Um segredo irlandês

Depois de dezassete anos nos Estados Unidos, caiu de amores por Portugal, onde pretende evangelizar um "management" americano de rosto humano.
O ingrediente é sabedoria táctica e total simbiose com o ambiente do cliente.

Jorge Nascimento Rodrigues

Site da Erindale | Um case study

Saiu ainda jovem da Universidade de Dublin e da aldeia entre montanhas e borregos na Irlanda natal para passar 17 anos nos Estados Unidos. Mas no princípio dos anos 80 deu-lhe "a saudade europeia" e a oportunidade estava onde ele menos esperaria. Um projecto de consultoria em 1987 trouxe-o de Washington DC para a Melka, no Cacém. Inesperadamente desembarcava em Portugal, onde a caminho dos 40 anos, se encantou por Ana Isabel, pelo sol, pela gastronomia...e pelo multibanco, algo que ele nunca encontrara, naqueles anos, na terra da alta-tecnologia além Atlântico.

Assim começou a viagem portuguesa do irlandês Peter Thomas McGibney e da Erindale, a empresa de consultoria sediada na área de Lisboa, que viria a criar no princípio dos anos 90. Mais tarde transformar-se-ia em sociedade anónima e adoptaria o nome de Concept Erindale, que deverá findar este ano com uma facturação de meio milhão de contos e um portfólio muito diversificado de clientes, desde multinacionais a grupos portugueses e empresas familiares (como é o caso do case study da J.S. Correia, que abordamos noutro artigo).

A regra dos 80-20

«Decidi fazer alguma coisa por mim próprio e arranquei com esta actividade de consultoria pessoal. A minha ambição era pôr em prática um management de estilo americano mas de rosto humano», diz Tom McGibney, usando uma expressão de recorte político que já serviu para tentativas de "suavização" do socialismo de Estado no Leste europeu no final dos anos 60. A experiência americana marcou-o profundamente, «mas foi muito intensa e desgastante, mesmo com 'hobbies' agradáveis», confessa.

Os Estados Unidos são quase como uma segunda casa dos irlandeses: «Um irlandês pode ter facilmente sucesso ali. Eles gostam imenso de nós. Há uns 80 milhões de americanos com ascendência nessa ilha atlântica. O meu 'boss' não queria que eu regressasse, mas a saudade foi mais forte», replica num português com sotaque irlandês.

O segredo da actividade de Tom e da equipa que entretanto juntou em Lisboa resume-se numa máxima que ele não se cansa de repetir: «O trabalho de consultoria é 80% táctico e 20% realmente técnico». A célebre regra dos 80-20 é hoje usada nos catecismos de "management" para as mais diversas aplicações, mas Tom "moldou-a" num sentido especial - a consultoria é uma arte de grande capacidade de manobra e de envolvimento com o cliente.

Diz Tom: «Na consultoria de gestão, a parte táctica é fundamental. Ou seja, implica uma total simbiose com o cliente, trabalhar não só com a direcção do topo, mas com o pessoal do terreno e com as importantes chefias intermédias. Nós não nos limitamos a entregar-lhe um relatório ou em querer ir 'ensinar' o cliente. Muita gente compra consultoria para descansar. Os consultores que façam então o trabalho, pensam. Mas isto é totalmente errado! Nós criamos sempre uma equipa mista».

E o trabalho em profundidade no ambiente do cliente, quer se trate de uma grande ou de uma pequena empresa, gera sempre surpresas: «Muitas das alterações de processos, que se revelam depois fundamentais, são sugeridas pelos próprios no terreno. Pequenas mudanças, à primeira vista insignificantes, fazem disparar a produtividade e aceleram os processos de mudança nas organizações», conclui.

Mr. Fantástico

Hoje com 52 anos, Tom não se enamorou apenas pela trilogia de que falámos acima (uma portuguesa, o sol e a comida). Descobriu, também, uma "reserva estratégica" dos portugueses. «Há claras vantagens de basear o trabalho aqui, pois os portugueses são em muitas coisas parecidos com os irlandeses, e têm uma virtude muito grande, a de serem altamente flexíveis, em línguas e adaptação cultural. Para quem desenvolva um trabalho de consultoria fora de fronteiras, essa vantagem portuguesa é enorme», refere.

Contudo, logo, descobriu, também, os "mas" da alma portuguesa. Para qualquer irlandês que hoje pode constatar que, em algumas gerações, o seu país saiu da crueldade do domínio inglês durante séculos, condenado à emigração e ao subdesenvolvimento, para um "take off" que levaria a parte sul da Ilha Esmeralda a ultrapassar em competitividade o vizinho britânico, «a falta de confiança dos portugueses deixa-me perplexo, face à grandeza da sua História», comenta Tom McGibney, que prossegue: «Nós irlandeses temos um pensamento positivo. Aqui chamam-me o 'Mr. Fantástico', mas eu acho que a vossa nova geração já é menos pessimista». A esta falta de confiança junta-se a dificuldade do trabalho em equipa. «Tradicionalmente, os portugueses são muito de 'quintinhas', contudo há uma revolução cultural que está em marcha nas organizações», refere, uma vez mais, com o seu proverbial optimismo.

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