Drucker para curiosos

Cinco passos na obra do homem que inventou o Management moderno

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv, Novembro 2005

Peter Drucker Subitamente os media descobriram o "Pai" da Gestão na hora do elogio fúnebre. Para os mais pacientes oferece-se até uma citação para digerirem por dia ao longo de um ano.

Correndo o risco de pecar por excesso de compactação de seis décadas de trabalho sistemático do autor sobre a doutrina do management, escolhemos 5 momentos da obra de Peter Drucker, que faleceu em 11 de Novembro em sua casa em Claremont, perto de Los Angeles.

Poderão servir de "entrada" para o leitor explorar depois os múltiplos ângulos deste personagem marcante que aos 90 anos ainda comia lasanha com o apetite de um adolescente e falava empolgado horas a fio sobre o filme da história do século XX.

1. A GRANDE EMPRESA
"Corporation" chamam-lhe os americanos desde os anos 1920 quando Alfred Sloan deu a volta à General Motors. Drucker estudou a empresa durante 18 meses e produziu 247 páginas compactas sobre o que ele considerou "uma nova instituição social e uma comunidade que tem de ser gerida e estudada como tal", sublinhou em The Concept of the Corporation, publicado em 1946. Apesar de ele ter descrito entusiasticamente o principal pilar do capitalismo industrial - a grande empresa baseada na "descentralização federal" e "plana" com "o menor número possível de níveis de gestão" -, o CEO da Chevrolet de então acusou-o de "esquerdista" e o presidente da Westinghouse proibiu-o de entrar na empresa considerando-o um "bolchevique". No entanto, a massa crescente de gestores adorou o livro, para "própria surpresa" do autor. Drucker descobrira o filão do management moderno.

2. UMA PRÁTICA QUE SE APRENDE
A segunda "descoberta" de Drucker foi rebentar com um mito - a ideia da gestão como algo intuitivo, dom de alguns pequenos deuses empresariais, como hoje ainda são apresentados muitos CEO. Para as 466 páginas em letra miudinha de The Practice of Management, publicado em 1954, o autor inspirou-se na Sears e na IBM da época, e, por mais paradoxal que pareça, para deixar a mensagem que a gestão é uma prática susceptível de ser sistematizada e aprendida. "O principal objectivo é diminuir o fosso (...) entre os líderes do management e a média", e mais adiante: "É também escrito para o cidadão sem experiência directa na gestão". No capítulo 22 do livro, em jeito de Manifesto (nas suas próprias palavras), faz uma apreciação crítica muito dura do chamado "fordismo". E sentenciou a páginas 352: "A linha de montagem automóvel não é um modelo para o trabalho humano. É um modelo, já obsoleto, de trabalho maquinal, mecânico, não humano". Ao dar ao comum dos mortais esta ferramenta sistematizada, Drucker permitiu a explosão da revolução da gestão, e a afirmação progressiva dos gestores como nova camada social.

3. O EMPREENDEDOR
Foi o primeiro livro de Drucker traduzido, apenas com um ano de atraso, em Portugal em 1986 com o título Inovação e Gestão (pela Presença), apesar de no original constar Innovation and Entrepreneurship. Nessa altura o palavrão "empreendedorismo" ainda não estava na moda. Com esta obra, ele quis dar uma guinada na literatura de management - exigia uma atenção sistemática à inovação e ao seu "actor social", o empreendedor. Drucker tinha bebido o sentido profundo do termo em Schumpeter, que conhecera, ainda de calções, em casa dos pais em Viena de Áustria. O grande economista era quase como um filho para o pai de Drucker, e, sendo assim, como que o irmão mais velho do jovem Peter. Neste livro, o dote de sistematizador veio mais uma vez ao de cima: "Discuto em seguida o que fazer e o que não fazer para desenvolver uma ideia inovadora e transformá-la num negócio ou serviço viável". E a páginas 212 tem esta preciosidade: "O fundador tem de aprender a tornar-se o chefe de uma empresa em vez de uma vedeta rodeada de ajudantes".

4. O 3º SECTOR
Para quem olhe para Drucker como o homem que teorizou a prática dos Alfred Sloan Jr. (GM) e dos Thomas Watson Jr. (IBM) do capitalismo do século XX, ficará surpreendido com o facto de que, desde há uns 15 anos, que este autor se tem empenhado pessoalmente em desfazer a ideia nas organizações da sociedade civil de que "o termo gestão era uma palavra feia". Ele arriscou dizer em As Organizações Sem Fins Lucrativos (publicado em 1991 na América), para escândalo de muita gente, que o que hoje chamamos de terceiro sector era "a indústria de crescimento por excelência da América". Depois um grupo de amigos de Drucker criaria a Peter Drucker Foundation for Non-Profit Management. Esta obra de Drucker gerou um novo tipo de público para os livros de management - desde reitores e administradores de universidade, passando por sindicalistas e fundadores do que viria a chamar-se de "organizações não-governamentais", até responsáveis de igrejas de diversos credos.

