Francis Fukuyama sobre a revolução tecnológica

Terceira Vaga favoreceu Democracia

O novo mundo trazido pela Terceira Vaga favoreceu o triunfo da democracia
e de uma sociedade mais aberta, plural e empreendedora. Mas implicou
o agravamento temporário de alguns males sociais, que, ciclicamente, se agravam em períodos em que o cimento social abre fissuras, por efeito do crescimento do individualismo e da desestruturação do tecido económico. Francis Fukuyama, um dos mais polémicos especialistas de ciência política, fala de uma "grande ruptura" nos últimos quarenta anos, que estará a findar - com o século XXI abre-se um novo ciclo social, que não significará, contudo, um retrocesso conservador ao pré-anos 60.
O professor de política internacional estará, de novo, em Lisboa, em 26 de Junho de 2000, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian para proferir uma palestra sobre "Capital Social e Globalização", no âmbito de uma Conferência Internacional sobre Globalização, Desenvolvimento e Equidade. Fukuyama ficou conhecido mundialmente por uma frase proferida após a queda do Muro de Berlim - "O Fim da História" - que fez o título do seu livro mais traduzido e vendido até à data. Nesta entrevista, faz o "deve" e "haver" da última metade do século que ora finda e levanta interrogações sobre a próxima era, onde confia que a União Europeia se afirmará.

Jorge Nascimento Rodrigues com Francis Fukuyama do outro lado do email

 Site da Universidade George Mason | Página na Web de Fukuyama 

PERFIL
Francis FukuyamaFrancis Fukuyama, 48 anos (1952), é professor na George Mason University na Virgínia, nos Estados Unidos. É director do programa sobre Política e Comércio Internacional daquela Universidade (International Commerce & Policy Program).
Ficou conhecido pelo livro, de há oito anos atrás, O Fim da História e o Último Homem. Na trilogia que o consagrou como pensador sobre o final de século, sucederam-se, depois, Confiança - As Virtude Sociais e a Criação de Prosperidade (1995) e, no final do ano passado (1999), A Grande Ruptura - A Natureza Humana e a Reconstituição da Ordem Social.
Doutorou-se em Ciência Política na Universidade de Harvard e trabalhou, depois, nos anos 80, no grupo RAND e no Departamento de Estado norte-americano. Participou em 81/82 na delegação norte-americana às negociações entre israelitas e egípcios.
Colabora regularmente nas revistas políticas "Foreing Affairs" e "The National Interest". O seu mais recente trabalho aborda as implicações para a governação das revoluções da informação e da biotecnologia, um estudo em co-autoria com Caroline Wagner, financiado pelo Science and Technology Policy Institute da RAND e pela Defense Advanced Research Project Agency - a célebre DARPA, profundamente ligada à Revolução da Informação - do Departamento de Defesa americano.


A palavra "fim" surge nos seus escritos e livros uma série de vezes. O "Fim da História" é, porventura, a sua frase mais conhecida - que fez o título da sua obra mais traduzida. Mas, ainda, recentemente, apareceu, num escrito seu, o "Fim da Ordem", como se estivessemos a viver um período de desordem. O conceito de "fim" é mesmo uma palavra-chave na sua abordagem do mundo de final do século XX, ou é pura coincidência?

FRANCIS FUKUYAMA - O "Fim da História" não é uma frase minha. Pedia-a "emprestada". É um conceito tanto do filósofo Hegel como de Karl Marx. Provavelmente será melhor compreendida por pessoas de tradição marxista. Pareceu-me apropriada usá-la em 1992 para descrever a situação em que entrávamos no final do século XX. O "Fim da Ordem" já não é da minha lavra, foi criado pelo meu editor, e eu, na realidade, não a aprovei.

Capa do livro The End of History and the Last Man Mas os seus críticos dizem que o conceito de "fim da História" foi inapropriado e que as suas conclusões em "O Fim da História e o Último Homem", reflectindo sobre a sociedade depois da queda do Muro de Berlim, se revelaram erradas. Que tem para "alegar" em sua defesa?

F.F. - Não me parece que tenham ocorrido, até hoje, quaisquer desenvolvimentos que tenham posto em causa a minha tese sobre o assunto, desde que eu escrevi o artigo original sobre o "Fim da História" justamente nesse ano de 1989 da queda do Muro de Berlim. Se se quiser entender, correctamente, o que eu quis dizer por "fim" da História - História como foi entendida durante grande parte do século XX -, perceber-se-á que não há, em nenhuma parte do mundo de hoje, alternativa séria no campo político à democracia liberal moderna... O que triunfou foi a democracia liberal...

... e não o final da História com que Marx sonhara! A Revolução da Web e a massificação da Internet no final dos anos 90 aceleraram ainda mais esse "fim" da História como ela foi entendida durante o século XX?

F.F. - Exactamente. Penso que a revolução das tecnologias da informação intensificou ainda mais a caminhada para a democracia liberal, permitindo o acesso à informação a um cada vez maior número de pessoas em todo o mundo e, deste modo, socavando os "filtros" autoritários de todos os sinais. Esta vaga "atacou" estados autoritários tão diferentes como o Irão e a China - para não voltar a referir o caso da ex-União Soviética -, mas, também, as grandes empresas hierarquizadas.

O outro lado da biotecnologia

E como é que vê o impacto no século XXI da conjugação actual de duas revoluções - a da informática e a da genómica, a tal "revolução dual" de que tem falado ultimamente?

F.F. - A meu ver, a revolução da informação é, em grande medida, benigna. Tende a difundir o poder e a não premiar a grande escala. Quanto à revolução biotecnológica, ainda que esteja na sua infância, o assunto é mais sério - pode potencialmente ser ameaçadora, pois traz dentro de si a possibilidade de alterar alguns dos aspectos básicos da vida, inclusive da natureza humana. As duas revoluções vão interagir entre si, naturalmente. Até ao momento, ainda não assistimos a um esforço sério para criar uma instituição internacional de regulação e controlo das Tecnologias da Informação. Mas um certo grau de liberdade que até pode ser apropriado para este tipo de tecnologia, pode não sê-lo para a biotecnologia. São questões em aberto, que merecem discussão.

Há alguma ligação entre a trilogia de livros que escreveu nos últimos sete anos - O Fim da História (1992), Confiança (1995) e A Grande Ruptura (1999)?

F.F. - Efectivamente há. O filósofo Hegel tinha dito que, no "final" da História, existiriam três componentes irredutíveis da modernidade - o Estado, a Sociedade Civil, e a Família. Cada um dos meus três livros aborda um destes aspectos - em O Fim da História tratei da política moderna, em Confiança (compra do livro) falei da sociedade civil, e no último (A Grande Ruptura) precisamente abordo a questão da família.

Capa do livro The Great Disruption Falando desta sua última obra - porventura menos conhecida em Portugal -, essa enorme "ruptura" social e cultural de que fala é o lado "negro" da Terceira Vaga antecipada pelo casal Toffler?

F.F. - Em certo sentido, digamos que sim. O meu argumento é que houve uma revolução profunda nas normas sociais e nas comunidades humanas que foi resultado da transição do industrialismo para outra realidade, que acarretou um maior apego ao individualismo, menor grau de confiança social, taxas mais altas de criminalidade e a desestruturação da família tradicional.

Mudança de ciclo social

Mas acha que essa "ruptura" da segunda metade do século XX vai perdurar ou o ciclo social vai inverter-se?

F.F. - Penso que todos esses sintomas são fenómenos transitórios, historicamente falando, e que a "ruptura" social se auto-corrigirá, à medida que as pessoas se adaptem a um ambiente económico e tecnológico diferente.

Aliás, refere, nessa obra mais recente, que começam a surgir sinais de que a tendência se está a inverter. A "grande ruptura" já está a ser enterrada?

F.F. - Penso que sim, em casos como o dos Estados Unidos e de outras sociedades que foram profundamente afectadas pela "grande ruptura". Já houve uma inversão em algumas das tendências sociais mais negativas que tinham ocorrido na geração anterior - começamos a assistir à desaceleração das taxas de criminalidade, a alguma mudança no estilhaçar da família convencional e surgem níveis de confiança social mais elevados. Ainda que não seja possível predizer o futuro, é minha convicção de que há já evidencia empírica de que os mecanismos sociais de auto-correcção começaram a actuar.

A ideia com que se fica é que a "grande ruptura" entre os anos 60 e os 90 deste século foi um ciclo social que agora chega ao fim. Isso é uma "novidade" histórica?

F.F. - Claro que não. Houve um outro ciclo, mais ou menos de cinquenta anos, no princípio do século XIX, em países como a Grâ-Bretanha e os Estados Unidos, que, então, se moviam de uma sociedade agrícola para uma industrial. Também, nessa altura, o crime e a desestruturação da família ocorreu. Depois, na segunda metade do século XIX, melhorou a situação. Por isso, tenho alguma esperança que estamos a assistir ao mesmo tipo de passagem de ciclo.

A mudança de ciclo também implica o declínio do Estado-Nação como o predisse Kenichi Ohmae? A sociedade civil e a revolução "das associações", de que fala, são a tendência emergente?

F.F. - São - eu penso que houve um crescimento no papel da sociedade civil internacional e na actividade das organizações do tipo das não-governamentais. E, muita desta mudança, é possibilitada pela tecnologia das comunicações electrónicas baratas!

A "rede" não é tecnologia

Toda a gente fala agora da centralidade da "rede". Mas, o professor, tem uma análise peculiar sobre a "rede" - o "network", como se diz na gíria dos tecnólogos - como "capital social", um outro conceito seu. De que "rede" se trata então?

F.F. - A "rede" não é sobretudo uma "coisa" tecnológica - tem mais a ver com reciprocidade moral e relações sociais, conexões entre as pessoas. Esta visão da rede é válida mesmo num ambiente "hi-tech" como o do Silicon Valley - onde os laços sociais informais são fundamentais para o movimento do conhecimento. A rede digital corre em cima da rede social.

Alguns analistas falam da "adhocracia" como forma democrática de gerir as grandes empresas e a democracia directa electrónica como a melhor forma de "gerir" politicamente as sociedades. Acha que são essas as formas democráticas do futuro?

F.F. - Uma coisa é certa: as nossas actuais instituições democráticas formais têm um problema muito sério às costas - um problema de legitimidade, porque, na realidade, não conseguem ou são insuficientes para lidar com os desafios colocados pela globalização. Mas, na verdade, a democracia directa é muito problemática como resposta à questão. Pode acontecer que parte da resposta esteja nas Organizações Não-Governamentais, como começámos a ver em Seattle e em Washington recentemente.

Samuel Huntington chocou muita gente aqui há uns anos atrás ao anunciar que, depois do fim do conflito ideológico capitalismo/socialismo, tinha chegado a Era do choque entre algumas Civilizações. Acha que o futuro vai ser como ele o anteviu em The Clash of Civilizations (compra do livro)?

F.F. - Samuel é um amigo meu e um ex-professor por quem tenho um enorme respeito. Mas discordo totalmente com a tese desse seu livro. O essencial da nossa Era não é o choque entre Civilizações, mas as consequências da globalização - que, ao mesmo tempo, têm um efeito duplo e contraditório, integram e dividem.

Para finalizar, a União Europeia como projecto vai sobreviver a esses efeito duplo da globalização? Tem hipótese no século XXI ou vai implodir?

F.F. - Vai ter imensas hipóteses!


A herança dos anos 60
Ao ler este seu último livro sobra a "Grande Ruptura", fica-se com a ideia superficial de que, na sua opinião, todas as grandes "bandeiras" da mudança cultural dos anos 60 - a cuja geração o professor também pertence - produziram resultados negativos. Os conservadores da altura tinham razão e os radicais estavam completamente equivocados? Com o ciclo social que agora emerge o tempo vai voltar para trás?

FRANCIS FUKUYAMA - De modo algum! Muitas das mudanças que ocorreram neste período foram boas e necessárias - maior abertura, diversidade e tolerância, maiores direitos e oportunidades para as mulheres, para só citar alguns. Não podem e não devem ser invertidas. Mas, é claro, que houve consequências negativas que não era possível antecipar.

Mas, no fundo, é um paradoxo - os anos sessenta encarnam um momento de triunfo da acção colectiva, mais um na História do século XX, mas o resultado dessa ruptura moral e cultural, a prazo, foi o crescimento do individualismo e a miniaturização da comunidade social a que nos ligamos, como explica neste seu último livro. O paradoxo vai continuar com a geração Internet que está a fazer uma revolução silenciosa, tão profunda como a dos anos 60?

F.F. - Penso que um maior pendor individualista e a miniaturização comunitária são, em certo sentido, ditadas por forças socio-económicas e tecnológicas profundas. A Internet, por exemplo, coloca-nos em contacto com círculos muito restritos de gente que pensa como nós em diferentes países - globalizou essa nossa comunidade em miniatura. E, ao mesmo tempo, isola-nos, separa-nos dos nossos vizinhos, de uma vida social real mais larga.

Mas em que é que a geração dos anos 60 se "enganou"?

F.F. - A acção colectiva da geração dos anos sessenta acabou, politicamente, por resultar em mais estatismo, pela convicção de que a solidariedade social é fundamental ao Estado Social moderno. Mas essa não foi uma resposta efectiva em muitas situações - porque a verdadeira solidariedade social é, por vezes, conseguida a um nível social mais baixo, e esse tecido social perdeu-se, desestruturou-se, durante a "grande ruptura".

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