A próxima grande «convergência»

Os analistas afirmam que está a emergir uma nova vaga a partir das descobertas no campo do genoma humano. A nova economia que daqui vai emergir mudará, novamente, a face das nossas indústrias. Uma entrevista exclusiva com Ray Goldberg da Harvard Business School sobre o impacto desta revolução, na semana em que foi revelada a sequênciação do cromossoma 21 pela revista Nature

Jorge Nascimento Rodrigues com Ray Goldberg

Versão reduzida publicada no Expresso

Artigo de Goldberg na revista Harvard Business Review
 Divulgação na revista cientítica Nature da sequenciação do cromossoma 21 
As vozes críticas da Genómica Germinal

Na semana em que é anunciada na revista científica «Nature» (edição de 18 de Maio de 2000) a segunda sequênciação de um cromossoma humano - agora o nº 21 - por um consórcio público de cientistas em várias partes do mundo (envolvendo 350 laboratórios) que já havia, no ano passado, sequênciado o nº 22 (ver revista Nature, volume 402, nº 6761, 1999), começa a ser pertinente trazer a chamada revolução das ciências da vida para a ribalta do mundo dos negócios.

Também o feito recente - e mediático - da Celera Genomics ao anunciar ter conseguido, no espaço de um só laboratório e sem subsídios públicos, sequênciar fragmentadamente a totalidade do genoma humano, reforçou a opinião de alguns analistas económicos de que se começa a prefigurar uma nova vaga pós-«dot com», a que o mundo dos empreendedores e dos investidores deverá começar a estar atento. Em linguagem académica, diz-se que a economia está a entrar - ou já entrou - num novo ciclo longo, desde que estas últimas descobertas científicas viram a luz.

A Web é uma pálida imagem

Ainda mal refeitos da «convergência» a que temos estado a assistir nos últimos cinco anos entre as tecnologias da informação, as telecomunicações e os «media», somos confrontados, na viragem para o século XXI, com o nascimento de uma nova «convergência» de disciplinas e indústrias, que, segundo Ray Goldberg, um dos especialistas séniores da Harvard Business School que dirige o Agribusiness Senior Management Seminars, «vai significar a entrada numa nova 'Era' que vai obrigar as empresas e as instituições a se reinventarem para o próximo século». Segundo nos referiu, «a vaga da genómica é o resultado da interface de inúmeras disciplinas» e será, na sua opinião, «ainda mais poderosa do que qualquer outra descoberta anterior na história da Humanidade».

Ray Goldberg
Ray Goldberg
Goldberg, com 73 anos, pode provocar algum nervosismo nos actuais arautos da Nova Economia ofuscados pelo fenómeno das «dot com», ao afirmar peremptório: «A revolução da genómica terá um impacto ainda mais profundo e vasto na economia e na sociedade do que a Web e esta interligar-se-á certamente com a genómica». O efeito da Web é ainda uma «pálida imagem» da mudança estrutural económica que está para chegar.

Num artigo de divulgação que elaborou com Juan Enriquez, outro investigador de Harvard, e que teve honras de publicação na prestigiada revista Harvard Business Review (artigo «Transforming Life, Transforming Business - The Life-Science Revolution», edição de Março-Abril de 2000), Goldberg fala de uma convergência em gestação nos próximos dez a vinte anos fruto não só da genómica humana, como da genética nas plantas e noutros seres vivos.

A biotecnologia pode encontrar, agora, o momento e as oportunidades para se reinventar.

«As indústrias alimentar, farmacêutica, química, da saúde em geral, da energia, das fibras e da informação vão-se cruzar e casar como jamais foi visto. As fronteiras entre negócios outrora distintos misturar-se-ão, e dessa grande convergência nascerá o que promete ser a maior indústria do planeta - a indústria das ciências da vida», sublinha-nos o velho investigador.

Lista de escolha para meter o pé

No levantamento que Goldberg e Enriquez fizeram há já, pelo menos, seis sectores activamente envolvidos - a química, a farmacêutica, a agricultura, a alimentar, os fundos de investimento e as firmas de advocacia -, oito outros com um pé dentro - ambiente, energia, cosmética, distribuição, «health clubes», farmácias, computação e militar - e cinco a entrar na próxima leva - robótica, electrodomésticos, Web e Internet, serviços de informação e «media».

LISTA DE SECTORES
Já envolvidos:
QUIMICA FINA - FARMACÊUTICA - AGRICULTURA - INDUSTRIA ALIMENTAR
FUNDOS DE INVESTIMENTO - ESCRITÓRIOS DE ADVOGADOS (patentes, litígios)

A envolver-se:
AMBIENTE - ENERGIA - COSMÉTICA - DISTRIBUIÇÃO - HEALTH CLUBES
FARMÁCIAS - COMPUTAÇÃO - MILITAR

Que se irão envolver:
ROBÓTICA - ELECTRODOMÉSTICOS - WEB/NET - SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO
MEDIA

Só como exemplo, para dar uma imagem das oportunidades que se abrem em termos de novos negócios, os dois autores referem o nascimento dos «agrocêuticos», uma mistura de alimentos e produtos farmacêuticos. Para se ser vacinado no futuro, talvez não se necessite de apanhar uma «pica», mas comer apenas um dado fruto ou... beber um leite de uma cabra especial. Ray Goldberg escreveu no ano passado um artigo seminal sobre o tema do negócio dos «agrocêuticos» na revista Nature Biotechnology (artigo «Business of Agriceuticals», vol 17, Suplemento, Março 1999).

Quanto ao cruzamento entre a medicina e o mundo do silício, já há quem esteja a construir «chips» híbridos com ADN que possam servir de testes de diagnóstico às condições genéticas dos indivíduos. O auto-diagnóstico vai provocar um «choque» no negócio dos médicos e um boom nas receitas de toda a área farmacêutica. Os produtos fruto desta convergência poderão, também, abrir as portas a novos canais de distribuição físicos e na Web, independentes das tradicionais farmácias, hospitais e clínicas.

Lugar para os ágeis

Uma vez mais, esta nova vaga está a abrir as portas aos «ágeis» neste período de «take off». À percepção «popular» de que a genómica apenas vai interessar aos grandes grupos, nomeadamente aos tubarões da indústria farmacêutica, Ray Goldberg contrapõe: «Essa gente está demasiado entretida com os seus meandros. Vai ser uma difícil transição para eles. O caso da Celera é um bom exemplo da nova realidade - num só ano, esta 'start-up' privada, nascida da decisão do investigador Craig Venter sair da Iniciativa pública em 1998 e fazer parceria com a Perkin-Elmer, demonstrou que é possível fazer a sequênciação em um ano e com 1/10 do custo de um enorme grupo de cientistas à volta do mundo».

Estas 'start-up' ágeis vão ser as futuras estrelas dos mercados de capitais e estão a criar, nos Estados Unidos, um novo mapa de «clusters», na Nova Inglaterra, na região de Washington DC, da Califórnia e de St. Louis.

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