Europa contra o 'défice' empreendedor
Um naipe de soluções

Jorge Nascimento Rodrigues
Publicado no Caderno Especial do PEDIP sobre Empreendedorismo em Janeiro 1999

Um dos paradoxos europeus 'descobertos' recentemente revela que o impacto das empresas de base tecnológica na renovação do tecido industrial europeu é muito mais fraco do que nos Estados Unidos, apesar do bom nível de publicações científicas no nosso continente e do franco crescimento das exportações provenientes dessas empresas. Histórias de sucesso vindas da nova economia norte-americana, que já afirmou novas marcas mundiais nos últimos vinte anos, não têm ainda paralelo no nosso continente.

A preocupação com este 'défice' de empreendedorismo e renovação do tecido económico tem levado a União Europeia a debater o problema da inovação e do apoio aos empreendedores.

Um Livro Verde sobre a Inovação publicado em 1995 referia que a Europa revela três grandes obstáculos: uma boa produção científica que não se reflecte suficientemente em patentes e novas empresas de base tecnológica; um enquadramento legislativo desfavorável (custo das patentes, tempo para montar um negócio, problemas com a propriedade intelectual); e dificuldades de financiamento da inovação e dos empreendedores.

Mais tarde, um primeiro Plano de Acção foi adoptado em 1996 e referia três 'remédios' para o défice de inovação e de empreendedorismo: fomento de uma cultura europeia de inovação; estabelecimento de um enquadramento legal facilitador da inovação e do acesso a fundos; melhoria da relação entre investigação e inovação.

Revolucionar o financiamento

A questão muito sensível do financiamento tem sido amplamente discutida. A Europa tem debatido um conjunto de medidas que se centram em cinco orientações:

  • O incentivo ao capital privado investir directamente em projectos inovadores na fase de 'start up' e em empresas de alto crescimento e em sectores emergentes, nomeadamente através do capital de risco e da figura de 'business angels';
  • O lançamento de novos mercados de capital na Europa para empresas de alto crescimento e em sectores emergentes, nomeadamente a criação recente do EASDAQ, um mercado semelhante ao NASDAQ norte-americano;
  • A criação de um fundo europeu de capital de risco denominado I-TEC virado para a aplicação deste tipo de capitais nas fases de desenvolvimento inicial de pequenas empresas inovadoras, fruto de uma parceria entre a Comissão Europeia e o Fundo Europeu de Investimento;
  • Facilitação de fundos europeus para a criação de empregos em novas pequenas e médias empresas;
  • Lançamento de um sistema de apoio à criação de 'joint-ventures' transnacionais envolvendo PME inovadoras de diferentes estados membros.
  • As melhores práticas
    A Comissão Europeia tem procurado, também, pôr em contacto e sistematizar as melhores experiências europeias no campo do fomento da inovação e do empreendedorismo. As 'melhores práticas' têm sido divulgadas em encontros europeus e centram-se em diversas linhas de desenvolvimento:
  • Recrutamento e fixação de quadros em novas empresas inovadoras, permitindo opções de participação no capital delas, bem como esquemas de partilha de quadros entre diversas PME;
  • Incentivo ao papel dos 'séniores', nomeadamente quadros reformados, no sentido do 'apadrinhamento' de novas empresas e de empreendedores (criação de grupos de 'reservistas económicos');
  • Transferência de tecnologia da universidade para novas empresas em modalidades flexíveis, que permitam a empreendedores explorarem as inovações de outros, sem que os investigadores-criadores tenham de estar envolvidos directamente no negócio, mas podendo aconselhar e participar no próprio capital;
  • Fomento de 'spin offs' por grandes empresas privadas, como é o caso da Small Business Unit do grupo Shell;
  • Fomento de 'spin offs' por entidades públicas, como sucede com a Comissão Francesa de Energia Atómica que promove o empreendedorismo e a criação de novas empresas entre o seu staff;
  • Fomento de MBO (Management buy-out) e MBI (Management buy-in) junto de quadros empreendedores dentro das empresas e grupos facilitando a reestruturação, a sucessão ou a entrada em novos negócios;
  • Fomento de 'spin offs' a partir de Universidades e escolas de ensino superior e técnico;
  • Incentivo à afirmação de 'intra-empreendedores' em modelos de grupos europeus organizados como confederações de unidades de negócio autónomas, como sucede na Asia Brown Boveri e na Bristish Petroleum; para alguns analistas tratam-se já de grupos que são verdadeiras 'federações' de empreendedores abrigados debaixo de uma marca multinacional comum;
  • Destaque para o papel dos tecnopólos e parques de ciência na aglomeração de 'clusters' de empresas inovadoras e de empreendedores;
  • Incentivo às redes de capital de risco e de 'business angels';
  • Criação de Fundos Mutualistas, como sucede em cooperativas italianas que aplicam 3% dos seus lucros num Fundo para investimento em novos projectos;
  • Definição de políticas públicas de compras favoráveis a novas empresas inovadoras;
  • Definição de políticas de compras de grandes empresas favoráveis a novas empresas inovadoras;
  • Criação de um Clube Europeu de Empresas inovadoras de alto crescimento.
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