Um distrito industrial adormecido

O corredor litoral Caldas da Rainha-Alcobaça-Marinha Grande, onde se situam aglomerações importantes dos «clusters» do vidro, cerâmica e moldes, tem agora uma oportunidade «estruturante» com a auto-estrada A8. Falta que os empresários se libertem do individualismo atávico e coloquem a procura de sinergia em primeiro plano.

Jorge Nascimento Rodrigues

Mesa Redonda organizada pela Janelanaweb.com e pela «Gazeta das Caldas»
para o semanário Expresso, em Setembro de 2002

Empresas presentes:
Sociedade de Engenharia e Transformação (grupo Iberomoldes)
Atlantis Crystal (grupo Vista Alegre/Atlantis) | Crisform
Molde Faiança Lda (Caldas da Rainha) | Vitrocristal ACE | Vicrimag/Jasmim
Cerâmicas São Bernardo (Alcobaça) | Projecto Mglass

A ideia de um «distrito industrial» que dê contiguidade estratégica ao corredor litoral entre as Caldas da Rainha, Alcobaça e Marinha Grande foi uma das conclusões centrais de uma nessa redonda com industriais, realizada pelo Expresso e pela Gazeta das Caldas. Em virtude da importância nacional dos «clusters» locais do vidro, da cerâmica e dos moldes, existe «a potencialidade de um distrito industrial», no sentido que os especialistas de política industrial e planeamento do território falam, referiu Duarte Raposo Magalhães, da Associação dos Industriais de Cristalaria e presidente da Vitrocristal, um agrupamento complementar de empresas que está à frente do projecto internacional de imagem da marca da Região do Vidro da Marinha Grande. A potencialidade deste distrito «adormecido» encontra hoje outra alavanca no papel da nova auto-estrada A8. Contudo, este conceito não deve ser confundido com o distrito administrativo de Leiria nem com a eventual criação de uma Área Metropolitana de Leiria. «Os distritos industriais constituem-se por adesão voluntária dos meios empresariais em que haja reconhecimento do interesse económico com partilha de responsabilidades e de benefícios. Não é uma decisão de políticos», comenta José Luís de Almeida Silva, responsável pelo Planeamento do Centro de Formação Profissional da Indústria Cerâmica (CENCAL), sediado nas Caldas, e que é desde 1975 director da Gazeta das Caldas.

O pecado original

As barreiras contra a animação de uma lógica congregadora deste tipo são conhecidas, para além das rivalidades entre cidades. Há um grande divórcio entre os «clusters», com algumas excepções, como a estratégia do grupo Atlantis, sediado no Casal da Areia, em Alcobaça, e com fábricas na Marinha Grande. Aliás, entre estas duas cidades «há uma maior contiguidade histórica no tecido empresarial», frisa Raposo Magalhães, que adianta que uma das saídas é apostar nas sinergias entre os projectos de «Rotas» (quer a do Vidro como a da Cerâmica), bem como na actuação conjunta inter-sectorial em feiras e na promoção internacional. Há conceitos congregadores (como o habitat) que podem colocar em sinergia sectores como a cerâmica, o vidro e a cutelaria, por exemplo. Também na área de fornecedores há zonas de contiguidade e nalgumas profissões há possibilidades de mobilidade horizontal inter-sectorial. O pecado original é «a individualidade atávica dos pequenos empresários e o receio em relação ao concorrente», diz Manuel da Bernarda, fundador da Cerâmicas S. Bernardo, de Alcobaça. Ao que Joaquim Beato, um dos fundadores e gerente da Molde Faianças, das Caldas da Rainha, acrescenta «a falta de tempo por estarmos sempre em emergência num sector que sofre uma pressão diária de clientes e da concorrência internacional». Os próprios centros de formação da região, como o CENCAL e o CRISFORM (Centro de Formação Profissional para o sector da Cristalaria), poderiam estabelecer pontes, refere-nos Avelino Sousa Lopes, da Atlantis e director deste último centro.

A força do corredor

Apesar da dispersão, este corredor industrial tem grupos de grande dinamismo internacional, como o Atlantis (hoje ligado à Vista Alegre) ou o Iberomoldes, bem como um tecido de PME viradas para nichos de qualidade na exportação. Exemplos de pequenas empresas ligadas aos produtos tradicionais do território abundam. A fábrica estúdio da Vicrimag, da Marinha Grande, com a marca internacional «Jasmin» fez «renascer a tradição do vidro manual sem moldes e ecológico, e levou-a para lojas seleccionadas em mais de 20 capitais mundiais», como refere o seu fundador António Noivo. Por outro lado, a Molde Faiança na louça em terracota e grés fino estabeleceu uma relação de fidelização com grandes cadeias como a Marks & Spencer, no Reino Unido, ou a Crate & Barrel, nos EUA, ou os noruegueses da Kari Trestakk. «A comercialização internacional é precisamente um dos terrenos onde a colaboração seria útil», diz Manuel da Bernarda, ao que Raposo de Magalhães cita o exemplo no vidro do projecto colectivo «MGlass» que «atacou» em mercados como o americano (com um «show room» em Nova Iorque e testes em várias cadeias de armazéns) e o espanhol (operação recente na rede do El Corte Inglés).

Face às dinâmicas da concorrência internacional, outra «urgência» prende-se com conseguir «subir na cadeia de valor», refere Rui Sousa, quadro do grupo Iberomoldes. «A nossa nova abordagem é incorporar o molde numa cadeia mais ampla, produzindo as próprias peças para o cliente, como no caso automóvel, e descobrindo novos nichos de produtos tecnológicos», dando o exemplo do lançamento que o grupo vai fazer, em breve, de um forno solar (ver caixa).

IBEROMOLDES NOS FORNOS SOLARES
A decisão estratégica de um reposicionamento na cadeia de valor e a verificação de uma oportunidade de mercado levaram o grupo Iberomoldes a avançar com um protótipo de forno solar que «consiste no primeiro projecto mundial de industrialização a grande escala deste tipo de tecnologia», diz-nos Rui de Sousa, da Sociedade de Engenharia e Transformação (SET), do conhecido grupo da Marinha Grande. O forno solar vai ser apresentado oficialmente no final deste mês no VIº Congresso Ibero-Americano de Energia Solar em Vilamoura. O forno é de plástico (o que traz vantagens no peso e na qualidade do fabrico) e através da exposição directa à energia solar usando uma componente óptica permite cozer, ferver e assar alimentos e pasteurizar água para consumo. «São duas vantagens que o distinguem de outros fornos comercializados, por exemplo na Índia e na China», refere Nuno Oliveira Martins, da Sun Co, a empresa que vai comercializar o forno. Tratou-se de um projecto desenvolvido pela SET, pela Ao Sol, do grupo Galp, e pelo INETI, com financiamento parcial da Agência de Inovação. Denominado «Sun Cook», tem em vista quer os mercados do lazer em países desenvolvidos para utilização ao ar livre (como os EUA e Sul da Europa), como os mercados em desenvolvimento, onde há escassez de recursos energéticos e pobreza.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal