O QUE CATIVA OS 'DUROS' DA GESTÃO

Os gestores mais pragmáticos nas tomadas de decisão e mais 'conservadores' em relação às modas de gestão começam a deixar-se cativar por algumas das 'buzzwords' em voga. Dois 'surveys' distintos, realizados pela Ernst & Young e pela Bain & Co., revelam que a reengenharia e a qualidade total estão em queda acentuada na bolsa da moda e que o planeamento estratégico, a gestão de talentos e a utilização da última vaga das tecnologias de informação se encontram no topo das ideias favoritas

Jorge Nascimento Rodrigues

A Reengenharia e a Gestão pela Qualidade Total (TQM, no acrónimo em inglês) estão em perda acelerada de apoio por parte dos gestores, segundo dois estudos provenientes da Ernst & Young e da Bain & Co.

No topo das 'buzzwords' de gestão favoritas encontram-se agora o planeamento estratégico, a gestão de talentos, o posicionamento na Web e a gestão de intranets e redes, a definição da missão e da visão da empresa, a prospectiva de mercado, o 'benchmarking' (comparação com as melhores práticas das melhores empresas), o marketing de relacionamento com o cliente e as fusões, aquisições e alianças estratégicas.

Algumas 'noviças' têm feito a sua entrada mais recente para o final da lista de favoritas, como a gestão da cadeia de abastecimentos ('supply chain management', na designação americana), o pagamento aos empregados em função de critérios de 'performance', os ambientes de trabalho com novas preocupações (como a telecomutação, o teletrabalho e o design dos locais de trabalho) implicando uma reorientação estratégica dos investimentos imobiliários, a gestão do conhecimento ('knowledge management', na designação americana), a gestão da globalização e o ambiente.

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Mesmo entre os mais 'duros' da gestão, que se revelam pragmáticos nas decisões e conservadores em relação às modas, estas 'buzzwords' vêm conquistando terreno, segundo um estudo da Ernst & Young (E&Y) na base dos assinantes do seu serviço de consultoria na Web, baptizado de 'Ernie'.

Talentos fazem a diferença

Este 'sítio' da E&Y foi aberto em Maio de 1996 e permitiu ao fim de mais de um ano traçar um primeiro perfil das questões mais colocadas pelos seus assinantes, o que revelou algumas tendências de gestão, que passaram a ser publicadas num 'Trend Watch' anual.

«Os inscritos típicos do 'Ernie' são de áreas 'duras' da gestão, como a de direcção financeira. Por isso, naturalmente, as primeiras preocupações vão para questões de impostos e a contabilidade. Mas, logo, em segundo lugar vêm os Recursos Humanos. São as pessoas que fazem a diferença. Procurar, recrutar e manter o pessoal de talento é o que fará a diferença entre gerir para crescer, como agora se diz, ou ser engolido pela concorrência», refere-nos Nadia Leather, da E&Y.

TOP DAS PREOCUPAÇÕES
  • Recursos Humanos
  • Tecnologias de Informação, nomeadamente intranets e página na Web
  • Posicionamento no mercado, satisfação do cliente e prospectiva de tendências
  • Estratégia de fusões e aquisições, obtenção de capital de risco
  • Planeamento estratégico
  • Marketing de relacionamento, nomeadamente organização de 'call centers', 'help-desks'
    e pós-vendas
  • Gestão da cadeia de abastecimentos
  • Desenvolvimento dos produtos
  • Investimento imobiliário e novos ambientes de trabalho, nomeadamente telecomutação e  
    design interior de escritórios
  • Gestão do Conhecimento
  • Globalização
  • Ambiente
  • Obs: Exclui os temas de impostos e contabilidade   -   Fonte: Ernst & Young, consultas ao 'Ernie' on line

    Segundo Angie Keleman, consultora de Recursos Humanos da E&Y, as principais preocupações dos executivos nesta área de RH, colocadas através do 'Ernie', trazem à cabeça a gestao de talentos, o teletrabalho e a liderança e criatividade (ver quadro abaixo).

