Focalização excessiva mata!

É o aviso do polémico Nicholas Carr, que acaba de lançar a provocação em livro: As tecnologias de informação deixaram de dar vantagem competitiva. Uma conversa com o ex-editor da revista Harvard Business Review.

Jorge Nascimento Rodrigues, Junho de 2004, com Nicholas Carr

Sítio de Nicholas Carr | Entrevista integral com Nick Carr em inglês
Encomende o livro na Amazon.com - Does it matter? Information
Technology and the Corrosion of Competitive Advantage, Harvard Business School Press, 2004

Artigo de Ronald Coase de 1937 - The Nature of the Firm (Economica, nº4, Novembro 1937

O debate na Janelanaweb.com sobre a provocação de Carr
Revolução Digital: ainda no adro ou já "commodity"?
A revolta dos tecnólogos | Desafios do Século XXI

Uma especialização radical no negócio em que se está pode ser perigosa para a longevidade da sua empresa. "A focalização excessiva advogada pelos gurus das redes virtuais é perigosa e, graças ao bom senso dos gestores, está a ser rejeitada", afirmou-nos Nicholas Carr, um especialista americano que acaba de lançar um livro contra corrente intitulado Será que conta? A tecnologia de informação e a corrosão da vantagem competitiva. Uma obra que prossegue as teses de um artigo polémico que o autor publicou no ano passado na revista de gestão Harvard Business Review (com o título provocatório: "As TI não contam"), a que então nos referimos.

"Centrar-se exclusivamente no que se sabe fazer melhor e colocar tudo o resto em subcontratação é uma receita para minar as vantagens estratégicas que se detêm, as quais, regra geral, são baseadas num conjunto complexo de capacidades e competências", frisa o nosso interlocutor.

Seja prudente

Recorde-se que, na última década, os especialistas de gestão aconselharam vivamente a que cada firma se centrasse estritamente na sua especialidade e adjudicasse tudo o resto "fora". A globalização psicológica e geográfica deu um enorme empurrão nesta ideia e a plataforma comercial da Web e o surgimento de modelos de organização em rede fizeram o resto. O jornalista Frances Cairncross veio falar da "morte da distância" e o guru canadiano Don Tapscott das "web" de negócios. Assim se assistiu ao disparo do movimento de "outsourcing" produtivo (de partes da cadeia de valor de um dado produto anteriormente integradas verticalmente numa dada organização) e de "offshoring" de processos de negócio (historicamente realizados nos departamentos funcionais ligados à gestão).

"Centrar-se exclusivamente no que se sabe fazer melhor e colocar tudo o resto em subcontratação é uma receita para minar as vantagens estratégicas que se detêm, as quais, regra geral, são baseadas num conjunto complexo de capacidades e competências", diz Nick Carr.

Estes movimentos não são para deitar fora, adverte Nick Carr. Os seus excessos, quando motivados por utopias de gestão, é que matam. "Tais ideias só são perigosas quando mal interpretadas e mal aplicadas. O risco está em desatar a correr para se tornar exageradamente especializado", remata o ex-editor da revista Harvard Business Review. O conselho de Nick é simples: "Adopte uma postura prudente e eminentemente prática".

Reler o Nobel Coase

O autor desenvolve duas linhas de argumentação para nos convencer que o excesso mata. Uma não agrada aos vendedores de tecnologias de informação, e a outra é incómoda para os académicos e gurus que se deixaram levar pelas utopias do virtual.

A focalização extrema apoiou-se numa janela de oportunidade trazida pela revolução da computação e da web, que permitiu, nos últimos 50 anos, um ganho de vantagens competitivas a muitas empresas que souberam "cavalgar" esta onda das TI. Mas, argumenta Carr, esse tempo já lá vai. As TI estão hoje em vias de se tornarem uma "commodity", disponível para todos. A sua massificação está a "corroer a vantagem competitiva" (como alega o título do livro de Nick Carr) que outrora davam. Só um portefólio complexo e diversificado de capacidades internas pode dar hoje uma vantagem distintiva. E o problema é que este portefólio volta e meia tem de se recompor e reciclar - tem de ser mutável.

"O Nobel Ronald Coase referiu que tanto os custos de transacção externos, como os de coordenação internos se reduzem, pelo que as duas opções são de ponderar - integrar ou adjudicar", sublinha Nicholas Carr.

Por outro lado, a utopia recente do virtual baseou-se numa leitura apressada de um histórico da literatura económica, o Prémio Nobel de 1991 Ronald Coase, um inglês que nos anos 30 falou da redução do que os economistas chamam de "custos de transacção" por efeito das novas tecnologias de comunicação (na época, o telefone e o telégrafo). Os "virtualistas" falam hoje que tais custos voltaram a sofrer uma redução drástica pelo efeito da revolução da Web, tornando mais rentável adjudicar fora cada vez mais processos e actividades.

Só que Coase não disse só isso no célebre artigo de 1937 a que toda a gente se refere - um artigo intitulado "A Natureza da Firma" publicado na revista Economica (nº.4, Novembro 1937). "Ele referiu que tanto os custos de transacção externos, como os de coordenação internos se reduzem, pelo que as duas opções são de ponderar - integrar ou adjudicar", sublinha Nicholas Carr.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal