Globalização matou «joint-ventures»

É mais uma conclusão surpreendente sobre o impacto da globalização dos últimos quinze anos. Depois de se ter "descoberto" que só havia 9 multinacionais globais e que as margens operacionais nos mercados de destino da internacionalização são mais baixas do que nos mercados domésticos de origem, verifica-se, agora, que as "joint-ventures" têm perdido terreno como opção em benefício cada vez mais do controlo a 100% do capital de filiais. Alianças locais nos mercados de destino da internacionalização são casos excepcionais, diz o estudo do professor Mihir Desai, da Universidade de Harvard.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Abril 2004

Estudo do Professor Desai
As outras duas conclusões surpreendentes de estudos recentes: Só há 9 multinacionais globais
Globalização não dá mais lucro do que mercado doméstico

Por mais paradoxal que possa parecer ao leitor, a globalização em vez de fazer disparar a criação de empresas em aliança com parceiros locais - as famosas "joint-ventures" tão recomendadas pelos manuais de internacionalização -, conduziu à diminuição drástica desta opção pelas firmas transnacionais norte-americanas desde meados dos anos 80. "As forças da globalização parecem ter diminuído em vez de acelerado o uso da partilha de capital na internacionalização das multinacionais. O apetite pelo controlo a 100% revelou-se cada vez maior", afirma Mihir Desai, professor da Harvard Business School e da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O professor acabou de publicar mais um artigo científico que resume a investigação empírica desta tendência entre 1982 e 1997 no caso de mais de 3000 transnacionais norte-americanas. Mihir Desai confirmou-nos que os dados posteriores a 97 não alteraram esta tendência para a "morte" das "joint-ventures".

O artigo científico intitulado "The costs of shared ownership: evidence from international joint-ventures", um "working paper" da Harvard University (working paper nº 02-29), onde Mihir Desai é professor do Departamento de Finanças. (Publicado no Social Science Research Network paper Collection). Desai é também investigador do National Bureau of Economic Research e da Harvard Business School. Ler aqui o artigo.

Segundo o estudo dirigido por Desai, o peso das opções por joint-venture (participação majoritária ou minoritária no capital das empresas criadas em aliança com parceiros locais) diminuiu oito pontos percentuais entre 1982 e 1997. Assistiu-se a uma total inversão em relação ao período de 1951 a 1975, que havia sido estudado empiricamente pelo Harvard Multinational Enterprise Project lançado em 1965 pela Harvard Business School e liderado pelo professor Raymond Vernon (falecido em 1999), autor de duas obras marcantes da década de 70 - Sovereignty at Bay (1971) e Storm over Multinationals (1977).

Colapso do paradigma de Ohmae

A opção por filiais locais controladas a 100% parece ter passado a ser quase exclusiva nos anos 90. Enquanto que em 1982, o controlo total representava apenas 72% dos caos, quinze anos depois chega aos 80%.Nalguns casos, a multinacional apostou inclusive por passar de um controlo majoritário para um controlo total, com a própria absorção de marcas locais pela marca da multinacional. Esse movimento foi particularmente visível na área das tecnologias de informação e comunicação e da construção de equipamento de transporte, refere o estudo de Desai.

A opção por filiais locais controladas a 100% parece ter passado a ser quase exclusiva nos anos 90. Enquanto que em 1982, o controlo total representava apenas 72% dos caos, quinze anos depois chega aos 80%.

A prática invalidou completamente o paradigma que dominara a estratégia de internacionalização dos anos 80. A doutrina havia sido formulada por Kenichi Ohmae em Maio de 1989: "A globalização exige alianças, torna esta opção absolutamente essencial para a estratégia". Esta máxima do estratego japonês, publicada num artigo na Harvard Business Review então muito citado ("The Global Logic of Strategic Alliances"), tornou-se lei e nunca havia sido testada estatisticamente.

Razões da viragem

Segundo Mihir Desai, esta viragem em relação aos anos 50 a 70, deveu-se a um dos ingredientes da globalização - a redução nos custos de integração global de operações e a facilitação cada vez maior das transacções intra-firma, aceleradas ainda mais com a revolução digital.

Por outro lado, a atenção cada vez maior dada à protecção da tecnologia e da propriedade industrial, torna ainda mais arriscada a opção por "joint-venture" sobretudo em sectores com intensidade tecnológica ou de investigação & desenvolvimento. Segundo Desai nos explicou, "partilhar a propriedade intelectual torna-se muito difícil, já que fixar o preço desse activo intangível não é tarefa fácil e é motivo de tensões entre os potenciais parceiros". Além do mais, acrescenta este especialista, "com a possibilidade de transferência de tecnologia, as preocupações com a sua apropriação tornam-se maiores, gerando ainda mais conflitos entre as partes".

Também há que ter em conta que os movimentos de privatização em países europeus e em países emergentes no período de 1985 a 1996 abriram a janela de oportunidade para uma estratégia de controlo progressivo até aos 100% .

As excepções

No entanto, a opção por "joint-ventures" é típica em multinacionais que se vêm forçadas a depender fortemente do mercado local onde pretendem implantar-se, quer em termos de "inputs" ou de canais de distribuição para chegar aos clientes. Também em casos de diversificação fora do núcleo histórico de negócio, as alianças são procuradas e mantidas. Por outro lado, em certos países ou regiões, a opção pela "joint-venture" é quase obrigatória, sendo uma regra política de ouro ou a abordagem pragmática mais eficaz para lobbying.


Mihir Desai pode ser consultado por e-mail em: mdesai@hbs.edu.


RESULTADOS DA INVESTIGAÇÃO
Empresas criadas por multinacionais norte-americanas (1982-1997)
Tipo de filiais criadas 1982 1989 1994 1997
100% do capital 72,3% 77,6% 78,9% 80,4%
Maioria de capital na JV 9,8% 8,4% 9,4% 9%
Minoria de capital na JV 17,9% 14,0% 11,7% 10,6%
Fonte: Mihir Desai, The costs of shared ownership: evidence from international joint-ventures, 2004; Dados da International Investment Division do Bureau of Economic Analysis, Departamento de Comércio dos EUA, com base no survey anual sobre o Investimento Directo dos EUA no Estrangeiro
Nota: JV=joint-venture

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