Revolução Digital: ainda no adro
ou já "commodity"?

A segunda polémica deste Verão Quente da estratégia

Que opção deverão tomar os decisores: continuar a investir
nas novidades das TI ou rentabilizar o investimento já realizado?

As novas tecnologias da vaga digital ter-se-iam transformado em "mercadorias" ("commodities", no jargão da economia) e a sua infra-estrutura em algo similar à rede eléctrica ou de telecomunicações ("utilities", no calão técnico), pelo que teriam deixado de dar vantagem competitiva. A tese é de Nicholas Carr num artigo polémico publicado em Maio na revista norte-americana Harvard Business Review e que, desde então, provocou um pequeno vendaval na comunidade da estratégia e das tecnologias de informação. A oposição veio da parte do conhecido autor californiano John Hagel e um apoio a Carr da parte do reitor Hal Varian, de Berkeley.

Jorge Nascimento Rodrigues, Agosto de 2003

As entrevistas com os protagonistas no original em inglês
em www.gurusonline.tv

Um artigo sugestivamente intitulado "As Tecnologias de Informação não contam!" (no original, "It doesn't matter"), publicado em Maio na revista americana Harvard Business Review (HBR), tem vindo a provocar um pequeno vendaval na comunidade da estratégia ligada à Revolução Digital. Em poucas palavras o artigo vinha dar um soco no estômago dos vendedores, gurus e consultores de Tecnologias de Informação (TI): as novas tecnologias estavam a perder o seu papel de fonte de vantagem estratégica para as empresas, porque se haviam transformado em "mercadorias" ("commodities", no jargão da economia). Como tal tornaram-se fáceis de replicar pela concorrência. Em conclusão, podem ser indispensáveis no negócio em que se está (sem elas não se consegue operar), mas deixaram de ser essenciais à estratégia de diferenciação. Ao transformarem-se numa infra-estrutura generalizada são "consumíveis" como a electricidade ou as telecomunicações - as TI estão em transição para o mundo das "utilities", no calão técnico.

Um título perigoso

O artigo, assinado por Nicholas Carr, que já foi editor daquela revista, gerou reacções nas cartas do leitor da própria HBR, como mereceu menções no The New York Times, Washington Post, Financial Times, USA Today, Fortune, Computer World e Information Week. Algumas consultoras da área ficaram mesmo zangadas, como a Gartner Group, que reagiu rapidamente aos "erros" de Carr: «A inovação através de serviços, processos e produtos baseados electronicamente, apenas começou e os responsáveis pelas TI nas empresas - os CIO, na designação anglo-saxónica - continuam a ter de liderar a inovação».

A crítica principal é que Nicholas Carr se teria precipitado e o seu artigo - e em particular o título escolhido pela revista - era "perigoso" pois estaria a dar um sinal errado aos decisores.

Alguns notáveis tomaram a oposição a Carr, como o canadiano Don Tapscott, tido como o "pai" da Economia Digital, que o tem criticado publicamente nas últimas conferências, e John Hagel, um californiano autor de diversas obras de culto (como Out of the Box, Net Gain e Net Worth), que escreveu com John Seely Brown, outra das referências do Silicon Valley (ex-chefe dos cientistas da Xerox), uma extensa carta na HBR.

A crítica principal é que Nicholas Carr se teria precipitado e o seu artigo - e em particular o título escolhido pela revista - era "perigoso" pois estaria a dar um sinal errado aos decisores. «Estamos no meio de uma fortissima sacudidela contra as TI entre os executivos e o artigo de Carr vem encorajá-los a focarem-se sobretudo no lado operacional da necessidade de tecnologias de informação para os negócios. Em consequência, os gestores vão neglicenciar o valor estratégico contínuo das TI e ficarão mais vulneráveis a concorrentes mais agressivos que se focalizem em tirar o máximo do potencial estratégico delas», disse-nos John Hagel.

Em defesa da tese de Carr veio Hal Varian, o prestigiado reitor da School of Information Management and Systems da Universidade da Califórnia em Berkeley.

A "lei" dos rendimentos decrescentes

«Há evidência suficiente de que o desenvolvimento da infra-estrutura de TI no mundo empresarial está à beira de se concluir. Francamente, o poder computacional disponível ultrapassa largamente as necessidades de muitas empresas», refere-nos Nicholas Carr. A consequência deste sobre-investimento começaria a notar-se, segundo o nosso interlocutor: «A partir de agora vamos assistir a um decréscimo rápido dos rendimentos tirados da tecnologia aplicada nos negócios - não só no campo do hardware e da infra-estrutura de software, como também nas aplicações e mesmo nos serviços».

«Saber tirar partido das TI é, ainda, uma competência escassa. O talento é o verdadeiro segredo. O talento ainda não se transformou em mercadoria. É ele que dará uma vantagem competitiva», diz Hal Varian.

A consequência a retirar, segundo Carr, é que «as TI, em geral, devem passar a ser geridas como uma mercadoria, e não como uma fonte de vantagem estratégica». As TI passaram de 5% do bolo dos investimentos em capital fixo em 1965 para 50% no final dos anos 90 do século passado, alega o autor do polémico artigo na HBR. Tornou-se um recurso partilhado no mundo dos negócios e não mais uma excepção.

Hal Varian concorda: «As componentes básicas da Web e da Net já foram estandardizadas e tornaram-se, de facto, mercadorias, como diz Carr», apesar de discordar da ideia que os "booms" ocorridos nos últimos cinco anos (desregulamentação das telecomunicações, "bug" do ano 2000, bolha das "dot-com" e transição para o euro) tenham gerado um sobre-investimento.

Para Carr e Varian, as TI já teriam sido atacadas pela "lei" da diminuição dos rendimentos, e isso devido a dois "pecados". «As empresas, sobretudo aqui nos Estados Unidos, investiram massivamente nas TI durante os anos 90. Estima-se que, em média, 50% dessa capacidade instalada esteja por utilizar. É uma drenagem incrível de produtividade e de lucros», exclama Carr. O segundo pecado é o atraso na mudança de agulha: «O enfoque tem de deixar de estar em mais novos investimentos a fazer nas novidades para se centrar simplesmente na forma de extrair valor dos já realizados», sublinha Carr. Hal Varian, por seu lado, insiste neste último aspecto: «Saber tirar partido das TI é, ainda, uma competência escassa. O talento é o verdadeiro segredo. O talento ainda não se transformou em mercadoria. É ele que dará uma vantagem competitiva».

Os dois erros de Carr

Para a oposição, o artigo da HBR é "perigoso". «Ele dá cobertura à opinião crescente de que as empresas teriam gasto demasiado em TI no passado recente com resultados mínimos e que o seu potencial seria limitado em termos de diferenciação estratégica», lamenta John Hagel, o principal crítico.

«As TI diferem frontalmente de outras inovações tecnológicas anteriores. Estas começaram a estabilizar e a tornar-se mercadorias à medida que uma arquitectura dominante emergia. Mas com as TI estamos ainda longe de ter uma arquitectura dominante», diz John Hagel, pela "oposição".

Carr teria cometido dois erros de fundo ao escrever o artigo "As TI não contam!". Um na avaliação do impacto, em geral, da tecnologia. Argumenta Hagel: «O impacto económico das TI não vem de nenhum "big bang", mas de inovações incrementais. O seu impacto estratégico advém do efeito acumulado de iniciativas de inovação de práticas de negócio. A diferenciação estratégica vem com o tempo». O seu amigo John Brown, que co-assina a resposta ao artigo de Nicholas Carr publicada na HBR, designou esta dinâmica por "incrementalismo radical".

Outro erro seria a tentação para uma comparação histórica indevida. «As TI diferem frontalmente de outras inovações tecnológicas anteriores. Estas começaram a estabilizar e a tornar-se mercadorias à medida que uma arquitectura dominante emergia. Mas com as TI estamos ainda longe de ter uma arquitectura dominante». Hagel mantém que a Revolução Digital ainda está no adro: «É verdade que muitos elementos das TI estão a transformar-se em mercadorias, mas isso não significa o fim da revolução digital. Ainda estamos nos seus primeiros estádios».

E acrescenta com optimismo: «Estamos, aliás, à beira de uma outra mudança de grande envergadura para uma arquitectura de serviços distribuída, o que significará um salto qualitativo». Por isso, opta por uma conclusão diametralmente oposta à de Nicholas Carr: «Ao contrário de achar que o potencial de diferenciação estratégica com base nas TI está diminuindo, creio que está aumentando. As TI contam muito - e continuarão a contar».

Nicholas Carr, entretanto, não desarma, e está a preparar um livro sobre o tema, a ser publicado no princípio do próximo ano.

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