O factor surpresa em tecnologia

A inovação comporta-se de um modo economicamente "incorrecto". As novas indústrias e sectores gerados pelas inovações tecnológicas raramente seguiram os prognósticos dos analistas e os desejos da maioria dos empreendedores e das políticas públicas. O factor surpresa é a regra histórica, diz o investigador americano Jeffrey Funk radicado no Japão.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, Maio 2004

O novo livro de Jeffrey Funk: «Mobile Disruption: The Technologies and Applications Driving the Mobile Internet» (compra do livro)
E-mail do Prof. Funk: funk@iir.hit-u.ac.jp | Página na Web do Prof. Funk
Entrevista exclusiva em inglês | Entrevista em português reduzida

Jeffrey Funk, um investigador norte-americano radicado no Japão desde 1996, verificou, num estudo sobre 19 indústrias na área da electrónica, duas "leis" de ferro em 13 desses sectores: os clientes que vão alimentar o crescimento das novas indústrias são, regra geral, gente inesperada, e as aplicações de sucesso surgem sobretudo em sectores e nichos de mercado adjacentes ou distintos dos inicialmente pensados.

Um caso recente que o tem apaixonado é o do que se designa hoje por "mobilidade", o que o levou a escrever o livro Mobile Disruption. Funk verificou, baseado na experiência do Japão que viveu directamente, as "anomalias" ocorridas e o atraso com que os ocidentais se aperceberam das características distintas da mobilidade em relação à plataforma Web pensada para os computadores. Uma das surpresas é, por exemplo, o uso da linguagem Java que está a ter um impacto inesperado nesta nova indústria da "mobilidade", diz Funk, que é professor no Instituto de Investigação em Inovação da Universidade de Hitotsubashi, no "campus" de Kunitachi, perto de Tóquio.

«Em vez de estarem focalizados nas capacidades tecnológicas actuais, olhem para as trajectórias», sublinhou Funk. E a única forma de o fazer é «olhar para fora da sua própria indústria para descobrir as trajectórias tecnológicas-chave e as oportunidades por elas geradas».

Funk observa o mesmo fenómeno no sector automóvel. Enquanto que as correntes dominantes na inovação nesta área olham em isolado para o hidrogénio e os veículos eléctricos, ele recomenda que se dê atenção à convergência de impactos no transporte das tecnologias sem fios e de novos semicondutores e ainda aos "outputs" da evolução nas baterias que está a ocorrer nos telemóveis e nos computadores portáteis.

Arrogância, dogmatismo, falta de flexibilidade mental é o principal pecado dos empreendedores que conduz à enorme mortalidade das jovens empresas ("start-ups") criadas a reboque das vagas de inovação.

Este investigador desenvolveu uma metodologia de análise assente no que designa por «trajectórias tecnológicas», analisando o seu impacto em sectores "externos" à sua origem, bem como a inesperada "convergência" entre elas. «Em vez de estarem focalizados nas capacidades tecnológicas actuais, olhem para as trajectórias», sublinhou-nos Funk. E a única forma de o fazer é «olhar para fora da sua própria indústria para descobrir as trajectórias tecnológicas-chave e as oportunidades por elas geradas».

Arrogância, dogmatismo, falta de flexibilidade mental é o principal pecado dos empreendedores que conduz à enorme mortalidade das jovens empresas ("start-ups") criadas a reboque das vagas de inovação. «As 'start-ups' morrem mais por razões de mercado do que por motivos técnicos. É a avalancha de clientes inesperados nas novas indústrias que contribui para esta mortalidade», diz-nos Funk. Falta-lhes, em regra, o pragmatismo para corrigirem a tempo o seu mercado (os seus potenciais clientes de verdade) e o modelo de negócio (deitando fora o idealizado).


Entrevista
(versão reduzida da entrevista em inglês)
Jeffrey L. Funk, professor na Universidade japonesa de Hitotsubashi
«Mobilidade é diferente de Web»

O seu livro insiste em diferenciar o modelo de negócio da Web do sector emergente da mobilidade. Porquê?

JEFFREY FUNK - Muita gente no mundo dos negócios enganou-se ao julgar que a Internet móvel era apenas a Net do computador num telemóvel. Ora, surgiu, inesperadamente, um conjunto de novos utilizadores e de aplicações que propiciaram o crescimento inicial deste novo sector. É indispensável uma abordagem diferente.

No seu livro refere o caso japonês...

J.F. - O caso da NTT DoCoMo é, a este respeito, muito claro. Os fornecedores de serviços japoneses foram os primeiros a descobrir esses novos clientes da mobilidade, inesperados - os jovens. Perceberam-no através do uso dos conteúdos de entretenimento e do surgimento de um novo modelo de negócio assente em micro-pagamentos. A meu ver, os EUA e a Europa continuam a subestimar as particularidades da mobilidade, razão pela qual o Japão e a Coreia do Sul surgem como os países mais bem sucedidos.

E como vê o futuro do novo sector?

J.F. - Creio que a sua arquitectura será moldada pela confluência de um conjunto de trajectórias tecnológicas, nos processadores, nas técnicas de 3D e de infravermelhos, nas aplicações de GPS e nos desenvolvimentos de aplicações para intranets.

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