5. SOCIEDADE PÓS-CAPITALISTA
Ele já escrevera em 1954 que a grande empresa era a "primeira organização em larga escala baseada no conhecimento" em que aflorava um novo actor social, o trabalhador do conhecimento. Mas foi quase 40 anos depois que tirou daí todas as ilações ao argumentar em 1993 que na "sociedade para que nos estamos a encaminhar muito rapidamente, o saber é o recurso chave". A obra A Sociedade Pós-Capitalista, traduzida em Portugal pela Difusão Cultural, afirmava sem rodeios: "O capital está a tornar-se redundante, não é mais um factor de controlo", pelo que a sociedade caminhará para algo cujo adjectivo já não é "capitalista". O novo grupo social é hoje 1/3 da população activa e será 40% em 2020, segundo o estudo que Drucker divulgou no The Economist em 2001.

EM JEITO DE ADENDA

O LEGADO
«Não haverão países "pobres" - só países ignorantes. E o mesmo será verdade para os indivíduos, as empresas, as indústrias e todos os tipos de organizações.»

Como o quinto ponto é, porventura, o seu último legado, finalizamos este artigo com uma síntese do que Peter Drucker em 1995 sintetizou como a herança da mudança em curso.

A sociedade do conhecimento
A sociedade emergente será baseada no conhecimento de trabalhadores altamente qualificados. É a primeira sociedade em que a maioria das pessoas não faz o mesmo trabalho, tal como era o caso quando dominavam os camponeses, ou quando se julgou que poderia ser constituída por operadores de máquinas. Isto é muito mais do que uma mudança social. Trata-se de uma viragem fundamental na condição humana.

A nova classe líder
Os trabalhadores qualificados não constituirão a maioria na sociedade do conhecimento, mas serão o maior grupo de população activa. E, mesmo que sejam ultrapassados em número por outros grupos sociais, serão aquele que dará a esta sociedade emergente o carácter, a liderança e o perfil social. Poderão não ser a classe que governa, mas são já a classe que lidera.

A emergência dos tecnólogos
Um grande número de trabalhadores do conhecimento têm de executar tanto trabalho intelectual como manual. Eu chamo-lhes "tecnólogos". Provavelmente serão o maior segmento dentro do grupo dos trabalhadores do conhecimento. Serão, também, provavelmente, o segmento de crescimento mais rápido. Eles poderão vir a ser os sucessores do "trabalhador qualificado" dos séculos XIX e XX. Eles são claramente o segmento da força de trabalho em que os países desenvolvidos poderão manter uma vantagem competitiva duradoura. O Ensino tem de dar resposta a esta prioridade.

Gerindo-se a si próprio
Os trabalhadores do conhecimento vão provavelmente durar mais do que a vida média das próprias organizações onde vão trabalhar (a esperança de vida de uma empresa de sucesso é de cerca de trinta anos). Vão ter de trabalhar, ainda que a tempo parcial, até cerca dos 75 ou mais anos. Por outras palavras, a vida média de trabalho vai ser de uns 50 anos ou mais. Sendo assim, cada um de nós vai ter de estar preparado para mais do que um emprego, mais do que uma profissão, mais do que uma carreira! Vai ter de ser o CEO de si próprio!

Competitividade e conflitos de classe
A sociedade corre o perigo de um novo "conflito de classe" entre a minoria dos trabalhadores do conhecimento e a maioria das pessoas que ganharão a vida de formas tradicionais ou nos serviços. Tornar-se-á, inevitavelmente, muito mais competitiva que qualquer outra sociedade. Não haverão países "pobres" - só países ignorantes. E o mesmo será verdade para os indivíduos, as empresas, as indústrias e todos os tipos de organizações.

O papel central da gestão
Como a sociedade do conhecimento tem forçosamente de ser uma sociedade de organizações, o seu órgão central e distintivo será a gestão. A essência do papel do gestor é tornar o conhecimento produtivo. Terá, por isso, uma função social.

As implicações políticas
A emergência desta sociedade tem profundas implicações políticas: cria um novo centro de organização política, muda totalmente a política económica, e desafia a capacidade de funcionamento do Estado.

Directório de artigos e entrevistas
15 Anos na Peugada de Drucker

Entrevistas

  • Entrevista em 25 de Setembro de 1993 no semanário português Expresso, a primeira entrevista concedida a portugueses em Claremont (não disponível on-line);
  • 2ª entrevista em Claremont em 1995 disponível na Janelanaweb.com;
  • Entrevista de 1997 disponível na Janelanaweb.com;
  • 3ª entrevista em Claremont em 1999 disponível na Janelanaweb.com;
  • Entrevista de 2001 (Só disponível em inglês).
  • Artigos

  • As 4 inovações sociais a que Drucker deu voz;
  • O biógrafo de Peter Drucker;
  • Cronologia da Revolução da Gestão e da Terceira Vaga;
  • O que diz Drucker em Desafios para o Século XXI;
  • 50 Anos do Management (1946-1996);
  • Drucker à mesa (1999) disponível em Janelanaweb.com;
  • Análise do papel do trabalhador do conhecimento;
  • Quando o Management largou o bibe;
  • O filme do Management.
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