Europa mais inteligente

Cresce o número de cidades do Velho Continente classificadas como líderes na economia da banda larga e na sociedade do conhecimento.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, no ICF, em Brooklyn, NYC, Maio 2007

Reportagens anteriores:
ICF de 2005 | ICF de 2006

As cidades médias europeias que apostaram continuadamente na difusão das novas tecnologias na última década começaram a ser reconhecidas internacionalmente. Nas 21 "smart cities" escolhidas este ano pelo Intelligent Community Forum (ICF), sete eram europeias, e entre as sete candidatas finais ao pódio de cidade mais "inteligente" do mundo de 2007, quatro vieram do Reino Unido, França e Estónia.

Apesar da liderança mais mediatizada de países como a Coreia do Sul, Canadá, Japão e Estados Unidos na penetração e no marketing da economia baseada na banda larga, os países nórdicos, o Reino Unido e a França posicionam-se no "top 10" mundial e têm visto algumas das suas cidades médias mais dinâmicas ganhar o estatuto de "cidades inteligentes".

O aspecto curioso é que são cidades médias europeias (com menos de 300 mil habitantes) profundamente afectadas pela desindustrialização e o desemprego estrutural nas décadas de 1970 a 1990 ou capitais de pequenos países da União Europeia que têm visto o trabalho da sua gestão autárquica reconhecido por organismos independentes, como é o caso do ICF, sediado em Nova Iorque.

Os ingredientes principais

Apesar de ter sido a cidade de Waterloo - o berço do Blackberry (um aparelho de mão, sem fios, para ver o correio electrónico, muito em voga entre os profissionais de grande mobilidade) e de 20% de todas as "start-ups" de alta tecnologia criadas no Canadá -, a ganhar, este ano, a coroa de mais inteligente do mundo, teve por companhia quatro "damas de honor" do Velho Continente. As escolhidas foram: Dundee, da Escócia, a antiga "capital" da juta e onde nasceu a marmelada no século XVIII; Sunderland, um velho centro mineiro e porto de construção naval em Inglaterra, perto de Newcastle; Issy-les-Moulineaux, da antiga cintura industrial de Paris e que reclama ter sido o berço da aviação; e Talin, capital da Estónia, que, desde o corte com o império soviético em 1991, desenvolveu um arrojado "salto de tigre" (designação da estratégia lançada em 1995) sob a ideia de criar uma economia do conhecimento mesmo com baixo poder de compra (o "per capita" estoniano é 40% da média da antiga União Europeia a 15).

Entre as 21 "smart cities" seleccionadas este ano acrescentem-se, oriundas da Europa, Karlskrona, no sul da Suécia, considerada um exemplo interessante de "Living Lab" (é uma cidade de testes da Vodafone) que chegou a ter 25% de desempregados, Reykjavik, capital da Islândia, e a pequena Ilha de Man (entre a Inglaterra e a Irlanda). Refira-se, ainda, que, nos estudos de caso (cidades com potencial) apresentados este ano no Forum que decorreu no Politécnico de Brooklyn, em Nova Iorque, há que destacar Vasteras (a uma hora de Estocolmo), que criou na Web o conceito de "community commons" (hoje multiplicado em mais de 200 cidades suecas), e Guimarães, a cidade-berço de Portugal no século XI, património da Humanidade segundo a UNESCO e que será capital europeia da Cultura em 2012.

Os auditores independentes das candidaturas e a equipa dirigente do ICF "descobriram" nos casos seleccionados este ano quatro ingredientes principais: uma forte liderança autárquica (desde Brenda Halloran, a carismática Mayor de Waterloo, que se ri quando alcunham a sua cidade como o reino dos "thinkers and drinkers", até ao "dinossauro" francês, Andre Santini, presidente de Issy-les-Moulineaux desde 1980); uma estratégia continuada, sem interregnos, na promoção das novas tecnologias desde os anos 1990 (sucessivos "planos", por etapas, que foram sendo concretizados, com o enfoque mais recente na massificação da banda larga); o uso das universidades como alavanca de mudança da especialização económica e da demografia destas cidades (atracção do que hoje se chama de talentos e gente criativa); e a criação de organismos de parceria público-privada, com a inclusão de líderes e activistas locais, numa base de voluntariado e paixão, para levar a cabo a estratégia.

Critérios "inteligentes"

· Difusão significativa da banda larga no mundo empresarial, residencial e da administração pública; as autarquias devem ser catalisadores das vontades locais e "montras" de inovação
· As competências da população é que contam, não os recursos físicos; desenvolver um segmento influente de trabalhadores do conhecimento e dar importância ao "soft" (projectar imagem cultural e de saber)
· Promover a inclusão digital, de modo a que todos os cidadãos tenham acesso às ferramentas da economia da banda larga
· O que conta é a capacidade de inovação e de adaptação; a boa localização ou os pergaminhos da história já não chegam
· Desenvolver uma forte estratégia de marketing territorial
· Criar uma cidade aberta, apostada no cosmopolitismo e na globalização
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