Deslocalização sem pecado

A polémica sobre a "exportação" de postos de trabalho para o estrangeiro anima o debate pré-eleitoral nos EUA. É uma antevisão da discussão que também atravessará a Europa em época de alargamento.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Maio de 2004

Sítio de referência Daniel Drezner Blog
Entrevista exclusiva com Daniel Drezner
Artigos de referência:
The Outsourcing Bogeyman, por D.Drezner (Foreign Affairs, Maio/Junho 2004)
Offshoring without guilt, por N. Venkat Venkatraman (Sloan Management Review, Spring 2004)

O debate sobre a deslocalização está ao rubro nos Estados Unidos. A sua politização é quase total neste período pré-eleitoral para a presidência norte-americana e os diversos lóbis movem-se no marketing dos prós e dos contras. O tema fractura por dentro as duas correntes políticas tradicionais norte-americanas, ainda que John Kerry, o candidato democrata, tenha ensaiado um discurso anti-deslocalização que entretanto moderou.

A ideia dos economistas "globalizadores" de que o "outsourcing" industrial e o "offshoring" de processos de negócio (na gíria técnica conhecido por BPO) não é mais do que o comércio internacional por outra via, é contestada pelos que reclamam o regresso às políticas públicas intervencionistas para salvaguardar postos de trabalho locais. «A retoma coxa norte-americana alimenta naturalmente esta histeria anti-deslocalização», afirma Daniel W. Drezner (LINKAR mailto:ddrezner@hotmail.com), um professor de ciência política da Universidade de Chicago que alimenta um "blogue" de polémica sobre temas económicos ligados à globalização. Há a tentação de apelidar os empresários deslocalizadores de "traidores" e de impor uma medida de excluir dos contratos federais todos os fornecedores que utilizem para o efeito adjudicação fora do país.

Guerra parlamentar

No campo académico emerge, no entanto, uma corrente doutrinária que afirma que a deslocalização é o prenúncio de «um novo modelo de negócio, do modelo de organização do futuro», algo sem qualquer pecado original, como argumenta N. Venkat Venkatraman, um professor da Escola de Gestão da Universidade de Boston, num artigo recente na revista Sloan Management Review ("Offshoring without guilt", um título sugestivo na edição da Primavera da revista).

A guerra trava-se inclusive no plano legislativo - mais de 20 parlamentos estaduais discutem propostas de lei sobre deslocalização, e o próprio Senado federal é palco de um debate sobre o "Jobs for America Act" que pretende, entre outras coisas, o aviso prévio de planos de deslocalização equivalentes a mais de 15 postos de trabalho. Por outro lado, o poderoso lóbi pró-deslocalização TechNet encabeçado pelo capitalista de risco californiano John Doerr é apoiado por multinacionais como a Intel, Cisco, HP e Microsoft. Doerr quer reduzir o imposto sobre os dividendos retirados do investimento directo no estrangeiro para quase 1/7 da taxa actual (de 35% para 5,25%).

Números empolados

No entanto, o tema tem sido prejudicado pelo exagero de ambas as partes da contenda. Muitos dos números avançados não são relativizados - são citados em bruto, sem qualquer comparação. O McKinsey Global Institute fala de um crescimento das deslocalizações de 30 a 40% ao ano até 2009 e a Forrester Research aponta para 3,3 milhões de empregos perdidos até 2015 nos EUA. Só até 2009, 2 milhões de empregos serão liquidados no sector financeiro norte-americano, segundo a Deloitte.

Daniel Drezner contra-argumenta: façam as contas, até 2015 deverão ser criados 22 milhões de novos empregos, pelo que o saldo de criação de emprego será largamente positivo. No ano de 2003, os postos de trabalho deslocalizados somaram 330 mil empregos, mas isso é, apenas, 0,25% da população empregada nos EUA. Muitas consultoras têm alimentado o tema tornando a deslocalização uma moda de gestão, ficcionando projecções e deixando os seus clientes iludidos e mal preparados para o "outsourcing" e o "offshoring". Há imensas expectativas irrealistas por parte de gestores que se deixam ofuscar pelos custos baixos nalgumas regiões do mundo, faltando-lhes «uma estratégia adequada para a própria deslocalização».

Os números em isolado assustam os americanos, mas não são um terramoto. Por maior que seja a globalização, 90% dos empregos nos EUA estão ligados a actividades que exigem proximidade geográfica e nos próprios processos de serviço ao cliente há segmentos de alto valor que exigem um tratamento de intimidade que não se compadece com a distância, diz Drezner.

Muitas consultoras têm alimentado o tema tornando a deslocalização uma moda de gestão, ficcionando projecções e deixando os seus clientes iludidos e mal preparados para o "outsourcing" e o "offshoring". Há imensas expectativas irrealistas por parte de gestores que se deixam ofuscar pelos custos baixos nalgumas regiões do mundo, faltando-lhes «uma estratégia adequada para a própria deslocalização», como salienta o professor Venkatraman. O resultado é inclusive uma reversão depois da precipitação inicial - segundo a TPI Inc. teria havido uma quebra de 32% nos movimentos de BPO em 2003. Aquilo que os economistas chamam de «custos ocultos» da deslocalização vêm ao de cima e multinacionais como a Dell ou a Lehman Brothers são casos recentes de recuo no campo dos "call centers". Aliás, a Datamation veio sublinhar que, apenas, 5% dos "call centers" estarão deslocalizados até 2007 e o Gartner referiu que, em finais deste ano, só 10% dos empregos em tecnologias de informação estarão em "outsourcing".

Ganhos óbvios

Mas, feita a limpeza dos números empolados, os ganhos da deslocalização são óbvios. Um estudo da economista norte-americana Catherine Mann, do Instituto for International Economics, estima que a deslocalização teve um impacto positivo anual equivalente a 0,3% do PIB dos EUA entre 1995 e 2002. E um relatório do McKinsey Global Institute conclui que cada dólar investido em deslocalização gera um ganho de 12 a 14%.

O argumento irrecusável deste ganho "lá fora" é que esta "renda" extraordinária favorecerá as contas das empresas globais e os grupos sociais nos países "deslocalizadores" que comem a essa mesa.


ENTREVISTA EXCLUSIVA
Daniel W. Drezner, especialista em ciência política da Universidade de Chicago
«Uma ajuda para a Europa»

Os actuais países da União Europeia deverão ficar preocupados com o impacto económico e social da deslocalização de negócios para os novos aderentes da antiga Europa de Leste?

DANIEL DREZNER - Não. Dada a diferença de produtividade de trabalho entre a Zona Euro e os Estados Unidos, o "outsourcing" para o Leste só poderá ajudar a Europa.

Em que sentido?

D.D. - Duplamente. Aumenta o nível de vida dos países do Leste - o que amaciará os custos da sua integração na União - e melhora a produtividade e os lucros das empresas europeias que deslocalizam.

Mas, em geral, a deslocalização global é favorável?

D.D. - Sim. Trata-se de uma outra forma de comércio internacional. É uma situação ganhadora para ambas as partes. No entanto, em virtude das barreiras linguísticas tendo a duvidar que vá haver tanta deslocalização de processos e serviços em particular para a China, como tem sido dito com algum exagero.

Acha que a Europa pode continuar a atrair a localização de centros de I&D e de conhecimento das multinacionais de outros continentes?

D.D. - Sim.

E pensa que os EUA continuam a ser o local ideal para a deslocalização das unidades de inovação e de marketing das multinacionais europeias?

D.D. - Acaba de descrever uma das vantagens comparativas dos EUA. Portanto, a resposta é afirmativa.

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