O regresso às origens na Ernst & Young

Depois da venda em Maio de 2000 da área de consultoria em tecnologias
de informação à Cap Gemini, a Ernst & Young refocaliza-se no seu negócio histórico da auditoria, mas sobe a oferta na cadeia de valor. O passo dado será, muito provavelmente, «imitado» pelas outras grandes multinacionais
do sector

Ideia-chave em discurso directo do Presidente da E&Y
«A auditoria clássica transformou-se radicalmente. Hoje fazemos aconselhamento num número cada vez maior de áreas críticas para o negócio dos nossos clientes, como gestão de risco, gestão da fiscalidade à escala mundial, impacto da globalização e da Nova Economia no campo dos impostos, auditoria interna, apoio a fusões e aquisições», diz Philip Laskawy, presidente da Ernst & Young internacional, de passagem por Lisboa

Jorge Nascimento Rodrigues com Philip Laskawy em Lisboa

Versão adaptada publicada no semanário português Expresso

Site muito recomendado
 Ernst & Young OnLine a partir da Austrália 

A palavra de ordem nas grandes multinacionais da auditoria vai ser regresso às origens, reposicionamento estratégico no seu negócio histórico.

O primeiro passo neste sentido foi dado abertamente pela Ernst & Young, que depois da venda em Maio de 2000 da sua área de consultoria à Cap Gemini, se refocalizou na auditoria. «O posicionamento anterior já não fazia mais sentido. Era indispensável operar uma transição. As outras ‘big’ chegarão à mesma conclusão», afirma-nos Philip Laskawy, presidente da Ernst & Young mundial, numa passagem rápida por Lisboa.

O caminho iniciado pela E&Y será provavelmente «imitado», a maior ou menor prazo, pelas outras «big» da auditoria. São conhecidas as diligências da KPMG e da PricewaterhouseCoopers para a venda directa ou através de Bolsa dos seus segmentos de consultoria em tecnologias de informação. As negociações da PWC com a Hewlett Packard chegaram ao noivado, mas a «correcção» das Bolsas - a que alguns já chamam de «crash» - adiou o casamento. A Cisco Systems, por seu lado, já adquiriu uma percentagem na KPMG.

Depois de um período mais recente de fusões muito «quente» - com a junção da Price com a Coopers e a tentativa, falhada, de casamento entre a própria E&Y e a KPMG - em que se procurou ganhar massa crítica unindo grandes com grandes procurando aumentar a quota no mercado global, as grandes da auditoria verificaram que o contexto do negócio tinha mudado «estruturalmente».

O preço da Terceira Vaga - o contexto do negócio mudou estruturalmente

Olhando o processo do ponto de vista histórico, «a consultoria foi um segmento pequeno do negócio até final dos anos 80», começa por referir o presidente da E&Y. Mas com a aceleração da Terceira Vaga - e nomeadamente com o crescimento das necessidades dos clientes em tecnologias de informação e depois com a emergência da Economia Digital -, as multinacionais da auditoria «aproveitaram a oportunidade e posicionaram-se no terreno», frisa o nosso interlocutor. O sucesso do segmento chegou a deter uma fatia de 25 a 30% da facturação anual, por exemplo no caso da E&Y.

Mas a oportunidade da Nova Economia teve o seu preço. «O panorama da consultoria alterou-se significativamente neste final de século», refere Laskawy. O contexto trouxe novas realidades, algumas delas «lógicas» e outras inesperadas.

O conflito de interesses entre a auditoria e a consultoria ficou mais transparente e a entidade reguladora nos Estados Unidos apertou a malha. Por outro lado, a consultoria nas novas áreas exigia cada vez mais capital e uma integração cada vez maior com os clientes – dois imperativos dificeis para o tipo de estrutura e de actividade das auditoras. «Para se ser competitivo nesta área é preciso muito capital e o tipo de ‘partnership’ que somos limita-nos nesse campo. Além disso, a consultoria exige a entrada em alianças e ‘joint-ventures’ com clientes e isso é incómodo para a auditoria», esclarece o responsável máximo da multinacional desde há cinco anos.

Finalmente, sem pré aviso, surgiram fortes concorrentes na área da consultoria de tecnologias de informação, como a IBM, a Cap Gemini e a Computer Associates, por exemplo.

A «saída» para a E&Y foi a venda à Cap Gemini daquele segmento através de uma tomada de participação transitória (começou pelos 35%, já baixou para os 20% e diminuirá progressivamente) na nova entidade Cap Gemini Ernst & Young (que utilizará esta designação durante mais quatro anos).

Subida na cadeia de valor - aumento da oferta de aconselhamento
ao cliente

O complemento da refocalização nas origens é a subida na cadeia de valor de oferta de serviços aos clientes.

Da «guerra» pela quota de mercado global, a E&Y ensaia a luta pelo aumento da quota em cada cliente: «A auditoria clássica transformou-se. Passou a ser mais aconselhamento. Os clientes têm cada vez mais necessidades em áreas críticas, como a gestão do risco, as auditorias internas, a gestão da fiscalidade à escala global, o impacto da Nova Economia nos impostos, etc.. São segmentos em que o crescimento do nosso negócio é já muito significativo», explica Laskawy.

Por exemplo, referindo um tema em foco hoje em dia - a da transferência de preços em multinacionais, que permite uma optimização da gestão fiscal -, o crescimento do aconselhamento nesta área em Portugal é da ordem dos 30%, segundo Maria Teresa Cochito, a ‘partner’ que gere a E&Y no nosso país.

Philip Laskawy estará, no final deste mês, em Davos, pela quarta vez neste forum da classe dirigente mundial. Apesar de ser um «optimista» por natureza, o seu «estado de espírito varia, depende do dia», com alguma «volatilidade» como o NASDAQ, ironiza. Apesar da «correcção» naquele bolsa mediática norte-americana, ele considera que a Nova Economia «veio para ficar». «É uma mudança irreversível. Há uma Nova Economia, de facto. O que estamos a assistir é a uma correcção saudável. As oportunidades existem tanto para as novas como para as ‘velhas’ empresas. No híbrido pode estar o segredo», sublinha.

Os problemas mundiais não são tranquilizantes e o presidente da E&Y acha indispensável «lidar com o problema da sociedade global e fazer compromissos culturais e sociais à escala mundial».

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal