Christopher Freeman, um dos patriarcas das políticas de ciência
e tecnologia e da evolução cíclica da história económica

A redescoberta dos ciclos longos de Kondratief

Apresentação do último livro da carreira de Freeman
«As Times Goes By»

Jorge Nascimento Rodrigues com o fundador do SPRU em 2001

Site do SPRU | Bio do Prof Chris Freeman
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Outros artigos sobre os ciclos de Kondratief

Aos 80 anos, o inglês Christopher Freeman, traz para a actualidade do debate macro-económico os ciclos longos no capitalismo "descobertos" por um economista russo dos anos 20 de nome Nikolai Dmitrievich Kondratief.

O livro com que fecha a sua carreira académica, particularmente conhecida pela criação e liderança do SPRU - Unidade de Investigação em Políticas Científicas, na Universidade Sussex, em Inglaterra -, foi lançado em Londres recentemente. Intitulado As Times Goes By - From the Industrial Revolutions to the Information Revolution (pela Oxford University Press) , foi escrito a meias com um seu aluno português, Francisco Louçã.

Christopher Freeman Foi Schumpeter que baptizou esses ciclos com o nome do russo no final dos anos 30. Mas a guerra e depois os chamados 30 gloriosos anos de crescimento apagaram os ciclos longos da memória dos economistas. Mesmo depois dos choques petrolíferos dos anos 70 e do esgotamento do modelo industrial, Kondratief continuou a ser ignorado.

Uma comunidade de investigadores reanimaria o debate no princípio dos anos 80 em torno das conferências promovidas pelo IIASA (International Institute for Applied Systems Analysis) austríaco. Freeman fazia parte de uma das correntes.

Nessa discussão envolveram-se homens hoje conhecidos da área da gestão, como Peter Senge ou Luc Soete, e referências do MIT como Jay Forrester. Um dos resultados desses debates na altura (então seguidos pelo Expresso) foi a "previsão" de uma retoma associada a uma nova sucessão de inovações tecnológicas para a década final do século XX, antes da crise estrutural de final de ciclo.

O disparo da Nova Economia em meados dos anos 90 viria, de novo, acalentar os sonhos de um "boom" sem fim e o facto de vivermos a ponta final de um ciclo longo foi ignorado. A realidade, outra vez, com todo o seu dramatismo bolsista e político colocou um ponto final nessa miragem do final do século XX. Os ciclos longos voltam à ribalta. O livro de Freeman e Louçã não poderia ser mais oportuno.


Porque razão a macroeconomia dominante sempre ignorou os ciclos longos, mesmo depois da Grande Depressão dos anos 30 ou, mais recentemente, depois dos "choques" petrolíferos dos anos 70? Quais são as razões desta "alergia" à história económica de longo prazo, que transformaram os ciclos de Kondratief em meras notas de pé de página?

C.F. - Kondratief sempre foi mal conhecido na Europa e nos Estados Unidos. Era melhor conhecido na Rússia nos anos 20 e também na Alemanha e na Holanda, em virtude de traduções dos seus trabalhos e porque havia uma comunidade de economistas interessados aí nos ciclos longos (como van Gelderen, Spiethoff). Nos países de língua inglesa, o trabalho de Kondratief ficou conhecido através do livro "Ciclos de Negócios" (Business Cycles: A Theoretical Historical and Statistical Analysis of the Capitalist Process, reedição de 1989 - compra do livro) de Schumpeter publicado em 1939. Foi Schumpeter que baptizou as vagas longas de "ciclos de Kondratief", mas havia umas escassas e muito más traduções de um dos artigos científicos de Kondratief. O livro de Schumpeter foi, no entanto, submergido pela Segunda Guerra Mundial e pelos escritos de Keynes sobre os ciclos mais curtos (que chamamos de ciclos de Juglar, de 5 a 10 anos, observados por este economista francês no século XIX). Quando eu próprio fui estudante na London School of Economics nos anos 30, nunca ouvi falar de Kondratief.

Mesmo Alvin Toffler, que criou a ideia das três "vagas", ou Peter Drucker, o "pai" da gestão, um apaixonado pela história económica e social, nunca se referiram a Kondratief. Mais do que Estáline em 1938, quem "matou" Nicolai por tanto tempo?

C.F. - Depois da Guerra, a economia ficou cada vez mais prisioneira da matemática e os homens da econometria pensavam que os ciclos longos tinham sido "reprovados". O longo período de crescimento de 1948 até 1970 foi literalmente o fim do interesse pelos ciclos longos. Alguns estatísticos julgaram inclusive ter provado que tais ciclos não eram um fenómeno real. Isso aconteceu até aos anos 80, quando o retorno do desemprego em massa e o abrandamento da economia mundial voltou a provocar o reinteresse pelo assunto. Foi então que um grupo com N. Kaldor, Jan Tinbergen, Jacob van Duijn, Gerhard Mensch e Ernest Mandel começaram a escrever sobre o assunto. Quando me encontrei com Toffler ele manifestou algum interesse, mas não deu grande seguimento.

Como nasceu o seu interesse pessoal pelos ciclos e pelo russo?

C.F. - O regresso do desemprego em massa nos anos 70 e a forma como isso me lembrou a minha juventude na cidade de Sheffield nos anos 20 e 30.

E porque razão, agora, este livro?

C.F. - Só nos anos 90 tive tempo para fazer o trabalho de investigação que era necessário e tive a oportunidade de ter a colaborar o entusiasmo de Francisco Louçã na sua preparação.

Mas não será um pouco "determinista" querer "encaixar" a economia em padrões de comportamento que geram rupturas e transições cíclicas? Não é a economia, segundo os teóricos da academia, o reino dos "equilíbrios"?

C.F. - A economia nunca tratou do "equilíbrio". A mudança é um facto simples da vida, por isso estamos sempre em "transição". São os advogados do equilíbrio estático que têm de explicar as suas ideias "reprovadas" pela realidade.

A análise histórica dos ciclos pode ajudar-nos a "prever" a marcha futura da economia?

C.F. - Não nos permite predizer. Mas dá-nos a possibilidade de imaginar novas tendências ou extrapolar tendências em curso. A predição nas ciências naturais funciona, mas nas ciências sociais não há possibilidade de certeza. Podemos falar de probabilidades - por exemplo, da taxa de difusão do telemóvel na China ou da taxa de desemprego na cidade de Nova Iorque em Dezembro deste ano, mas não se trata de predizer o futuro. Nós não controlamos as condições.

O acaso não desempenha o seu papel nas rupturas tecnológicas? Tipos desconhecidos, fora do "establishement" das multinacionais, fazem revoluções sem quase dar por isso, como a Web por um inglês no CERN, o "browser" por um desconhecido numa universidade no meio da América, o sistema que desafia a Microsoft, o Linux, por puro prazer por um estudante finlandês, ou o ainda mais recentemente o caso do Napster?

C.F. - Esses "pequenos" acontecimentos não estavam isolados. Foram parte de um ambiente de crescimento global das tecnologias de informação e telecomunicação.

Paul Romer falou da invenção do transístor em 1947 como um ponto de inflexão que abriu uma nova era e curiosamente naquele final dos anos 40 nasceu a doutrina do management pela pena de um jornalista, Drucker. Mais do que a massificação do automóvel ou o consumismo, o "heróis" das análises de W.W. Rostow, aqueles dois novos paradigmas não terão marcado o ciclo longo em que ainda vivemos?

C.F. - Há vários tipos de periodização. Alguns historiadores combinam o que nós designamos por 1º e 2º ciclos de Kondratief num só período, o da Revolução Industrial. No nosso livro, nós preferimos manter separados. O mesmo se passa com vagas mais recentes. A nossa abordagem baseia-se na ocorrência de vagas de nova tecnologia, enquanto que outros historiadores económicos usam outros critérios.

Alguns analistas começam a olhar a segunda vaga da biotecnologia em curso - com a genómica e a clonagem - como um novo ponto de inflexão, abrindo um quinto ciclo de Kondratief no horizonte. O que acha?

C.F. - Creio que poderá ser.

No final dos ciclos longos, nos períodos de transição para um novo ciclo, sucedem, em regra, recessões profundas e períodos de grande turbulência. Os optimistas têm reclamado que o actual ciclo fará uma "aterragem suave" e que passará adiante sem grande dor. Acha que sim?

C.F. - Não creio. No ano passado escrevi um artigo para o vol.12, número 2 (Julho 2001) da revista "Structural Change and Economic Dynamics", intitulado "A hard landing for the 'New Economy'?", explicando as razões porque a "aterragem" não será suave. E não vejo razões para mudar de opinião. Pelo contrário.

Ao fim destes anos todos, como avalia a contribuição de Joseph Schumpeter? Que "dívida" temos para com ele?

C.F. - No nosso livro fazemos uma avaliação do seu trabalho. Em poucas palavras direi que a sua vida esteve cheia de paradoxos. Ele era muito criativo, mas estava muito agarrado a Walras para destruir a teoria do equilíbrio walrasiana. No entanto, as suas ideias sobre a "destruição criativa" foram uma súmula brilhante do que acontece à economia durante uma revolução tecnológica.

MERGULHANDO NOS PAPEIS DE KONDRATIEF
Apesar de Nikolai Kondratief ter sido assassinado por ordens de Estáline há mais de 60 anos, a sua vida e obra continua a ser mal conhecida. No decurso da revolução russa de 1917, chegou a ser ministro no último governo democrático de Kerensky - antes da tomada de poder pelos bolcheviques liderados por Lenine - e, mais tarde, seria o fundador, em 1920, do Instituto de Conjuntura em Moscovo. Ele foi um apoiante da chamada Nova Política Económica defendida por Lenine antes de este morrer, mas a ascensão de Estáline levaria ao abandono dessa viragem estratégica. Em 1922 apresentaria pela primeira vez a sua teoria sobre os ciclos longos, mas em 1930 seria preso. Mesmo na cadeia continuaria o seu trabalho de investigação, tendo um plano para um conjunto de cinco obras. Ele nunca concluiria este trabalho, tendo sido executado em 1938 com apenas 46 anos. Apesar de preso e doente, foi dos economistas russos mais conhecidos e respeitados no estrangeiro, tendo sido eleito, ainda em vida, como um dos 25 fundadores da Sociedade Econométrica em 1933, onde ombreava com famosos como Keynes e Schumpeter.
Deveu-se a Schumpeter, e ao seu livro Business Cycles de 1939 a atenção dada à teoria dos ciclos longos, a que ficou definitivamente colado o nome de Kondratief. Mas o conhecimento do seu trabalho era muito rudimentar e muitas traduções feitas para inglês e alemão de um seu artigo de 1925 contrapondo as visões dinâmica e estática da economia eram inexactas. Só há três anos foram publicadas em Londres as suas obras completas em inglês (The Works of Nikolai D. Kondratiev, editado pela Pickering & Chatto, 1998), mas «alguns dos seus textos, nomeadamente um livro que escreveu na prisão ainda só existe em russo», refere Francisco Louçã, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, que "mergulhou" no estudo de Kondratief no decurso do seu trabalho de doutoramento e na preparação deste livro publicado com Christopher Freeman. O que mais surpreendeu Louçã foi «a notável prudência com que ele formulava as suas hipóteses de interpretação da evolução das economias».

The Works of Nikolai D. Kondratiev
Em usado (compra do livro)
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A visão histórica cíclica de uma economia capitalista que se transformava sem mergulhar no seu fim, dada implicitamente pelo estudo de Kondratief, não poderia agradar ao dogmatismo estalinista. «Uma das capacidades explicativas de Kondratief era o facto do capitalismo se basear em surtos de destruição criativa que através das crises faziam emergir uma nova forma de produção e de distribuição. Tem sido nessa capacidade de gerar a crise que se alimenta a longevidade do capitalismo», refere Louçã.
Kondratief teria identificado quatro "leis" empíricas: até 20 anos antes do começo de um novo ciclo longo ocorrem importantes mudanças na tecnologia, na circulação monetária e no papel desempenhado pelos países; as guerras e revoluções são mais intensas nos períodos de ascensão do ciclo longo; as depressões agrícolas são mais intensas no período de declínio do ciclo longo; e a recessão nos ciclos curtos económicos é mais intensa no período de declínio do ciclo longo.
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