O recurso económico... infinito

 

As leis económicas estão a ser postas de pernas para o ar pela emergência do conhecimento como factor "podutivo" número um. Um especialista norte-americano afirma que o pensamento económico está à beira de uma mudança de paradigma, similar à que ocorreu com o triunfo da visão ambientalista. Uma colectânea recente, coordenada por William Halal, e intitulada a propósito The Infinite Resource (O Recurso Infinito), começou a ser distribuída na Europa pela Simon & Shuster

Jorge Nascimento Rodrigues

O PENSAMENTO económico está à beira de uma grande viragem. O responsável número um por este acontecimento próximo é o conhecimento, erigido em factor "produtivo" liderante da economia deste final de século. Com a agravante de ele ser de dificil definição, pois é puramente intelectual, "imaterial" como dizem alguns, ou do domínio ideológico, como dizem outros.

E o que baralha ainda mais os economistas e as «leis» do mercado capitalista aceites até hoje é o facto desse novo factor produtivo hegemónico ser infinito. Saindo do "economês", essa qualidade significa que o saber multiplica o seu valor quanto mais se distribui e se partilha. Actua como uma bola de neve. E perde valor quanto mais se procura que ele seja escasso, secreto e do exclusivo domínio de minorias. A sua progressão não tem fronteira aparente.

Este é o pano de fundo da "heresia" que William Halal (halal@gwis2.circ.gwu.edu), um académico da Universidade de George Washington, na capital norta-americana, está a promover com The Infinite Resource (Compra do Livro) , uma colectânea de textos (a que já nos referimos anteriormente quando foi lançada pela Jossey-Bass), que tem a colaboração de outros especialistas e de empresários, e que está, agora, a ser distribuída na Europa pela Simon & Shuster International, a partir do Reino Unido (Telef: 0044-442-881900; fax: 0044-442-882074).

A próxima viragem

«Nos próximos cinco anos, vamos assistir a uma inversão da lógica, da filosofia e dos valores na economia. Tudo o que nós pensamos normalmente como estabelecido vai mudar. Esta viragem tem vindo a ganhar adeptos, lenta e silenciosamente, e tudo indica que, finalmente, atingiu a massa crítica que permite o salto, em que o sistema de pensamento na globalidade muda. Isso aconteceu, antes com o ambiente, e vai acontecer agora com a economia», explica-nos William Halal, que culminou recentemente uma investigação levada a cabo desde há 25 anos sobre a "nova economia baseada no saber".

A equipa de Halal foi integrando diversas peças do «puzzle» teórico, desde as análises pioneiras de Peter Drucker sobre a "sociedade baseada no saber" até à "nova economia" louvada pela revista Wired e em particular pelos trabalhos de Kevin Kelly, que acaba de transformar em livro um artigo polémico sobre as "novas leis da economia", então criticado pelos economistas puros e duros (como Paul Krugman e Paul Romer), que viram romance e jornalismo a mais e economia a menos nessas "novas leis".

Halal pretende, também, segundo nos explicou dar um enquadramento e ir além dos conceitos ultimamente em voga, como a "organização que aprende" liderada por Peter Senge («learning organization»), o "capital intelectual" promovido pela revista «Fortune» e a "gestão do conhecimento" («knowledge management») muito publicitada pela IBM e pela Lotus. «Estas 'buzzwords' são úteis, mas estão limitadas no seu alcançe global», comentou.

O modelo das nações

Este especialista de gestão joga ao longo do seu trabalho sobre o "recurso infinito" com o número três. Fala de três novas "leis" básicas desta economia do saber e de três prioridades na gestão da mudança nas empresas (ver quadros abaixo).

No novo multiplicador associado à difusão do saber ele vê «o motor da febre actual das alianças estratégicas», do discurso sobre a criação de 'redes' e da colaboração interna dentro das empresas, procurando «criar reais comunidades, capazes de melhor resolver os problemas e de criar maior riqueza», diz-nos o nosso interlocutor.


TRÊS NOVAS LEIS ECONÓMICAS
  • A complexidade é o traço marcante a nível macro e micro-económico. Para lidar com ela exige-se democracia empresarial na tomada de decisão, desenvolvimento de mercados internos dentro das próprias firmas e liberdade de empreender na base
  • O conhecimento aumenta de valor quanto mais se distribui e partilha. O seu crescimento é infinito, ao contrário dos recursos clássicos. O saber actua por efeito de bola de neve. O seu multiplicador não deriva de o manter escasso e secreto, mas do contrário - de o tornar abundante, acessível e organizado em rede
  • Os factores de produção materiais (capital, trabalho e terra) são crescentemente liderados pelos factores puramente ideológicos - o conhecimento, a visão. As organizações terão de se tornar 'inteligentes' capazes de gerir o saber colectivo e de aprender continuamente

  • A complexidade crescente associada a tudo isto, quer a nível macro-económico como micro, exige, segundo aquele académico, «que sobretudo as grandes organizações sejam desenhadas e geridas, grosso modo, da mesma forma que hoje o são as nações democráticas e de economia de mercado - baseadas na descentralização, na participação, na livre empresa e em mercados internos».

    Halal recupera, neste ponto, o trabalho anterior de Russel Ackoff em A Empresa Democrática (The Democratic Corporation, 1994, Compra do Livro), em que este último autor desenvolve a ideia de que a melhor forma de "democracia" empresarial é organizar internamente as empresas como um mosaico de mercados e permitir o espírito empreendedor na base, para além do enterro do tradicional método de gestão de comando e controlo.


    TRÊS PRIORIDADES NA EMPRESA
  • Desenvolver metodologias e uma cultura de colaboração. Ela é hoje o processo económico mais eficiente dentro das empresas e no tecido económico, entre empresas e na relação com os próprios clientes e consumidores
  • Implementar um sistema empresarial interno. As empresas devem organizar-se como verdadeiras economias de mercado
  • Criar uma infraestrutura inteligente. É preciso passar da "Idade da Informação" (e da arquitectura informática típica dentro das empresas) para a "Idade do Saber" (que mistura a plataforma Internet com o reforço das ligações formais e informais, face-a-face e virtuais entre as pessoas)

  • Mas para dar credibilidade ao assunto, foi ao terreno buscar líderes empresariais - como da MCI e da agência vanguardista Chiat/Day -, diversos casos (como a Alcoa e a Lufthansa) e até o «mayor» (presidente de Câmara) de Indianapolis, uma cidade americana considerada um exemplo de gestão pública de excelência, que aplica alguns destes conceitos.

    Finalmente, para dar solidez a tudo isto, é necessário criar uma «infraestrutura inteligente». Neste sentido, ele vai buscar os peritos na matéria, o casal Gifford (gif@pinchot.com) e Elizabeth Pinchot, que desde há uns anos vêm estudando o assunto. Os seus livros The End of Bureaucracy and The Rise of the Intelligent Organization (Compra do Livro), publicado em 1994, e The Intelligent Organization: Engaging the Talent & Initiative of Everyone in the Workplace (Compra do Livro) falam por si.

    A embeber tudo isto estão três "passagens para a outra margem" - a do controlo e comando para a democracia empresarial, a da gestão de conflitos para a construção de comunidades de interesses comuns, e a do papel dos factores materiais para a hegemonia da ideologia empresarial.

    Segundo William Halal, «este crescimento do papel de liderança do conhecimento e da visão sobre os outros factores de produção e a criação de organizações que aprendem e gerem saber, vai provocar, numa década, uma mudança para uma 'Idade Espiritual', tal como hoje falamos correntemente de uma 'Idade da Informação'».