Sociologia quer entrar em força na gestão
da mudança

Tese de mestrado de Ricardo Fabrício Rodrigues em Sistemas Sócio-Organizacionais da Actividade Económica no Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, reacende a questão das limitações da abordagem típica do management e do papel da sociologia na gestão da mudança nas empresas.

Um comentário ao livro Organizações, Mudança e Capacidade de Gestão, por
Jorge Nascimento Rodrigues

Após uma década de influência ideológica e de cirurgia dolorosa no terreno por parte de práticas de gestão associadas à reengenharia, à modernização tecnológica e à concentração defensiva a todo o custo, descurando o 'lado humano' da empresa, assiste-se, hoje, a um crescendo de vozes críticas contra o caminho que o Management tem percorrido. Acresce algum cansaço com as receitas engendradas sucessivamente pela indústria dos gurus. As «buzzwords» outrora consumidas como pontos de inflexão ideológica começam a ser olhadas com desconfiança pelos práticos e pelos críticos de outras áreas que as acusam de ser «mecanismos de ganhar dinheiro no negócio de ven der palpites».

Ricardo FabrícioA par desta revolta, há um movimento de fundo de renascimento da sensibilidade 'humanista' na empresa, que tanto tem surgido do lado dos tecnólogos anti-tecnocráticos (como Don Norman, o «pai» do Movimento Pós-PC) como dos profissionais e académicos de formação nas áreas da psicologia e da sociologia. Em particular, estes últimos crêem que se tem reconhecido pouco a contribuição que a sociologia e os sociólogos podem dar para a compreensão e intervenção no processo de mudança nas organizações.

É esta entrada em força da sociologia na gestão da mudança (a questão principal do momento na vida das empresas) que é reclamada por Ricardo Fabrício Rodrigues na sua tese de mestrado em Sistemas Sócio-Organizacionais da Actividade Económica concluída no Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, que ele adaptou para livro com o título Organizações, Mudança e Capacidade de Gestão, agora publicado pela editora Principia (na Web em www.principia.pt). Para Ricardo Fabrício «a gestão e a sociologia não podem passar mais tempo de costas viradas». «A actividade sociológica nas organizações, como instrumento e agente auxiliar da gestão, é não só pertinente, mas também fulcral», afirma-nos o autor. Ele entende que a sociologia das organizações pode colmatar as principais «limitações» do management mais atreito a fórmulas mágicas, ao fascínio tecnocrático e ao simplismo.

Para Ricardo Fabrício «a mudança é um problema genuinamente sociológico». Não admirará, por isso, que «de uma forma geral, os conteúdos advogados pelas estratégias de gestão prestem uma atenção insuficiente a aspectos como as relações organização-meio, as relações formais, informais e as disfunções organizacionais, a reconstituição dos sistemas de aliança e de oposições e as próprias alternativas de mudança».

Em alternativa a «um certo discurso oficial sobre a mudança feito pelos gurus, verdadeiramente anestesiador», o nosso interlocutor advoga a adopção de «uma abordagem antropocêntrica», de ruptura com o tecnocratismo e o taylorismo. Para este consultor de 29 anos, fundador no Funchal da Humanar Consulting, esta óptica é «sinónimo de investimento na integração equilibrada de pessoas e tecnologias e dá importância fulcral, no terreno, a três vectores - as condições do local de trabalho, o trabalho em equipa e a integração em redes formais e informais de grupos». Valores organizacionais como a autonomia, o profissionalismo, a descentralização, a participação activa e a cooperação são referidos como os «eleitos».

O renascimento do primado socio-técnico

Esta corrente defende o retorno ao «primado socio-técnico» na gestão. A corrente socio-técnica nasceu com uma vaga de heréticos que durante os anos 50 a 70 ganhou uma força ideológica muito significativa liderando o que se viria a baptizar de 'Escola das Relações Humanas'.

 Leia aqui a história desta vaga de heréticos na narração de Art Kleiner 
no seu livro The Age of Heretics e o seu enquadramento
na história da gestão deste século

 Algumas datas significativas da corrente dos heréticos 

Os primeiros trabalhos desta corrente surgiram associados a um nome grande do final dos anos 40 - Eric Trist. Trist foi um dos fundadores em 1947 do Tavistock Institute for Social Research (hoje na Web em www.tavinstitute.org), em Londres, e que depois viria a influenciar uma corrente norte-americana em que se destacariam Kurt Lewin, Abraham Maslow, Chris Argyris e Douglas McGregor (este último autor de um livro emblemático em 1960, intitulado sugestivamente The Human Side of the Enterprise), entre outros.

Trist escreveu com Ken Bamforth um artigo seminal em 1951 na revista «Human Relations» (hoje na Web em www.tavinstitute.org/hrindex.htm) editada pelo Instituto Tavistock, com base no seu estudo das implicações socio-psicológicas do trabalho numa mina de carvão do Sul de Yorkshire, na Inglaterra. Mais tarde, com a entrada em 1958 de Frederic Emery para o Instituto, viriam a encabeçar uma corrente que se baptizaria de «socio-técnica». As primeiras experiências fabris de aplicação dos conceitos ocorreriam, nos Estados Unidos, quase em segredo, no final dos anos 60 e nos anos 70. A Procter & Gamble foi o primeiro piloto de «fábrica socio-técnica».


Obras de Referência de Eric Trist:

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