Um empurrão da NASA

Um projecto com o mítico Centro Espacial Kennedy da NASA em Cabo Canaveral foi a rampa de lançamento da Chiron, uma pequena empresa de ponta 'made in Portugal' nascida no Parque de Ciência e Tecnologia localizado no Monte de Caparica. Ao fim de três anos, entra num «período revolucionário» pretendendo passar para uma fase de crescimento acelerado e de projecção internacional no seu nicho de integração de sistemas

Jorge Nascimento Rodrigues

curandel Chiron Provavelmente o leitor não sabe, mas o «vai-vém» espacial não larga de Cabo Canaveral sem as informações críticas fornecidas por um sistema de informação ambiental desenhado por uma equipa da Chiron, uma pequena empresa portuguesa sedeada no edifício do Uninova localizado no Madan Park, um Parque de Ciência e Tecnologia em criação no «campus» universitário da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT da UNL), no Monte de Caparica. Em Novembro próximo, os «espiões portugueses», como ficaram conhecidos os fundadores da empresa lusa no Sul da Flórida, vão ao célebre Cabo lançar uma versão mais «estendida» do software que têm instalado no Centro Espacial Kennedy.

«Nascemos, de facto, com um empurrão da NASA», diz-nos João Ribeiro da Costa, um dos fundadores, ao receber-nos na Chiron-Sistemas de Informação Lda.. A história é simples: a NASA «descobrira» em Portugal o grupo de investigação de Análise de Sistemas do Uninova e como o primeiro projecto correu bem, desafiou a equipa liderada por Ribeiro da Costa para «algo maior, que exigia a criação de uma empresa» (a relação com a NASA pode ser consultada na Web em http://www.chiron.pt/solucoes/casestudies_nasa1.html), que, depois de algumas peripécias (ver caixa), iniciou a actividade em Maio de 1996.

 Leia a história do nome 

Funcionários ou empreendedores?

A decisão de criar a empresa não foi tomada de ânimo leve. A oferta da NASA colocava Ribeiro da Costa, então à beira dos 40 anos, e Henrique de Jesus, na altura com 35 anos, outro dos fundadores, também pertencente ao grupo de investigação, numa encruzilhada: «Ou nos funcionalizavamos num laboratório universitário ou criávamos uma empresa. Sabíamos que não era fácil arrancar com um negócio. A 'cultura' portuguesa considera que uma pequena empresa antes de três anos de idade não tem história - é assim para os bancos, para os concursos, etc.. O que nos valeu foi, de facto, o chapéu do Uninova e a decisão estratégica de relançamento da ideia do Madan Park aqui no Monte da Caparica. Com este apoio, o nosso parto e infância correu bem».

A Chiron, entretanto, ganharia visibilidade também no mercado nacional como especialista em arquitectura e construção de sistemas integrados de informação, onde o grupo dos fundadores era tido como referência na área dos recursos hidrícos e do ambiente desde há uma década. Ribeiro da Costa continua, ainda hoje, a ser professor de gestão de Recursos Hídricos no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da FCT da UNL.

Do portefolio de projectos nacionais mais destacados, nesta primeira fase de infância criativa, contam-se, entre outros, o trabalho para o Instituto Nacional da Água considerado exemplar a nível europeu (ver em http://www.inag.pt/snirh), diversos projectos na área da Arqueologia (como o projecto Endovellicus, um sistema de Informação do Património Arqueológico), do Ambiente (como o Guia de Informação na Web da Direcção Geral do Ambiente, em http://www.dga.min-amb.pt), das Bacias Hidrográficas de cinco rios do país e o desenvolvimento ainda em curso do Sistema Integrado de Informação Criminal da Polícia Judiciária.

Uma das estórias, também cheia de peripécias, foi um pedido urgente de João Zilhão, o responsável do Parque Arqueológico do Côa, quando teve de apresentar, em tempo recorde, a candidatura do Vale a património mundial. «Em três dias conseguimos fazê-la com base no nosso conhecimento na área dos sistemas de informação geográfica e dos nossos modelos de integração», refere Henrique de Jesus, o operacional do software da Chiron.

A cambalhota estratégica

Ao aproximar-se o fim deste primeiro triénio de vida, os fundadores sentiram que haviam chegado a nova encruzilhada e decidiram fazer uma «revisão estratégica» no final de 1998. A Chiron deixara de ser o pequeno núcleo de início, crescera em pessoal, e a facturação havia quintuplicado. «A empresa tinha entrado numa terra de ninguém. Tínhamos atingido uma altura em que, de novo, só haviam duas opções: ou voltávamos a ser pequeninos ou optávamos pelo crescimento», explica, por seu lado, Ribeiro da Costa, o director geral.

Os fundadores sentiram-se, então, no limite da sua própria «zona de conforto», como tecnicamente se diz na teoria do empreendedorismo. Sentiam que tinham de passar de uma fase infantil, voluntarista, para uma rampa de crescimento e de amadurecimento, em que era indispensável profissionalizar a gestão, estruturar as competências e fidelizar e alargar os quadros.

«Resolvemos dar a cambalhota com a participação de toda a equipa da empresa nesta reflexão estratégica», sublinha o nosso interlocutor. O ano de 1999 foi, neste plano, decisivo - duplicaram os quadros e a facturação - e definiram as novas metas estratégicas: passar dos projectos por cliente a um produto-standard que lhes permita um bom posicionamento no seu nicho de mercado à escala internacional; entrar no mercado empresarial e libertarem-se do predomínio de clientes públicos; atingir um nível de qualidade exigente (para o que adoptaram os critérios do Prémio Malcolm Baldrige) e obterem a certificação; passar da satisfação do cliente à orientação de toda a criação e produção a partir do cliente e reforçar a estratégia de internacionalização.

Esta última está assente em dois pés: o mercado norte-americano em torno do «efeito NASA» (a Chiron recebeu um pedido de colaboração da Environmental Protection Agency, a poderosa agência para o ambiente dos EUA) e os projectos no âmbito da União Europeia, que já granjearam o apoio ao lançamento de um protótipo de sistema de gestão de qualidade ambiental no âmbito do programa Eureka e a liderança do Mutate (Multimedia Tools for Advanced Training in Europe), financiado pela DG XIII, que se destina a lançar na Web o primeiro curso de pós-gradução em sistemas de informação geográfica (mais informações em http://mutate.chiron.pt).

Funcionar à americana

A finalizar, os fundadores da Chiron revelam que, desde o início, decidiram actuar a contra-corrente do estilo empresarial «clássico» português. «Decidimos funcionar à americana ao criar a empresa. Não só por termos um sócio americano e por termos arrancado graças ao projecto da NASA, mas porque optámos por seguir uma série de boas práticas de gestão», conclui Ribeiro da Costa, acentuando alguns dos «valores sagrados» de que procuram não se afastar nem um mílimetro: trabalhar por objectivos; organizar por projectos; não perder um único cliente; nunca aceitar aquilo que esteja fora das competências e da capacidade dos recursos humanos da empresa; usar a Web como plataforma central de criação, produção e relação com os clientes; seguir sempre uma política de austeridade; implementar um sistema de gestão do conhecimento dentro da empresa; enfim, manter o «estado de espírito da Chrion» em termos de ambiente de trabalho, debate interno, trabalho por equipa e remunerações.


Referências sobre o Malcolm Baldrige Award

  • Síntese dos critérios
  • Guia - The Pocket Guide to the Baldrige Award, de Mark Graham Brown
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