Leif Edvinsson, guru sueco do capital intelectual em Lisboa
(a 25 Setembro 2000)

«Há o risco de uma guerra por talentos»

Jorge Nascimento Rodrigues com Leif Edvinsson

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Entrevista anterior a Leif Edvinsson publicada na revista Executive Digest
Review do Livro Intellectual Capital
Dicionário do Capital Intelectual (Words of Value, um projecto da Skandia
com a Ericsson Business Consulting

Links úteis | À procura do que não se "toca"

Leif Edvinsson Nos tempos que correm a renovação do saber individual e colectivo de uma empresa tem um ritmo três vezes mais "paranóico" do que o descoberto por Gordon Moore, o fundador da Intel, para o crescimento dos transístores nos "chips", o ingrediente número um da revolução da informação dos últimos 50 anos. De meio em meio ano, fica-se obsoleto, alerta o sueco Leif Edvinsson, considerado o "pai" da contabilidade empresarial sobre o capital intelectual, que vem a Portugal a convite do Instituto de Soldadura e Qualidade proferir uma conferência no próximo dia 25 de Setembro de 2000 nas instalações daquela instituição no Taguspark, em Oeiras. Outra acha para a fogueira que ele deita: está a emergir uma guerra pelos talentos.

Leif convenceu em 1993 uma empresa de seguros sueca - do grupo Skandia - a publicar um relatório pioneiro, à escala mundial, sobre o capital intelectual. Acabou por ser "descoberto" pela revista Fortune no ano seguinte, escreveu com Michael Malone um livro muito aclamado em 1997 (precisamente com o título Capital Intelectual - compra do livro) e no ano passado foi premiado com o "Cérebro do Ano" (na foto) pela fundação inglesa Brain Trust, tendo "vencido" outras duas candidaturas de peso - a de Bill Gates e Paul McCartney.

A mensagem que venceu é que a avaliação do valor das competências da empresa e de outros intangíveis (como as marcas, a propriedade intelectual, o grau de fidelização dos clientes, a aprendizagem organizacional, a "militância" dos empregados, mesmo as citações em artigos científicos em certas áreas hoje emergentes) é mais importante do que o histórico financeiro e tem de passar a figurar no "painel de controlo" de gestão.

A experiência adquirida levou-o a criar uma empresa, a UNIC - Universal Networking Intellectual Capital, que como o próprio nome indica se dedica à criação de uma rede de alianças e de colaboração em torno do tema do capital intelectual, prestando serviços de consultadoria junto de empresas e países. Mais, recentemente, criou um portal na Web como espaço virtual em www.unic.net.

Com 54 anos (em 2000), considera-se um "nómada global do saber", e está a preparar o lançamento de um livro para o princípio do próximo ano (2001) com o título sugestivo de "A Bússola do Cérebro" (Brain Compass), que ele garantiu ser uma ferramenta tão importante como o foi a bússola para a navegação dos mares de Quinhentos em que os portugueses deram cartas.


O capital intelectual foi mais uma moda dos anos 90, como a reengenharia, ou sobreviveu ao terramoto trazido pela Web, está de boa saúde e recomenda-se?

LEIF EDVINSSON - Vejamos o problema numa perspectiva histórica. O primeiro sinal de uma mudança profunda deu-se com o abandono do padrão ouro nos anos 70. Vinte anos depois "descobre-se" que os Estados Unidos passaram a investir mais em intangíveis - como investigação & desenvolvimento, educação em competências, software - do que em tangíveis. Com a emergência da Web e o novo tecido económico que se criou, então, o disparo do valor dos intangíveis foi jamais visto - foram 1600 mil milhões de dólares que se geraram em capitalização de mercado. O que se chamou a "bolha" na valorização do capital é o sintoma mais recente dessa afirmação do capital intelectual.

Então, também, partilha a ideia de que a "bolha" bolsista não é um puro ciclo de especulação?

L.E. - Já reparou na I&D, nas competências e na aprendizagem que estão por detrás dessa dita bolha? Isso não é uma "bolha", mas uma equação simplesmente diferente em que 1 + 1 dá 11 e não 2. A subtracção dá 9. A diferença é saber.

Mas que objectividade existe na avaliação do valor em termos de conhecimento numa dada empresa?

L.E. - A questão central não é o conhecimento de per si. Mas sim as relações e a rede em torno dele. Mais importante do que a gestão do conhecimento é a navegação no conhecimento - "navegação" é um termo de Quinhentos a que a vossa Escola de Sagres esteve ligada. A ideia do saber enquanto 'know-how' é puramente livresca. Mais importante é o 'know who' que é uma abordagem mais 'biológica'. Isto é uma outra mudança no modo de pensar.

Mas em que é que se traduz essa "navegação" no conhecimento?

L.E. - Na tomada em conta do seguinte - o problema central das nossas economias hoje em dia é o aumento da produtividade do trabalhador do saber, o que tem a ver com a sua capacidade de renovar o conhecimento. A necessidade dessa renovação é imposta por uma "lei" de obsoletismo ainda mais drástica do que a conhecida "lei" de Moore nas tecnologias de informação - que fala de uma duplicação no número de transístores num "chip" de ano e meio em ano e meio, com tudo o que isso implica. Para o saber, a renovação tem de ser feita de 6 em 6 meses! É uma cadência três vezes superior à "lei" criada por Gordon Moore, o fundador da Intel em 1968.

Isso cria uma pressão pessoal ainda mais "paranóica" do que aquela de que se queixava Andy Grove, também da Intel...

L.E. - E muito forte em termos dos próprios países. Nós estamos à beira de uma guerra de talentos.

Guerra de talentos?

L.E. - Sim, já é bem visível. Junte os ingredientes do que se está a passar: falta de gente qualificada e um problema demográfico gravíssimo, nomeadamente na Europa com o envelhecimento da população que abandona o trabalho e a falta de rejuvenescimento adequado do mercado de trabalho.

E como é que vamos sobreviver a ela?

L.E. - Sabendo quem são, onde estão e como pôr a trabalhar os talentos. E isso exige criar atractividade social, que é mais importante do que a competitividade.

O talento vai dominar o poder das nações? Caminhamos para uma meritocracia?

L.E. - Olhemos para a história: primeiro eram os reis e a Igreja; depois vieram os barões industriais e os financeiros; e agora chegou a vez das pessoa com conhecimento. Isso vai alterar a estrutura do poder, naturalmente.

A avaliação do capital intelectual de um país tem sido um dos desafios a que tem estado ligado. Em que estudos mais recentes esteve envolvido?

L.E. - Trabalhámos com o governo sueco e com Israel. Ultimamente temos estado a trabalhar com o projecto da chamada Swedish Mobile Alley em Estocolmo.

Será que a clássica análise de Michael Porter sobre a competitividade das nações ainda serve para alguma coisa?

L.E. - Repare, nos últimos 20 anos, movemo-nos rapidamente do peso dominante da indústria no PNB para o serviços e ultimamente para o intangível. Temos de desenvolver, por isso, outro modelo de análise da cadeia de valor. Os processos típicos da cadeia de valor industrial já não dominam a criação de valor. Não podemos tratar o software como um computador. A criação de valor vai dar-se pela modelação de novas ideias, pela troca de informação globalmente e pela interacção através de redes, com uma rapidez organizacional muito elevada.

Uma das actividades que resultou da sua experiência de visualização e valorização do capital intelectual na empresa sueca Skandia foi a criação dos modelos de "Centros do Futuro", de que o primeiro foi criado há quatro anos. O modelo tornou-se, depois, um negócio, inclusive para fora da Suécia. Que projectos tem em curso através da UNIC (Universal Networking Intellectual Capital AB), a empresa que criou para essa difusão?

L.E. - A ideia tem sido criar "clusters" locais de grupos de investidores que pretendem lançar "centros do futuro" como laboratórios para a organização do capital intelectual. A nossa ideia dos "centros" é ir para além da conectividade entre as pessoas - para isso criámos o conceito de "contactividade", que não é uma "nuance" semântica, é um ambiente para a acção. Para além da Skandia, desenvolveram-se centros na ABB e na Telia. Temos projectos desenvolvidos na Noruega, na Dinamarca e em Israel. Outros casos como Escócia, Singapura, Japão e Brasil, também, estão na calha.

Que outras actividades desenvolve a UNIC?

L.E. - Criámos outras empresas "satélite", como a Future Centers International para o negócio dos "centros" de que acabámos de falar e a NICE - New Intellectual Capital and E-solutions, em que estamos a trabalhar numa área nova - a automatização do conhecimento (tal como houve a automatização industrial).

À procura do que não se "toca"
Obviamente não se trata de cimento, nem metal, nem plástico. Não se "toca", nem se "vê" com os instrumentos financeiros que nos habituámos a usar.
Nos últimos 50 anos com a chamada Revolução da Informação, e ainda mais com a próxima vaga em torno da biotecnologia e dos novos materiais, a fonte de valor dos produtos como um computador, um produto de marca de consumo, um telefone celular, um medicamento ou uma base de dados genómica mudou do conteúdo físico para o conteúdo em saber incorporado.
Uma parcela cada vez maior de riqueza - a nível empresarial e nacional - advém de "activos" como patentes e tecnologia "em progresso" (ainda em laboratório), direitos de "copyright", marcas, capital humano e organizacional, "goodwill", satisfação dos clientes e fidelização, movimentos de "fãs" em torno de marcas e o grau com que os empregados "vestem a camisola".
Baruch Lev O investimento empresarial em "intangíveis" (o modo como se passaram a designar estas "coisas" económicas que não se "tocam") cresceu substancialmente mais rápido do que em tangíveis nas economias desenvolvidas. Segundo estudos de Baruch Lev, director do Vincent Ross Institute of Accounting Research da Universidade de Nova Iorque, a mudança foi radical nos últimos 70 anos. Em 1929, os Estados Unidos concentravam o seu investimento, na ordem dos 70%, em tangíveis; em 1990, o padrão inverteu-se: essa percentagem destina-se aos intangíveis.
Em média, mais de 10% do PNB nos países da OCDE tem a ver com o "intangível", e em pequenos países de ponta como a Suécia chega a atingir a casa dos 20%.
Contudo, as tradicionais ferramentas de contabilidade - quer as usadas dentro das empresas, como as dedicadas às contas nacionais - pouco captam desta nova realidade. Esses sistemas de contabilidade foram criados para as economias industriais, em que a riqueza estava, em grande medida, na propriedade, no edifício e no equipamento.
Mas esses sistemas baseados nos custos dos tangíveis estão a tornar-se inúteis - menos de metade, ou mesmo menos de 1/3 em certos casos, do valor de mercado de muitas empresas deriva dos activos clássicos.
Um dos resultados daquela inversão no investimento foi a alteração da relação entre a valorização de mercado e o valor contabilístico, ainda segundo Baruch Lev, que, em Agosto passado (2000), foi condecorado pela Associação Americana de Contabilidade pelo seu contributo para a "medição" dos intangíveis.
Sendo praticamente igual nos anos 70, a capitalização de mercado triplicou em relação ao valor contabilístico no princípio dos anos 90 e sextuplicou ultimamente no que se refere às 500 empresas do índice S&P. Trocado por miúdos - cinco em cada seis dólares de capitalização de mercado não são "captados" pelas rubricas da contabilidade e não derivam daquilo que é considerado oficialmente fonte de riqueza. Foi esta diferença crescente entre a capitalização de mercado e o valor patrimonial que o Prémio Nobel James Tubin baptizou de "capital intelectual".

LINKS ÚTEIS:

  • UNIC, um portal dirigido por Leif Edvinsson
  • The Intangible Research Project, no Vincent Ross Institute of Accounting Research, na New York University, dirigido pelo professor Baruch Lev e com apoio da Ernst & Young
  • Project on the Understanding Intangible Sources of Value no Brookings Institute
  • The Official Intellectual Capital Home Page (directório de especialistas e biblioteca de livros e artigos), dirigida por Nick Bontis na McMaster University, do Canadá
  • International Accounting Standards Commitee
  • Edição Especial da Revista Forbes sobre o Capital Intelectual - Forbes ASAP Special Issue 7 April 1997, em particular dois artigos de referência - o de Baruch Lev ("The Old Rules no longer apply") e de Michael Malone ("New Metrics for a new Age", onde se divulga uma tabela elaborada com Leif Edvinsson sobre os indicadores a tomar em linha de conta)
  • Artigo de Baruck Lev "New Accounting for the New Economy" (download gratuito)
  • Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal