PETER DRUCKER AOS 92 ANOS FALA DO FUTURO PRÓXIMO
A irresistível ascenção da nova classe "dominante"
A propósito do «Survey of the Near Future» publicado por Drucker
no The Economist (3/11/2001)Nos próximos vinte anos, o grupo social dos "trabalhadores do conhecimento" - uma designação criada por Peter Drucker nos anos 50 do século XX - alcançará a posição dominante na força de trabalho dos países desenvolvidos. Este facto histórico marcará a Sociedade, a Política e a Economia da primeira metade do século XXI, reafirma o principal impulsionador da disciplina do management no século passado, que hoje (17 Novembro 2001) comemora 92 anos de vida.
Em plena forma física e intelectual, Drucker acaba de publicar na revista inglesa The Economist (edição de 3 de Novembro de 2001) um dossier de 20 páginas, com mais de 20 mil palavras, sobre "A próxima sociedade" [«A Survey of the Near Future - The Next Society»), em que chama a atenção para quatro fenómenos sociais emergentes. O artigo estava para ser publicado antes do 11 de Setembro, tendo sido adiado para Novembro em virtude dos acontecimentos.
As quatro tendências
A BOMBA DEMOGRÁFICA - A primeira das tendências de fundo tem a ver com a nova "bomba" demográfica ligada ao envelhecimento das populações e com o impacto que terá no mercado de trabalho, nos fluxos de imigração e nas estratégias de segmentação de marketing. OS TRABALHADORES DO CONHECIMENTO - Em segundo lugar, assistimos à irresistível ascensão dos trabalhadores do saber como grupo social com uma dinâmica histórica de crescimento largamente distanciada de outros grupos sociais que têm aumentado o seu peso no emprego desde os anos 50 (como os trabalhadores de serviços, os técnicos, os gestores e executivos e os profissionais das áreas de vendas e marketing). O NOVO MODELO DE "CORPORAÇÃO" - A terceira tendência prende-se com o fim do modelo de grande empresa - "corporação" na designação americana que foi um dos títulos de um dos primeiros livros de Drucker em Concept of the Corporation, de 1946 - sedimentado nos anos 20 por Alfred Sloan, o líder da General Motors. Estamos a assistir ao desenvolvimento de uma organização empresarial que evolui para um mosaico diversificado de arquitecturas de tipo confederal ou próximas de um neo-cooperativismo (designado neste artigo do The Economist por estruturas societárias de "sindicação"). AS DUAS GESTÕES - Finalmente, a inevitável separação cada vez mais acentuada entre a gestão de topo - basicamente para a estratégia, área financeira, internacionalização, recrutamento, alianças, cidadania empresarial - e a gestão operacional. A revolução no emprego
O principal impacto do envelhecimento populacional (em virtude da queda da natalidade por parte da geração que teve filhos entre 1961 e 1975) vai sentir-se sobretudo nas formas de emprego dos trabalhadores depois de atingirem os 50 anos de idade - com o desenvolvimento de novos tipos de relação contratual com as organizações e com a possibilidade de extensão da actividade profissional para além da actual idade de reforma, se a saúde o permitir.
A contracção da população jovem em idade de trabalhar vai implicar, também, a projecção do papel crescente dos trabalhadores seniores. A sua atracção e retenção será cada vez mais um factor de vantagem competitiva.
A diminuição do peso da população jovem e o aumento das camadas sociais acima dos 50 anos vai, definitivamente, acabar com o mercado consumista homogéneo que emergiu desde o final da IIª Guerra Mundial.
Afluência social
Por outro lado, o crescimento do peso dos trabalhadores do conhecimento na economia e no emprego está a gerar uma situação de "afluência social", diz Drucker. A principal implicação deste fenómeno é a emergência de um ampla classe média e classe média-alta com uma psicologia global (graças à Internet e à Web) e uma mentalidade cosmopolita, com um forte sentido de independência face ao "Capital" e às organizações, com um crescente peso colectivo na própria propriedade das empresas cotadas (através dos Fundos) e com uma lealdade e sentido de pertença às suas comunidades globais de saber.
No seio desta nebulosa social - que de 1988 a 1998 passou do quarto para o terceiro lugar na estrutura do emprego -, está a desenvolver-se uma camada social pequeno-burguesa de tecnólogos e de profissionais que poderão transformar-se, dentro de duas a três décadas, no grupo social dominante na força de trabalho, «ocupando a mesma posição que o operariado fabril sindicalizado tinha no pico do seu poder nos anos 50 e 60».
Em 2008, segundo as estimativas (ver quadro de Drucker no The Economist, pg.11 do Survey), os profissionais do saber, os gestores e os executivos, os técnicos e os profissionais de vendas e marketing representarão mais de 40% do emprego nos Estados Unidos.
RESUMO DAS EVOLUÇÕES ESTATÍSTICAS Segmento social emergente e potencialmente liderante: Profissionais do saber: 12,5% do empreho em 1988; 14,1% em 1998; 15,6% em 2008 Segmentos sociais que historicamente têm crescido o peso no emprego, ainda que muito menos do que o segmento dos profissionais do saber: serviços, técnicos, gestores e executivos, vendas e marketing Segmentos sociais que historicamnete têm descrescido o peso no emprego: adiministrativos, produção, operários, e agricolas Ordem decrescente de peso no emprego em 1998: Administrativos (17,4%); Serviços (16%); Profissionais do Saber (14,1%), Operários (13,2%); Produção (11,1%), Vendas e Marketing (10,9); Gestores e Executivos (10,5%) Ordem decrescente do peso no emprego em 2008 (estimativa): Administrativos (16,6%); Serviços (16,4%); profissionais do saber (15,6%), Operários (12,7%); Vendas e Marketing (11%); gestores e executivos (10,7%); Produção (10,5%) Onde a Europa falha
Nesta transição, Peter Drucker - que é de origem austríaca, tendo vivido e trabalhado na Alemanha e em Inglaterra até emigrar para os Estados Unidos - crê que a Europa apresenta algumas debilidades históricas, nomeadamente a dificuldade política e social de lidar com a imigração (cada vez mais exigida pela economia, apesar de mal amada socialmente), o atraso na reconversão económica e social dos "clusters" industriais históricos, em que «não tem sido conseguida a mobilidade por via da educação», e o peso mediático e político dos lobís corporativistas de segmentos sociais hoje economicamente diminutos (como a agricultura) ou em claro declínio histórico (como o operariado fabril sindicalizado).
Mudanças de estrutura social do emprego nos EUA (1988-2008) Segmentos Peso no emprego (%) Aumento (%) 1988 1998 2008 88/98 98/08 LIDERANTE Profissionais do saber 12,5 14,1 15,6 1,6 1,5 EM CRESCIMENTO HISTÓRICO Serviços 15,5 16,0 16,4 0,5 0,4 Técnicos 3,2 3,5 3,8 0,3 0,3 Gestores e executivos 10,3 10,5 10,7 0,2 0,2 Vendas e marketing 10,3 10,9 11,0 0,6 0,1 EM DECLÍNIO HISTÓRICO Administrativos 18,5 17,4 16,6 -1,1 -0,8 Produção 11,9 11,1 10,5 -0,8 -0,6 Operários 14,2 13,2 12,7 -1 -0,5 Agrícolas 3,5 3,2 2,8 -0,3 -0,4 Fonte: Peter Drucker, A Survey of the Near Future, The Economist, 3/11/2001
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