O modelo de gestão galego

Na bolsa do management europeu, a Galiza/Galicia está a subir de cotação. Depois do caso Zara (grupo Iditex, da Corunha/A Coruña) se ter transformado em "case study" de inovação estratégica para Gary Hamel, Vigo vê uma das suas indústrias históricas desde os anos 50 atrair a atenção dos especialistas de gestão. No epicentro está o complexo industrial automóvel da Peugeot-Citroen gerido por um nativo desde 1998.

Jorge Nascimento Rodrigues em Vigo, Agosto 2002

Artigo publicado no semanário português Expresso

Histórias de Empresas de Vigo | O Faro de Vigo | La Voz de Galicia

A Galiza começou a atrair a atenção dos consultores e académicos de gestão. A Zara e o grupo Iditex sediado na Corunha tornaram-se referência obrigatória e Gary Hamel, o guru da inovação, cita-a como "case study" ibérico. A região tem, no entanto, outros ex-libris no management, segundo os especialistas. Ourense assistiu à projecção de duas "gazelas" na confecção, Adolfo Domínguez e Roberto Verino, e de um grupo original no agro-alimentar, a Cooperativas Orensanas (Coren) criada nos anos 60. E Vigo viu, recentemente, a gestão do complexo industrial da multinacional automóvel Peugeot-Citroen (PSA) despertar a atenção pelos objectivos e resultados internos, como pelo efeito indutor num forte "cluster" de fornecedores de componentes em toda a Galiza.

O sector automóvel representa hoje 51% da exportação da região galega e é sete vezes superior em valor à segunda actividade exportadora, as peças de vestuário. No centro do interesse está a mudança estratégica ocorrida com a maior capacidade de iniciativa e de decisão da PSA em Vigo desde 1998, quando Javier Riera Nieves assumiu a direcção do complexo industrial.

O «aldeão» viguense

O "cambio" é visível nos indicadores internacionais do Centro da PSA na cidade galega - desde há três anos transformou-se na principal fábrica terminal de veículos de toda a multinacional, mesmo à frente do complexo de Mulhouse, em França, na pátria do grupo. Nos últimos dez anos, passou de um nível de 200 mil veículos anuais para mais de 480 mil no ano passado (comparativamente, a Auto Europa em Portugal está na ordem dos 140 mil ainda que o valor unitário seja mais elevado). Em veículos de turismo, o salto mais significativo deu-se entre 1999 e 2000 e nas colecções especiais o crescimento tem sido superior a 50% desde 1999. A PSA representa hoje 38% das exportações da Galiza. Se o complexo fabril se constipar, a economia galega adoece.

A posição do pólo de Viga no organograma de poder da multinacional francesa subiu rapidamente. Javier Riera tem assento entre os seis directores fabris da Direcção Industrial de Fabricação internacional do grupo. «Vigo passou a ter um papel que não tinha junto de Paris», diz-nos Riera, que se considera «um aldeão» viguense, uma cidade em que, diz um dos ditados, «é tão natural ser da Citroen como do Celta», o clube de futebol local, cujo estádio fica quase em frente da unidade industrial.

Javier nasceu há 57 anos ainda a Citroen não se tinha instalado em Vigo. Tirou engenharia industrial em Madrid e com 25 anos veio para a fábrica da Citroen Hispania (como então se chamava) na sua cidade natal. Foi por um golpe de sorte e de voluntarismo de um viguense ilustre, Félix Santamaria, que o Barão de Roure em 1957 se decidiu por Vigo em vez de Pamplona (em Navarra, perto da fronteira com França). A Zona Franca portuária seduziu-o, além da acção de "lobby" de Nicolás Franco, o irmão do ditador, que era presidente da Fasa Renault em Valadolid. O Barão francês resolveu em 1958 instalar a Citroen num armazém do porto perto do Clube Náutico e as primeiras 20 furgonetas de 2 cavalos foram embarcadas para Casablanca, em Marrocos. O resto é história. Javier fez uma carreira na multinacional e chegou a trabalhar em Paris como director da qualidade operacional da Citroen reportando a Robert Peugeot.