    TÓPICOS DE RECURSOS HUMANOS
  • Recrutamento e retenção de talentos
  • Telecomutação, teletrabalho e escritório virtual 
  • Liderança e criatividade
  • Critérios de performance individual
  • Conceitos de design organizacional

  • Na linha seguinte de preocupações apresentam-se as tecnologias de informação, e em particular as da última vaga - desenho, construção e manutenção de intranets (redes à semelhança da Internet mas internas às empresas), criação e gestão de páginas na World Wide Web, gestão de redes e bases de dados relacionais são algumas das questões mais colocadas. Palavras-chave como 'intranet' e 'posicionamento na Web' já não são apenas temas dos jornalistas da especialidade. Vulgarizaram-se entre os decisores das empresas.

    Planeamento estratégico, marketing de relacionamento com o cliente (em particular gestão de 'call centers', de 'help desks' e de sistemas de pós-venda junto do cliente), gestão da cadeia de abastecimentos, desenho de novos ambientes de trabalho, ponderação de investimentos imobiliários em função da telecomutação ou do teletrabalho, gestão do conhecimento (nomeadamente como organizar e automatizar as melhores práticas, que softwares adquirir e como licenciar o capital intelectual da empresa), globalização (programas de incentivos para expatriados, estratégias de 'joint-venture', fixação de preços em diferentes países) e conformidade com a legislação de ambiente surgem entre as preocupações seguintes.

    Segundo Nadia Leather, estas últimas preocupações, ainda menos votadas ao longo de 1997, poderão mostrar uma subida nos resultados do próximo 'Trend Watch' que sairá a público até final do ano.

    Perdedoras e favoritas

    Os resultados do estudo da E&Y revelaram que efectivamente a reengenharia e os programas de qualidade deixaram de estar entre as preocupações dos gestores que recorrem ao 'Ernie'. «A gestão virou-se claramente para outro lado», confirma Nadia Leather.

    O mesmo resultado pode ser verificado no último estudo da Bain & Co. sobre o uso e o grau de satisfação em relação a ferramentas e técnicas de gestão (anunciado em www.bain.com/thought.html, mas não disponível 'on line') por parte de um universo de mais de quatro mil inquiridos e mais de duzentas entrevistas em 15 países, que será divulgado em breve. (Um primeiro resumo foi apresentado na revista Fortune de 7 de Setembro de 1998, mas ainda não está disponível em www.pathfinder.com/fortune/).

    FAVORITOS DE 1997
    Temas 'Uso' Evolução no 'uso' 97/96  
     Planeamento estratégico 90% subiu
     Missão e Visão 87% manteve-se
     Benchmarking 86% subiu
     Satisfação do cliente 79% desceu
     Pagamento por 'performance'  78% subiu
     Alianças Estratégicas 68% desceu
     Competências centrais 67% desceu acentuadamente
     Reengenharia 64% desceu acentuadamente
     TQM 58% desceu acentuadamente
     Fonte: Bain & Co., Management Tools and Techniques, ainda não disponível 

    A reengenharia de Michael Hammer e o TQM (Gestão pela Qualidade Total) têm vindo a cair acentuadamente desde 1995 e encontram-se nas posições mais fracas de adesão entre os gestores. No caso da reengenharia há já muito mais descontentes do que adeptos, o que, em breve, também poderá ocorrer com o TQM. A teoria das 'competências nucleares' desenvolvida por Gary Hamel e C.K. Prahalad, que subiu de adesão até 1996, caiu também significativamente no ano passado.

    O planeamento estratégico vem à cabeça das 'buzzwords' favoritas, com 90 por cento das escolhas, e com o grau de satisfação mais elevado quando colocada em prática. Seguem-se a missão e a visão, o 'benchmarking', a medição da satisfação do cliente, o pagamento aos colaboradores em função da sua 'performance' e as alianças estratégicas. Esta última, aliás, é a que apanha a segunda melhor posição em termos de satisfação com a sua aplicação.