Os no meio é que se tramaram

Quem se «lixou» com a globalização foram os do meio

O mais inesperado efeito colateral da globalização dos últimos 15 anos. "Teching Up" é a única solução possível diz Geoffrey Garrett, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Apresentação de uma obra a sair em 2005.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb-com, Dezembro de 2004

Entrevista em inglês em Gurusonline.tv
Geoffrey Garrett pode ser contactado por e-mail
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A actual fase de globalização iniciada nos anos 80 do século passado prejudicou os países do meio da tabela que ficaram como que "ensanduichados" entre as economias do conhecimento e os grandes países emergentes de custos baixos. A globalização gerou este paradoxo: ganharam os dos extremos, perderam os do meio. Esta é a tese de Geoffrey Garrett, director do Centro de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que lançará no próximo ano um livro sobre o tema, apropriadamente intitulado "Globalization's Missing Middle".

Apesar de na lista de preocupações do professor americano estarem os países da América Latina, da Europa de Leste do antigo bloco soviético, alguns dos ricos do petróleo do Médio Oriente e muitos dos candidatos a "tigres" da Ásia, a situação de "entalado" no meio assenta como uma luva a Portugal, um dos países da União Europeia que tem "divergido" da média europeia nos últimos anos.

A razão da divergência, tão discutida entre nós, assenta no paradoxo que o professor californiana encontrou como principal efeito da globalização: os países do "meio" não conseguiram saltar para o combóio da economia do conhecimento, e tiveram de se envolver numa guerra que não conseguirão vencer - a de se baterem contra as estratégias nomeadamente da China e da Índia nas áreas da produção e dos serviços a baixo custo. «Os do meio não conseguiram encontrar um nicho nos mercados mundiais», refere-nos Garrett. E prossegue: «A minha investigação indica que só há duas formas de ganhar vantagem competitiva - ou tendo capacidade para inovar na economia do conhecimento, ou tendo custos tão baixos para vencer nos produtos estandardizados. Os países do meio têm problemas em ambos os casos».

O salto dado por países como a Finlândia, a Irlanda ou Singapura, e parcialmente algumas regiões de Espanha, para as carruagens da economia do conhecimento, a par da afirmação das estratégias globais da China ("daguo xintai", como lhe chamam os estrategos chineses) e da Índia ("bollystan", como já é conhecida), tornaram este paradoxo ainda mais evidente.

"Teching Up": a única saída

Garrett não vê Portugal isolado entre os emergentes da moda da década de 80 e 90 do século XX. «O México, noutro contexto, tem uma posição muito similar. A saída para a situação não pode ser concorrer com a Índia ou com a China, pois é uma batalha perdida. Uma aposta na subida do patamar tecnológico é a única estratégia viável. É claro que é cara. È, aqui, que o sistema europeu pode ser de grande ajuda para Portugal. Mas o México não tem nada parecido com a União Europeia (U E) para o ajudar a subir na cadeia de competências».

O professor californiano acha que há um grupo entre os "médios" que poderá conseguir realizar essa subida de patamar - esse "teching up", como lhe chama. «Se há um grupo nessas condições é o dos novos aderentes à U E da Europa Central e do Leste». Ele considera, mesmo, que a U E é um modelo para outras latitudes, como é o caso da América Latina. «O que os EUA querem com a ALCA (Acordo de Comércio Livre das Américas) não é suficiente. A América Latina necessita de uma integração profunda do tipo do que ocorreu na Europa nas últimas duas décadas».

Fazer esse "teching up" pressupõe a aposta em três direcções, diz o professor da UCLA. «A Educação, sem dúvida, é claramente uma questão crítica - mas não chega por si só», adverte. São necessários mais dois eixos: o desenvolvimento de sistemas financeiros sofisticados que consigam canalizar o investimento e lidar com a volatilidade dos mercados globais; e sistemas legais fortes que protejam a propriedade intelectual e criem incentivos aos investidores para apostarem no longo prazo.

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