Segredos de fábrica

Regressado a Vigo, o "aldeão" meteu mãos à produtividade e à qualidade. «Flexibilidade foi uma das nossas batalhas», afirma Riera, que implementou uma jornada de trabalho de 24 horas, com três turnos. Segundo, o índice Arbur, a empresa está no nível 132, trinta e dois pontos acima do padrão internacional. Em 2001 acabou o ano em 144, o que foi um recorde. A par disso, o pessoal foi rejuvenescido, baixando de uma média em torno dos 50 anos para os 25. A produção diária vai atingir os 2000 veículos (mais de 3 vezes do que na Auto Europa) e os carros produzidos anualmente por empregado (inclui todo o tipo de pessoal) aproximam-se da meia centena, o que já é considerado de excelência internacional segundo analistas espanhóis do sector.

Esta flexibilidade é apoiada por 470 "círculos de progresso" - evolução dos círculos de qualidade iniciados em 1987 - que já envolvem 3200 pessoas. «O objectivo este ano é chegar aos 500 círculos», remata Riera, o que coloca a fábrica de Vigo como uma das unidades industriais espanholas com mais organismos deste tipo. Um sistema de sugestões permite mobilizar, também, o pessoal. No ano passado, foram aplicadas 8500 sugestões, mais de metade de todas as emitidas, e implicando um grau de participação média superior a 80%.

Uma outra estratégia cuidadosamente desenvolvida tem sido a política de "outsourcing", de externalização de fabrico de componentes e mesmo de módulos que permitiu o desenvolvimento acelerado de um "cluster" na Galiza e no Norte de Portugal, em que pontuam não só multinacionais (como a Faurecia francesa) como grupos galegos e de outras regiões de Espanha (como COPO, Dalphi-Metal, Vegalva/Viza Automoción, Gestamp) e portugueses (Simoldes por exemplo). Só nas redondezas há 62 fornecedores. Javier crê que o desenvolvimento continuado de uma filosofia de arquitectura modular «vai gerar novas oportunidades para externalização», e o mesmo sucederá, garante, na área de desenvolvimento de produto e na de conhecimento e formação. Uma das iniciativas de parceria lançadas no âmbito do ensino superior galego foi o MBA de gestão de empresas do sector automóvel (Máster en Gestión de Empresas de Automoción), que acabou recentemente de formar a primeira leva de 36 alunos. Javier Riera "pisca o olho" a Universidades do Norte de Portugal para um desafio do mesmo tipo.

O «BOOM» DA PROVÍNCIA DE PONTEVEDRA
Nas cinco principais "províncias" (divisão administrativa abaixo das comunidades e regiões) mais exportadoras de Espanha, Pontevedra foi a que maior crescimento de exportações tem revelado em 2002. Ainda que estando em termos absolutos em quarto lugar, depois de Barcelona (na Catalunha), Madrid e Valência (também na costa mediterrânea), esta província galega fronteiriça com o Minho cresceu em exportações até Abril, comparativamente a período homólogo do ano passado, 11%, enquanto Barcelona. Madrid e Saragoça (Aragão) declinaram. A Comunidade Valenciana teve apenas uns modestos 2%.
O grande motor da abertura ao exterior de Pontevedra é o "cluster" automóvel, que já cresceu em exportações até Abril mais de 17% no sector do fabrico de veículos e 9% nas componentes. A fatia de leão das exportações desta província pertence a este sector que abrange 77% e é 10 vezes superior às exportações do sector pesqueiro, o número dois na lista. O valor acrescentado trazido pela exportação é enorme, com uma taxa de cobertura da balança comercial superior a 140%. No caso específico do sector automóvel é de 200%.
Apesar da capital da província estar em Pontevedra - uma cidade de cerca de 80 mil habitantes, mais a norte -, o grande pólo urbano e económico é Vigo, com mais de 280 mil habitantes, a cidade média mais populosa da Galiza que concentra 10% da população da região (a capital Santiago de Compostela não chega aos 100 mil e a Corunha, a segunda maior cidade, não chega aos 250 mil).

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