na edição de Julho/Agosto daquele ano) com o título herético "A Estratégia como Revolução" catapultou-o para as luzes da ribalta, ao receber o primeiro prémio para o melhor artigo daquele ano atribuído pela McKinsey.

Na altura da publicação do artigo, entrevistámos Hamel, então em Londres, onde ele se explicou sobre as razões do artigo.

Segundo os «mentideros» ele teria ganho por uma unha negra a Michael Porter, cujo artigo, também sobre estratégia, publicado na mesma revista, ficaria em segundo lugar. Mas ao longo do ano que passou, os olhos começaram a ser postos em Hamel. Stuart Crainer, o especialista inglês com quem falámos, considera-o mesmo um sério candidato a tomar o lugar cimeiro de Tom Peters na indústria dos gurus, e aconselha a seguí-lo de perto em 1998.

Depois das tentativas de desalojamento feitas por Michael Porter (com a «competitividade») e Michael Hammer (com a «reengenharia), o primeiro lugar continua a ser ocupado pelo turculento inventor da «excelência» e da «gestão no caos», apesar das últimas obras de Peters - incluindo a sua muito recente, The Circle of Innovation (Compra do Livro) - serem consideradas menores e tudo aparentar que o criador do negócio dos gurus nos anos 80 tenha perdido o gás.

Sinal dos tempos, a «Fortune» publicou um artigo de Gary Hamel a meio do ano passado sobre estratégias ganhadoras, a que ele anexou um entrevista a dois protótipos americanos de "fura-regras", de "revolucionários" da estratégia (ver «Fortune» de Junho de 1997 em Publicações no www.strategosnet.com).

Por outro lado, a entrevista que concedeu recentemente à revista «Strategy & Business» (edição do último trimestre de 97, ver em www.strategy-business.com) da editora Booz-Allen & Hamilton clarifica ainda mais o seu corte frontal com os conceitos de estratégia que foram universalizados por Michael Porter e a razão porque usa, a torto e a direito, o termo "revolução".

A divergência entre os dois homens da estratégia centra-se nisto - para Porter, a estratégia é a escolha, bem feita, da melhor posição competitiva num dado mercado; para Hamel, a estratégia é decidir qual é o mercado do futuro e revolucionar a firma e a indústria para aí se posicionar de uma forma ganhadora.

Um olha o presente, o outro antecipa o futuro, o que só é possível quebrando as regras vigentes. Daí que Hamel goste de citar o chefe da Nike, Phil Knight, sobre o que este mais aprecia fazer: "escavacar coisas".

Este revolucionarismo "justifica-se na época actual", argumenta Hamel. Segundo as suas próprias palavras: "Atingiu-se o pico do incrementalismo. Qualidade, custo, tempo de resposta ao mercado, melhorias do processo, são importantes. Só que atingiram o ponto em que começa a funcionar a lei dos rendimentos decrescentes. A solução é inverter a situação, criando uma capacidade de inovação estratégica, que permita descobrir novas oportunidades". E, com alguma sofisticação, junta: "Vivemos num mundo de economia descontínua, onde a digitalização, a desregulação e a globalização estão a mudar profundamente o panorama industrial. Só estratégias não lineares poderão ser a resposta".

Antigo administrador hospitalar, Hamel em 1978 resolveu saltar para a gestão e tirar um doutoramento em negócios internacionais na Universidade americana de Michigão. Aí teve a sorte de encontrar C.K. Prahalad, com quem viria a firmar uma parceria de escrita de artigos, que conduziria ao lançamento, em 1994, do «best seller» Competindo para o Futuro (Compra do livro).

Gary Hamel continua a dar aulas na London Business School e a manter o seu estatuto de «estrela» europeia, apesar da sua empresa de consultoria Strategos estar sediada na Califórnia, no coração do Silicon Valley, segundo ele "um bom observatório do futuro que já está a acontecer".


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