Globalizar é ainda um mito

As multinacionais efectivamente globais são menos de 2% das 500 maiores do mundo. A maioria das empresas e grupos plurinacionais estão centrados no mercado regional de proximidade do país de origem.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com e Gurusonline.tv, Fevereiro de 2004

Apenas nove multinacionais da lista das 500 maiores da revista Fortune (Fortune Global 500) são realmente globais á luz de um critério técnico rigoroso, ou seja revelando uma distribuição equilibrada das suas vendas pelos três principais blocos económicos mundiais - NAFTA, União Europeia e Ásia (ver quadros). Mais de 60% das 500 maiores firmas plurinacionais estão focalizadas no seu bloco económico de origem, onde vendem cerca de 60%, segundo Alan Rugman, professor da Kelley School of Business da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, que dirigiu este estudo com base numa investigação estatística realizada pelo Braintrust Research Group canadiano. Rugman fala de uma situação geral de "semi-globalização" das grandes empresas e grupos e da necessidade de se aclarar uma diferença de fundo entre internacionalização e globalização nas estratégias concretizadas pelas multinacionais ou transnacionais.

Entre os dois extremos - as verdadeiramente globais (1,8% nas 500 maiores) e as meramente regionais (64%) - há outras duas formas de semi-globalização. Ainda segundo Rugman, 5% das multinacionais são "bi-regionais", ou seja implantaram-se equilibradamente em dois blocos económicos distintos (no de origem e noutro definido como alvo estratégico, em regra os EUA), e 2% vendem mais de 50% num bloco económico "hospedeiro" distinto do de origem e que foi definido como estratégico por razões culturais ou de idioma ou necessidades geo-estratégicas (conquistar quota relevante nos EUA, por exemplo). Estas últimas são "bi-regionais" atípicas.

Choque psicológico

As conclusões estatísticas encontradas por Rugman e pela equipa canadiana do Braintrust foram publicadas agora em artigo científico no Journal of International Business Studies (volume 35, 2004, sob o título: "Regional and Global Strategies of Multinational Enterprises", em co-autoria com Alain Verbeke) editado pela Academy of International Business e provocaram um choque nos leitores habituados a olhar as multinacionais como automaticamente globais.

Casos como a McDonald's (norte-americana), 3M (norte-americana), BP (inglesa), Toyota (japonesa) ou Motorola (norte-americana) são multinacionais tipicamente "bi-regionais", com uma posição fraca num terceiro bloco económico. Outras são puramente regionais, com mais de 50% das vendas no seu mercado regional de origem - como a Volkswagen, Siemens, Allianz, Axa, Carrefour, para citar casos europeus. Efectivamente globais com origem na Europa encontramos apenas três casos - Philips, Nokia e Louis Vuitton Moet Hennessy. Duas delas nasceram em pequenos países europeus - a Holanda e a Finlândia.

Algumas grandes empresas e grupos ibéricos com estratégias de internacionalização poderão estar a caminhar para um modelo "bi-regional" atípico.

Entre as "bi-regionais" atípicas, que vendem mais num mercado "hospedeiro" que na sua própria região de origem, encontramos um caso na Península Ibérica entre as 500 maiores multinacionais do mundo - o banco Santander Central Hispano, com 55,7% das suas vendas além Atlântico, nas Américas, fruto da sua estratégia de maximização das "proximidades" culturais e de idioma (castelhano). A dimensão limitada do mercado nacional de origem (Espanha, ou mesmo Península Ibérica) e as dificuldades de bater a concorrência no mercado regional de proximidade (União Europeia) poderão justificar estes "saltos" intercontinentais na estratégia de internacionalização.

Provavelmente algumas grandes empresas e grupos portugueses com estratégias de internacionalização poderão estar a caminhar para um modelo "bi-regional" atípico.

Deslocalização não chega

Alan Rugman é, por isso, muito crítico sobre o discurso fácil da globalização empresarial. "Muito dele é puro disparate", referiu-nos. Rugman recuperou o conceito de "poder triádico" lançado pelo consultor japonês Kenichi Ohmae em 1985 e actualizou-o ao contexto geo-económico actual - em que se desenham três grandes blocos económicos, a NAFTA (que pretende hegemonizar as Américas a partir de 2005), a União Europeia (que este ano inicia o seu alargamento formal à Europa de Leste) e a Ásia (que para além do Japão e dos vários "tigres" dos anos 80, é hoje puxada pela nova locomotiva económica, a China). O professor exige que haja uma distribuição equilibrada das vendas em cada um destes três destinos - entre um mínimo de 20% e um máximo de 50% - para que se possa falar de presença global.

Rugman sublinha, ainda, que fala de globalização centrando-se nas vendas e não em etapas anteriores da cadeia de valor, como a aquisição de recursos ou a produção. Com a generalização dos movimentos de "outsourcing" de produção e de "offshoring" de funções e serviços, muitas multinacionais têm hoje uma dispersão geográfica por todo o mundo, explorando diferenças de custos e até complementaridade de recursos em conhecimento. Mas isso não chega para se ser global, o que não retira legitimidade à geometria variável das estratégias de internacionalização.

Alan Rugman é um britânico nascido em 1945 mas que se naturalizou canadiano nos anos 70. Uma das suas obras mais conhecidas intitula-se polemicamente "O Fim da Globalização", publicado em 2000.

Sectores mais e menos

Segundo um estudo recente da Goldman Sachs ("Who will produce the next GloCo?", Global Economics Weekly, edição de 10 de Dezembro de 2003), há sectores mais favoráveis à geração de empresas globais do que outros. A GS criou oito critérios para o avaliar - estratégia global assumida; marca global; capacidade de localizar; flexibilidade; disponibilidade de tecnologias integradoras; boas práticas de RH; estratégias em direcção aos países emergentes; e responsabilidade social.

A investigação que a GS realizou revelou que em sectores como o tecnológico, media, entretenimento, serviços financeiros e, talvez, retalho, a criação de empresas globais será mais fácil do que, por exemplo, no sector automóvel, companhias aéreas, farmacêutica e saúde. Com base nesta maior ou menos sensibilidade sectorial, a GS identificou na Europa alguns casos de empresas candidatas ao clube global: BP, HSBC Holdings, Nokia, Yukos (russa), SAP, Vodafone, Volkswagen e Nestlé. Na Ásia cita a Hyundai, Samsung, Sony, Petrochina (chinesa), e Rio Tinto (anglo-australiana).


Referências na Web
E-mail do Prof Rugman: rugman@indiana.edu
Sítio na Web: http://www.indiana.edu/~alldrp/members/rugman.html
Links
www.brainstrustresearch.com
www.jibs.net
www.gs.com


Referências estatísticas
QUADROS
(Fonte: Braintrustresearch.com)

 Sede das 500 multinacionais 
da Fortune Global 500
 Países da NAFTA (actual) 198
 União Europeia (actual) 156
 Ásia 125
 Outras regiões 21

 Classificação das 500 maiores multinacionais 
 Tipo Número % das 500
 Globais 9 1,8
 Bi-regionais 25 5
 Atípicas 11 2,2
 Regionais 320 64
 Faltam dados 135 27

Maiores Multinacionais Globais
 Nome País Posição nas 500 
 IBM EUA 19
 Sony Japão 37
 Philips Holanda 143
 Nokia Finlândia 147
 Intel EUA 162
 Canon Japão 190
 Coca-Cola EUA 239
 Flextronics   Singapura 388
 LVMH França 459

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