"A gestão nunca se esgotou
nos negócios"


Jorge Nascimento Rodrigues com Peter Drucker
em Outubro de 1997

O «pai» da gestão está com 88 anos. Mas continua a trabalhar, inspirado nas palavras de Verdi, que o impressionaram em miúdo na Áustria (ver Máximas). Continua a ensinar na Claremont Graduate School, na cidadezinha onde vive, perto de Los Angeles. Tem um programa de Gestão para Executivos e um MBA para gestores com experiência.

Acaba de publicar na revista «Foreign Affairs» mais um artigo seu sobre "A Economia Global e a Nação-Estado" (edição de Setembro/Outubro 97). Se lhe perguntarem como ocupa os tempos livres, ele responde invariavelmente "Quais?".

Não tem secretária pessoal, responde ele próprio aos faxes que recebe. Usa desde há muito uma máquina de escrever electrónica, que complementa com a escrita à mão. Responde em tempo útil, por vezes na hora, como o fez agora uma vez mais. Não cultiva o distanciamento aristocrático de muitos gurus. Fomos encontrá-lo num ano em que deu "entrevistas de mais", confessa-nos. A conversa foi por isso curta.


Como gostaria de ser recordado?


PETER DRUCKER -- Desde há muito que decidi que gostaria de ser lembrado pelo impacto que tive nas pessoas e na sua vida concreta - junto de estudantes, clientes e leitores. Confesso-lhe que os meus melhores momentos - e são muito frequentes! - acontecem quando recebo uma carta ou um telefonema que começa assim: «Provavelmente não se lembra de mim - fui seu aluno há trinta e cinco anos», ou «sou seu leitor, acabo de ler...». E concluem:«O que me disse há 35 anos - ou o que li no seu livro tal e tal - mudou completamente a minha vida».

Jack Beatty disse-me que sugeriu que o título do livro sobre a sua vida e obra não se intitulasse «Dr. Management», como estava originalmente previsto, e que lhe deu a sensação de que não gostaria "de ser identificado com o sistema". Porquê?


DRUCKER -- Eu tenho escrito e dito, ao longo de mais de 40 anos, de que a gestão não é (só) gestão de negócios. Mas que é o «orgão» genérico da organização moderna, e, inclusive, que os sectores não empresariais necessitam da gestão ainda mais do que os negócios. Digo-lhe mais: pelo menos, desde há 50 anos, que metade da minha actividade tem sido com áreas não empresariais, e sobretudo com instituições não governamentais nem lucrativas. Como, por exemplo, com instituições religiosas - tanto com igrejas protestantes como com dioceses católicas (confesso-lhe que estão em muito mau estado do ponto de vista da gestão) -, hospitais, universidades, orquestras sinfónicas e óperas, organizações comunitárias, etc.. Ajudei a fundar a Fundação Peter F. Drucker para a gestão não lucrativa. Os meus dois livros mais vendidos de sempre não são sobre gestão de negócios - O Executivo Eficaz (1966) e Gerindo a Organização Sem Fins Lucrativos (1990) [este último está traduzido em Portugal pela Difusão Cultural].

Mas qual é o seu segredo, ao continuar perto dos 90 em plena actividade?


DRUCKER -- Não há segredo nenhum. Tanto eu como minha mulher [Doris] somos «workaholics» impenitentes e rivalizamos com o «stress». Doris, que também já passou os 85, começou agora como empresária a dirigir a produção e comercialização de uma invenção sua, e está a dar-se muito bem! (A história deste projecto pode ser lido na revista Inc. de Outubro de 1997).