Os pequenos são mais globais

O que Portugal pode aprender com os líderes da globalização

As grandes potências não lideram o índice de globalização divulgado
pela A. T. Kearney. Singapura, Suíça, os nórdicos e a Irlanda são
os mais cosmopolitas, uma nova vantagem competitiva.

Por Jorge Nascimento Rodrigues

Um grupo de pequenos países europeus (Holanda, os Nórdicos, Irlanda e Áustria) juntamente com Singapura lidera o Índice de Globalização apresentado pela consultora A.T.Kearney em parceria com a revista Foreign Policy.

Uma vez mais, na tabela divulgada em 2001, que abrange 50 países, são os pequenos países desenvolvidos (em termos de população ou de tamanho) que se revelam mais cosmopolitas em todos os indicadores usados no estudo - do comércio internacional, ao fluxo internacional de capitais, aos contactos com o exterior, desde o turismo às chamadas internacionais e à comutação transfronteiriça.

Portugal encontra-se nos 15 primeiros, à frente de países como a França, a Espanha ou Israel, beneficiando da sua tradicional abertura, e o Brasil, em contraste, encontra-se a seis lugares do fim da tabela (em 44º), reflectindo o seu tamanho e a tendência para se virar para dentro.

Sabe-se hoje que o cosmopolitanismo aumentou com mais de 3 milhões de viajantes e turistas diários, três vezes mais do que em 1980. Também os fluxos de investimento directo estrangeiro chegaram quase aos 900 mil milhões de dólares por ano. Por seu lado, os movimentos financeiros mundiais totalizam 1,5 biliões de dólares por dia! O tráfego das chamadas internacionais chegou a um recorde de 100 mil milhões de minutos no ano 2000.

O estudo conclui com uma asserção de impacto político: a globalização favorece o nível de riqueza de um dado país e não o contrário.

LISTA DOS 20 PAÍSES MAIS GLOBAIS
1-  Singapura
2-  Holanda
3-  Suécia
4-  Suíça
5-  Finlândia
6-  Irlanda
7-  Áustria
8-  Reino Unido
9-  Noruega
10-  Canadá
11-  Dinamarca
12-  EUA
13-  Itália
14-  Alemanha
15-  Portugal
16-  França
17-  Hungria
18-  Espanha
19-  Israel
20-  Malásia

LISTA DOS 10 ÚLTIMOS
(por ordem crescente, a partir do último)
50-  Irão
49-  Índia
48-  China
47-  Quénia
46-  Colômbia
45-  Rússia
44-  Brasil
43-  Peru
42-  Marrocos
41-  México

OBS: Na lista dos 50 países do Índice de Globalização só estão incluídos os países desenvolvidos e os considerados "emergentes" pela A T Kearney

INDICADORES DE GLOBALIZAÇÃO
No comércio internacional
- % do comércio externo no PNB
- grau de convergência entre os preços domésticos e os preços mundiais

Na área financeira
- investimento directo estrangeiro e investimento directo no estrangeiro
- movimentos de capital de "portfólio"

Cosmopolitanismo
- turistas (entradas) e viajantes (saídas) em % da população
- chamadas internacionais (minutos per capita)
- remessas em % do PNB

Internet e "webização" do país
- utilizadores da Net em termos absolutos e em % da população
- número de "hosts" per capita
- número de servidores seguros per capita

Fonte: The Globalization Index, A T Kearney, 2001

Para comentar os resultados do estudo, entrevistamos Paul Laudicina, vice-presidente da A.T.Kearney e director do Global Business Policy Council, a divisão de serviços estratégicos da consultora A.T.Kearney, responsável pelo Índice de Globalização, que está sediada em Alexandria, no estado norte-americano de Virginia, não muito longe de Wasginton DC.


Um dos resultados, à primeira vista, inesperados do vosso estudo sobre a globalização dos países, mostra que 60% dos vinte primeiros lugares do vosso Índice, são países pequenos ou pouco povoados e, na sua maioria, europeus. Também aqui funciona o "small is beautiful"?

P.L. - Em geral, os pequenos não têm alternativa. Com mercados domésticos pequenos, estes países têm de ser "abertos" para aceder e colocar produtos, serviços e capital. Por outro lado, nos pequenos países, os povos viajam com mais frequência para fora de fronteiras, pelas mais diversas razões, e telefonam mais para o estrangeiro. A comutação transfronteiriça é um dos fenómenos típicos da "abertura" entre países próximos e os pequenos tendem a explorar isso com vantagem. Veja o caso do "triângulo" entre Singapura, a Malásia e a Indonésia - cada um destes viajantes transfronteiriços conta como viajante "internacional", apesar das distâncias que percorre serem pequenas.

E existe alguma razão especial para o facto de 50% dos 20 países mais globalizados serem europeus? O que faz da Europa um viveiro de pequenos "globais"?

P.L. - Os países europeus beneficiam do facto de partilharem fronteiras comuns abertas e do papel desempenhado pela União Europeia e pela União Monetária Europeia, que ajudaram a reduzir as barreiras institucionais à circulação de pessoas, dinheiro e produtos.

Os pequenos países placa giratória ou "portas de passagem" no plano geo-económico e cultural poderão desempenhar um papel chave

Isso significa que as grandes potências (como os Estados Unidos ou a China) e outros países gigantes (como a Rússia, Índia e Brasil) são mais "domésticos", mais paroquiais, mais virados para dentro de si próprios? Eles precisam menos da globalização para afirmarem a sua vantagem competitiva?

P.L. - Naturalmente. Muitos deles classificam-se mesmo no fundo ou abaixo do meio da tabela do nosso Índice Global de 50 países, exceptuando-se os Estados Unidos, no 12º lugar. Em certo sentido, isto é reflexo do próprio tamanho - têm enormes mercados domésticos que não exigem tanto comércio internacional. E as pessoas viajam longas distâncias (por vários fusos horários inclusive) ou fazem chamadas a longa distância sem cruzarem fronteiras. Deste modo, não conta para se ser "global", segundo os critérios do nosso estudo. Por todas estas razões, as grandes potências mostram níveis de integração com o mercado mundial mais baixos, apesar ... do resto do mundo sentir profundamente a sua influência e poder.

Acha que países "placa giratória" como Singapura na Ásia ou o "corredor" Benelux/Escandinávia, na Europa, poderão, no futuro, gerar um novo tipo de poder geo-económico, apesar da sua pequenez?

P.L. - Esses países serão, certamente, jogadores importantes, tanto em termos culturais como económicos. À medida que as ideias se tornarem cruciais para o desenvolvimento e o crescimento, esses países funcionando como "placas giratórias" ou "portas de passagem" poderão desempenhar um papel-chave.

O cosmopolitanismo de um povo é um dos vossos indicadores. Qual é a sua importância?

P.L. - Quando falamos de globalização não nos referimos, apenas, aos fluxos de mercadorias e de capitais - mas, também, à difusão crescente de ideias e de informação, e este tipo de indicadores de contactos humanos são uma tentativa de perceber forças que moldam tendências. Num mundo global, nenhum país será capaz de viver isolado, e os que tiverem os melhores contactos com outras culturas serão os que mais beneficiarão.

O uso da Internet e da Web favorece claramente o contacto internacional, o cosmopolitanismo, a produtividade e a integração económica com o mundo. Os países nórdicos, e em particular a Suécia, são um bom exemplo

De que forma a penetração da Internet e o uso da Web num dado país poderão contribuir para uma boa posição no Índice Global?

P.L. - Favorecem claramente o contacto internacional, a produtividade e a integração económica com o mundo. Casos como os dos países nórdicos na Europa e de Singapura são um bom exemplo disso. Além disso, as tecnologias avançadas são um dos "motores" por detrás dos fluxos crescentes de capitais internacionais que hoje totalizam mais de 1,5 biliões (milhões de milhões) de dólares por dia! O mercado internacional de acções e títulos nos Estados Unidos é hoje 54 vezes superior ao de 1970, e 55 vezes superior no caso do Japão e 60 vezes no caso da Alemanha em relação ao mesmo período. A globalização financeira nos últimos 30 anos foi impressionante.

Quais são as melhores "práticas" (se assim pudéssemos apelidar) que podem ajudar um país a posicionar-se melhor na tabela da globalização?

P.L. - É difícil falar de uma receita de "boas práticas". Há diversas razões que favorecem a globalização de um país. Por exemplo, Singapura está no topo da tabela, porque tem elevados níveis de contacto com o mundo. O tráfego telefónico anual ascende a 390 minutos por pessoa e tem 8 vezes mais viajantes e turistas per capita do que os Estados Unidos. A Holanda, por outro lado, está em segundo lugar, em virtude dos seus indicadores financeiros, incluindo fluxos de investimentos de portfólio (que passaram entre 1995 e 1998 de 5 para 30% do PNB, o valor relativo mais alto em todo o mundo), investimento directo do e no estrangeiro (que passou de 8 para 19% do PNB no mesmo período), ou pagamentos derivados do comércio internacional. Finalmente, a Suécia está em 3º lugar, por causa do seu altíssimo nível de conexões via Internet.

Os "cosmocratas", a elite de empreendedores globais, são importantes para a integração mundial. Ainda que não seja fácil fazer o seu retrato ou mesmo contá-los

O "crash" da Nova Economia do ano passado e a tão falada hipótese de recessão em 2002 poderão ter um efeito negativo na globalização dos países?

P.L. - Não necessariamente. Isso poderá, efectivamente, reduzir os níveis de comércio internacional e de fluxos de capitais e de investimento. Mas, o nosso indicador mede esses fluxos em percentagem do PNB de cada país. Por isso, se a economia de um dado país entrar em refluxo, até pode aumentar a importância do comércio externo e dos movimentos de capitais. Quando a crise financeira bateu forte na Ásia do Sudoeste, muitos daqueles países, por mais paradoxal que pareça, revelaram ainda maiores níveis de integração com o mundo. Por outro lado, convém ter em conta que a globalização não é só económica. Os contactos pessoais continuarão a aumentar, assim como o número de utilizadores da Net.

Um dos "mecanismos" facilitadores da globalização são os empreendedores cosmopolitas e a taxa de nascimento de "start ups" metanacionais (viradas para a globalização desde a nascença), como acontece nos casos da Finlândia e de Israel, ou do Silicon Valley, nos EUA. Aceitaria introduzir estes critérios no vosso Índice?

P.L. - Adrian Wooldridge e John Mickelthwaite designaram esses empreendedores de "cosmocratas" e compararam-nos a uma elite global. Ninguém sabe ainda como os definir ou contar, mas são indiscutivelmente importantes por aquilo que representam: a rápida proliferação e expansão global de novas tecnologias e ideias que favorecem a integração mundial.

O contraste Portugal - Brasil

Portugal está na 15ª posição, à frente de países como a França e a Espanha, apesar das suas fraquezas estruturais em relação a outros países da União Europeia. Até que ponto este Índice de Globalização do país poderá "contrabalançar" a performance mais fraca noutros campos?

P.L. - Em parte porque é um pequeno país tem exactamente de se integrar mais com o resto do mundo. Portugal revela níveis moderadamente altos no comércio internacional, abaixo da Irlanda, Holanda, Suíça ou Suécia, mas à frente da Espanha, Alemanha, Reino Unido e França. No campo do investimento directo estrangeiro, do capital de "portfólio" ou das remessas e invisíveis na balança de pagamentos encontra-se na média europeia. Um dos pontos fortes continua a ser o peso das remessas de emigrantes - em 1998 totalizavam 5,7% do PNB.

O que é que falta ao Brasil, ainda na 44ª posição (a seis lugares do final da tabela dos 50), para subir para o meio da lista?

P.L. - Com a presidência Cardoso, o Brasil tem feito grandes progressos na abertura da sua economia. Contudo, ainda tem um longo caminho a percorrer. Particularmente, o comércio internacional é, ainda, muito fraco em termos de "standards" internacionais, o que reflecte a experiência brasileira anterior de desenvolvimento baseado na substituição de importações. O Brasil revela, também, um baixo nível de contactos pessoais com o resto do mundo, o que reflecte, em certa medida, a população enorme que tem e a grande desigualdade na distribuição do rendimento. Contudo, algumas medidas podem ser tomadas para baixar o custo das chamadas internacionais ou desenvolver ainda mais o turismo. No entanto, noutra face da moeda, o país tem altos níveis absolutos de ligação ao mundo exterior através da Internet, com mais de 3,5 milhões de utilizadores no final de 1999.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal