Cuidado com o mito agora em voga do '.com'

Um alerta aos pequenos empreendedores

Michael E. Gerber, o autor do «kit» de sobrevivência da pequena e micro empresa, entrevistado por Jorge Nascimento Rodrigues aquando da sua vinda ao 29º Seminário
das Pequenas Empresas Europeias realizado no Estoril

Entrevista com Gerber
O modelo clássico de evolução da pequena empresa da autoria de Larry Greiner

Michael Gerber Aos 63 anos mantém a fogosidade da sua vida aventurosa que o transformou num típico guru americano feito a pulso. O antigo tocador de saxofone, que percorreu a Europa de motorizada com a namorada no banco de trás, e vendedor de enciclopédias ao serão vê hoje as plateias de executivos e empresários renderem-se ao seu discurso de como aprender a regra número um para se ser um verdadeiro empreendedor.

Michael Gerber veio ao Estoril, ao encerramento do 29º Seminário das Pequenas Empresas Europeias, repetir a sua fórmula: deite fora os mitos que tem na sua cabeça sobre o que é a vocação empresarial, deixe-se de ser aprendiz de patrão, e concentre-se na verdadeira tarefa do empreendedor - pensar estrategicamente o seu pequeno negócio de modo a ele ter vida própria.

O seu livro mais polémico é O Mito do Empreendedor Revisitado (em inglês no original The E-Mith Revisited, publicado em 1995, e que já teve uma tradução em português), baseado num diálogo ficcionado com uma «Sara» especialista em tartes, um «compósito da minha experiência», como ele refere a rir. Gerber prepara, agora, um sequela a pensar nos novos tempos de emergência da economia digital. E lança, de novo, uma palavra de desmistificação: a Internet não é o salva-vidas da esmagadora maioria dos pequenos que muita literatura pinta. Mas só com The E-Mith.com, a publicar no próximo ano, saberemos a extensão do que ele quer dizer com mais este alerta.

Gerber vive a norte da Baía de São Francisco em Petaluma e dirige a The E-Mith Academy não muito longe dali, em Santa Rosa, onde já chega o cheiro do perfume das vinhas do vale de Napa. No intervalo de dois aviões, em Lisboa, o autor do «kit» de sobrevivência da pequena empresa, falou connosco.


O seu livro mais conhecido em Portugal, O Mito do Empreendedor Revisitado, é uma retoma do que havia escrito em 1986. Como você próprio confessa, nesses nove anos muita coisa se passou e nomeadamente o facto do sue negócio ter estado à beira do desastre. Se reescrevesse, hoje, essa obra mudaria alguma coisa, sobretudo face à emergência da nova economia?

MICHAEL GERBER - Não, não escreveria nada de substancialmente diferente. Faria apenas algumas adições que têm a ver com a massificação do fenómeno da Internet e da sua relação e impacto nos pequenos negócios.

E diria o quê aos pequenos empresários e aos novos empreendedores? Que a Web é um papão, uma modernice só para os grandes, ou uma oportunidade a não perder?

M.G. - O que eu vou dizer está no livro que estou a preparar e que tem o título polémico de The E-Mith.com. Acrescentei o '.com' à minha análise do mito do empreendedor. A meu ver a Web não está a funcionar para o pequeno negócio. É mais um mito. Cuidado com ele!

Não está a funcionar? Mas há uma enchente de casos de novos pequenos empreendedores que agarraram a oportunidade e se arriscam a ser os grandes de amanhã, ou não é verdade?

M.G. - Sim, alguns ficam ricos e têm sucesso no '.com'. Mas, e a esmagadora maioria que fracassa? Dessa ninguém fala. Quantos sites nesses 3 milhões que há na Web não servem rigorosamente para nada? Estar lá não significa NADA! O grande e poderoso potencial que a Net tem não é sequer percebido pela maioria dos pequenos negócios. Sem dúvida que pode ser uma força muito dinâmica, mas quantos pequenos negócios realmente a entendem e são capazes de a saber usar? Com a explosão da Net, também as ineficiências das pequenas empresas vêm ao de cima, tornam-se óbvias e muito dramáticas.

No fim de contas o que pretende é desmontar, uma vez mais, o 'optimismo' voluntarista e as ideias feitas que têm envolvido desde os anos 70 a figura do empreendedor. Porque se voltou para este personagem?

