O coleccionador de «start ups»

The story of a serial founder of start-ups - a portuguese entrepreneur in Silicon Valley (Portuguese version)

Saiu da Gafanha perto de Aveiro, em Portugal, com uma experiência de aprendiz de electricista e uma certidão de nascimento na ex-colónia de Angola. Na Califórnia formou-se em engenharia, revelou um gosto pela criação do próprio negócio, tendo começado pelos jogos de vídeo. Ao fim de 15 anos, já criou quatro empresas no vale mais famoso do mundo em áreas tecnológicas da moda. A sua última "aventura" empreendedora dirige-se ao mercado emergente do que os especialistas designam por "pagamentos de proximidade" sem contacto físico do meio de pagamento (cartão, telemóvel ou PDA funcionando como carteira electrónica) com o ponto de venda. saiba como funciona a mente deste coleccionador de "start-ups". É mais um "case study" internacional com sabor a português.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv, com Jorge Fernandes da Vivotech em Silicon Valley, Janeiro 2003

Publicação em versão mais reduzida no semanário português Expresso

Jorge FernandesHá vinte e três anos atrás quando os pais decidiram emigrar para a Califórnia, o jovem Jorge Fernandes, mesmo armado de muita futurologia, dificilmente se imaginaria como coleccionador de "start-ups" na área da alta tecnologia. Angolano da Gabela, nascido no tempo colonial, é um dos filhos da descolonização. Na ex-metrópole, foi aprendiz de electricista na Gafanha da Encarnação, perto de Aveiro. Mas, como os pais não conseguiam emprego estável, a família aproveitou a "boleia" de uma tia radicada em São Francisco, para em 1980 reorganizar a vida na região do famoso Silicon Valley. O jovem aprendiz tirou, então, um diploma de engenharia electrotécnica na Universidade Estatal de San Diego, no sul da Califórnia. Com o projecto de final de curso criou aos 23 anos a sua própria empresa de jogos de vídeo - a Lazer Tron, que viria a ficar sediada no famoso vale.

Lição 1 - No berço do high-tech

«É crítico estar aqui no Silicon Valley. Só aqui se encontra um leque de recursos e tecnologias que facilitam a vida na fase inicial de projectos empresariais».

Jorge Fernandes não mais largaria o berço da terceira vaga: «É crítico estar aqui no Silicon Valley. Só aqui se encontra um leque de recursos e tecnologias que facilitam a vida na fase inicial de projectos empresariais - pessoal qualificado em várias tecnologias, sempre disponível para novos desafios, espaço infra-estruturado para empresas nascentes e capital de risco», sublinha.

A Lazer Tron entraria no NASDAQ (bolsa de valores tecnológicos norte-americana) em 1992 e seria vendida à Acclaim Entertainment três anos depois. Entretanto, Jorge criara outra empresa em 1993, a Bio Lumin na área da instrumentação para a investigação biotecnológica. A jovem empresa seria vendida à Molecular Dynamics também três anos depois. Já em pleno período de emergência da Nova Economia ligada à Web, fundou a EmployeeLife.com no Verão de 1997 no quadro de um grupo "incubador", o Internet Capital Group. Esta empresa de software para gestão de recursos humanos baseada na Web seria vendida em Setembro de 2000 à Unun Provident, já depois do "crash" bolsista.

Pagamento de proximidade

Depois da experiência das Nova Economia, Jorge Fernandes faria um interregno de ano e meio até que uma ideia lhe "surgiu a jogar golfe". Lançou-se, então, no desenho de um novo projecto aproveitando a emergência da geração de "pagamentos de proximidade", tornados possíveis pela massificação do uso de telemóveis e pelo lançamento de cartões "inteligentes" dotados de "chip" (cartões sem fita magnética no verso). O conceito de "pagamento de proximidade" vem do facto de não haver contacto físico do cartão de débito ou de crédito com o leitor no terminal ponto de venda.

A ideia conquistou Moahmmad Khan, um sénior do sector, um dos primeiros empregados em 1984 da VeriFone. Jorge baptizou o projecto com «um nome de sabor português e que desse uma ideia de algo dinâmico, de uma tecnologia bem viva». VivoTech foi, então, criada em Maio de 2001 e, já em 2002, no auge da recessão americana, conseguiu mobilizar 6 milhões de dólares de capital de risco e «captar clientes disponíveis para ouvir a nossa história sobre um novo produto», recorda.

O funcionamento do novo meio de pagamento é simples. O cliente pode fazê-lo de dois modos. Se dispõe de um cartão "inteligente" com "chip" e antena concebido pela VivoTech basta apontá-lo para um leitor criado também pela empresa que se instala em minutos num terminal ponto de venda. A comunicação faz-se por rádio frequência. Se tem telemóvel ou um "assistente pessoal digital" (os PDA da moda), a ordem de pagamento transmite-se por infravermelhos ou por rádio frequência.

Jorge Fernandes garante que o método reduz a fraude - que soma anualmente 1,5 mil milhões de dólares (1,5 bilhões) nos EUA - e a sua instalação no país pouparia 15 mil milhões de dólares (15 bilhões) em relação ao custo do sistema alternativo. O Citibank (o maior emissor de cartões nos EUA), a MBNA (o segundo emissor) e o Chase já são clientes.

Apetite móvel

A tecnologia é, naturalmente, apetitosa para os operadores de telecomunicações móveis e fixas, bem como para todo o tipo de empresas que usem pré-pagos, programas de fidelização e promoções electrónicas. Daí que os mercados-alvo sejam as regiões de maior "celularização" - ou seja, com maior densidade de uso de telemóveis e PDA, quer nos Estados Unidos, como na Europa (Países Nórdicos, Península Ibérica, Reino Unido) e, refere ainda o fundador da VivoTech, nos "tigres" asiáticos «mais agressivos no uso de tecnologia» (a empresa tem escritórios em Singapura e Seul, na Coreia do Sul).

Na Europa, começou um projecto piloto no Reino Unido e deverá lançar novos testes no segundo trimestre deste ano, incluindo a Península Ibérica.

Em quinze anos, Jorge Fernandes fundou quatro empresas de tecnologia em áreas diferentes, três das quais já vendeu com êxito numa região em que a concorrência no mercado e a morte prematura de "start-ups" é das mais altas do mundo.

Lição 2 - A mente do coleccionador

«Tenho uma ideia e depois procuro desenhá-la tecnologicamente como solução original de uma necessidade de mercado, capaz de ser comercializável e de poder ser patenteada, de modo a proteger a tecnologia da empresa nascente", refere Jorge Fernandes, que acrescenta "o outro braço do êxito": "procuro depois um parceiro que tenha trabalhado no mercado a que me dirijo pelo menos durante quinze anos».

O ingrediente do sucesso é uma mistura, diz o nosso interlocutor: «À minha criatividade no desenho do projecto e à capacidade de lançar empresas, procuro associar um sénior que conheça o mercado; o resto é 99% de sorte».

A mente deste coleccionador de "start ups" funciona deste modo: «Tenho uma ideia e depois procuro desenhá-la tecnologicamente como solução original de uma necessidade de mercado, capaz de ser comercializável e de poder ser patenteada, de modo a proteger a tecnologia da empresa nascente», refere Jorge Fernandes, que acrescenta «o outro braço do êxito": "procuro depois um parceiro que tenha trabalhado no mercado a que me dirijo pelo menos durante quinze anos».

Portugal: o país que pouco mudou
«Há uma atitude negativa geral face a novas ideias», diz Jorge Fernandes
Jorge Fernandes acha que «provavelmente não regressará a Portugal». Continua a ficar "chocado" com o país. Da última vez que o visitou, em 1996, ficou surpreendido: «O país mudara pouco, sobretudo no sistema de educação e no dia-a-dia da mentalidade portuguesa comum que continua a não estar virada para o futuro».
Para um empreendedor nato, o país tem dois grandes pecados, já há muito diagnosticados: «Falta infra-estrutura para se arrancar com empresas inovadoras e há uma atitude negativa geral face a novas ideias».

PERFIL
  • Jorge Fernandes, 38 anos (em 2003)
  • Natural de Gabela (Angola, antes da independência)
  • Aprendiz de electricista na região de Aveiro (Portugal)
  • Radicado na Califórnia desde 1980
  • Engenheiro electrotécnico pela Universidade de San Diego (Califórnia)
  • 1ª empresa criada em 1987: LazerTron (sediada no Silicon Valley em 1988)
  • Criação mais recente: VivoTech, 2001, já depois do "crash" bolsista
  • Conceito da gama de produtos: pagamentos à distância via cartão inteligente (com "chip") ou telemóvel
  • Investimento realizado: 6,5 milhões de dólares (investidores institucionais: 92%)
  • Primeiros 6 meses de facturação: 1,2 milhões de dólares
  • Mercado actual: EUA
  • Mercados-alvo em 2003: Países Nórdicos, Península Ibérica, "tigres" asiáticos
  • Rede de escritórios: Santa Clara (Silicon Valley), Nova Iorque, Londres, Singapura e Seul
  • As 3 empresas que mais admira no Silicon Valley: Oracle (bases de dados), Genentech (a pioneira da biotecnologia) e Intel (semicondutores)
  • Sítio na Web da VivoTech: www.vivotech.com
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