M.G. - Vou recontar uma história que já disse em público. Numa ocasião relacionei-me com uma grande consultora e alguém do topo desdenhosamente comentou-me que 'ali, não gostavam de pequenas empresas'. O que era 'sexy' eram as grandes empresas e as fusões e aquisições. Eu retorqui que a oportunidade estava noutro lado. A verdadeira oportunidade para mim são as pequenas empresas, os pequenos empreendedores a quem falta saber como cuidarem do seu negócio de modo a ele crescer. Há, de facto, uma revolução empresarial desde há uns vinte e tal anos, mas o sonho do empreendedor raramente é realizado. As estatísticas são mortais, pelo menos nos Estados Unidos: no final do primeiro ano, pelo menos 40% das pessoas que lançaram os novos negócios já os abandonaram, e, nos primeiros cinco anos de vida, mais de 80% dos pequenos negócios fracassam!

Mas a que é devida essa mortalidade infantil impressionante, se o empreendedor, em regra, é um entusiasta, que, no início, arrisca tudo, por vezes até se despede para avançar com o seu próprio negócio, e dedica horas a fio ao trabalho?

M.G. - O problema não reside nas pessoas não trabalharem, não terem entusiasmo, mas em trabalharem erradamente. E o erro, o pecado, por vezes vem da origem - há uma pretensão fatal de que sofrem muitos que são tocados pela vocação empresarial, a de que se se é um bom técnico em algo, então pode livrar-se do patrão, e criar o seu próprio negócio, pois saberá dirigi-lo. Nada mais errado: a especialidade técnica e o negócio são duas coisas radicalmente distintas. Mas, normalmente, quem se estabelece assim não se apercebe disto. Quem sofre deste mito acaba por percorrer um caminho de muita gente conhecido: primeiro euforia, aterrorizado depois, de seguida exaustão e finalmente desespero.

O que é, então, o empreendedor?

M.G. - No início, na infância, é evidente que o dono e o negócio são uma e a mesma coisa. Esta fase termina quando o empreendedor se apercebe que não pode continuar assim, se quiser passar a adolescência e chegar à maturidade. Tem de abandonar o seu voluntarismo e tarefismo e dedicar-se ao trabalho estratégico, ao trabalho de empreendedor - que é pensar o negócio, pensar a empresa, conseguir que ela funcione sem depender dele. O facto de ser um óptimo especialista não é suficiente para fazer esta viragem de que falo. Muitas vezes, o que acontece, é que, em vez, de se dedicar ao trabalho estratégico, opta por uma gestão por abdicação, e continua a ser mais um técnico na empresa, porventura o melhor e mais dedicado. Até que chega ao fim do que eu chamo a sua própria «zona de conforto», e aí o sarilho rebenta.

Mas como é que se evita isso?

M.G. - Eu tenho uma expressão que costumo usar: o empreendedor é aquele que trabalha a sua empresa, e não na sua empresa. É o que trabalha o modelo da empresa com que sonha. Nunca me canso de repetir o caso que estudei, o do lançamento do «franchise» da McDonald's por Ray Kroc. Ele começou a empresa como se fosse um engenheiro a trabalhar num protótipo que pudesse depois ser produzido em massa - o protótipo era o modelo de negócio, o modelo de empresa, os sistemas que a fizessem funcionar. Nesta época actual em que o termo 'sistema' está tão gasto e é usado por todo o mundo, é paradoxal verificar que a maioria dos donos não percebem que a empresa, o negócio, é um sistema. O desafio do empreendedor é criar um negócio que tenha vida própria.

Como é que na sua carreira chegou a essa visão do problema?

M.G. - A minha carreira? (Risos) É muito simples. Uma coisa é certa: nunca fui trabalhador para um patrão, salvo um pequeno período na escola em que fui porteiro! Na minha vida, fiz de tudo: toquei saxofone, viajei de motorizada pela Europa, vendi enciclopédias, quis ser emprenteiro, até que no Silicon Valley, ao ensaiar uma consultoria, descobri uma coisa, aos 41 anos: apesar de não perceber nada daquele tipo de negócio, verifiquei que também os próprios donos das novas pequenas empresas nada percebiam também! Aquilo que percebi é que ninguém sabia o que realmente se estava a passar naqueles anos 70 no Silicon Valley. ..


Livro: The E-Mith Revisited
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