Tecnologia «soft» portuguesa no Cáspio

Dois especialistas em engenharia, qualidade e segurança de campos petrolíferos participaram no nascimento de mais uma das regiões exportadoras do Cazaquistão junto ao Mar Cáspio, zona da Ásia Central que já foi considerada uma das áreas estratégicas do ouro negro neste século.

Jorge Nascimento Rodrigues com João Morgado e Raul Quintas, especialistas portugueses do Instituto de Soldadura e Qualidade

Dificilmente saberiam apontar com o dedo o local para onde os estavam a desafiar em 1998 e quase nada conheciam da cultura daquelas regiões da Ásia Central. Uma das referências era o centro espacial de Baikonur, onde em 1961 Yuri Gagarin fora lançado para o espaço, inaugurando uma nova era e tornando-se um ídolo para a geração de calções da altura, em que se contavam João Morgado e Raul Quintas, engenheiros do Instituto de Soldadura e Qualidade, sediado no Taguspark, em Oeiras, perto de Lisboa. Mas o desafio de «conceber uma criancinha perfeitinha num novo campo petrolífero era irrecusável» para os dois engenheiros portugueses de qualidade e segurança que, ao serviço da Petroprimo, uma empresa de recursos humanos qualificados para a indústria petrolífera do grupo Gulbenkian, partiram para uma viagem atribulada em direcção a uma região que emergiu nos últimos cinco anos no mapa geo-económico do mundo.

A "criancinha" era toda a infra-estrutura do nascente campo petrolífero de Dunga, no Cazaquistão, na região de Mangistau, a cerca de 50 quilómetros da cidade logística do petróleo de Aqtau, um porto no Mar Cáspio criado pelas autoridades soviéticas nos anos 60 sob o nome do poeta russo Chevkchenko. Nos tempos da URSS, o campo foi estudado, mas acabou por ficar fechado até 1991, ano da independência do Cazaquistão, após a dissolução da União Soviética. A Partex Oil and Gas, do grupo Gulbenkian, em associação com a Oman Oil Company (a empresa petrolífera estatal do sultanato de Oman) ganharam a concessão para o desenvolvimento e exploração do projecto "Dunga", tendo criado a Partex Kazakhstan Corp., que em Janeiro de 2000 conseguiu fazer a primeira exportação de óleo a partir do novo campo.

O projecto piloto, que durou de 1998 a 2001, consistiu na perfuração de sete furos localizados estrategicamente para validação do modelo de exploração e na construção de instalações de superfície, uma central de tratamento, processo, armazenagem e exportação de petróleo bruto, e nas ligações ao oleoduto.

Saber luso

O trabalho do terreno mobilizou um mosaico de gente - de petrofísicos, geólogos, engenheiros de reservatório, profissionais da extracção de petróleo até aos dois especialistas do ISQ. João Morgado ficou responsável pela qualidade e Raul Quintas pela higiene, segurança e ambiente, o que significou envolverem-se desde as especificações, à feitura dos manuais, à orientação do fabrico e compra dos equipamentos, até à formação e à inspecção durante largos períodos ao longo de três anos. Um trabalhou em Aqtau e o outro chegou a trabalhar também em Ufa, a capital da antiga república autónoma Baskhir, nos Montes Urais, hoje parte integrante da Rússia. Ufa é a cidade de referência, naquelas paragens, para toda a indústria petrolífera.

Confessam que foi «a experiência mais apaixonante da vida profissional», apesar das temperaturas de 25 graus negativos no Inverno e de 45 positivos no Verão, da rigidez da burocracia a vencer, da dificuldade em implementar padrões internacionais e em importar qualquer equipamento, e do «choque de perceber que um médico vive com 50 dólares por mês», diz João Morgado.

O engenho luso - a tecnologia "soft" que mais abunda entre nós - revela-se neste tipo de circunstâncias. «Senti o sangue de Vasco da Gama correr nestas veias!», exclama Raul Quintas, que ainda hoje sente a adrenalina de então ao improvisar descobrindo localmente potenciais fornecedores de equipamentos e serviços. O resultado foi notável: a própria central levantada foi considerada instalação modelo e «alguns dos equipamentos construídos pela primeira vez no país deram origem a novas oportunidades de negócio e a encomendas de outras companhias petrolíferas em operação na região», recorda, por seu lado, Morgado. Com alguma arte de persuasão conseguiram, também, fazer adoptar os padrões internacionais face a hábitos arreigados de especificações da época soviética datadas de há mais de 40 anos.

Pasteis de bacalhau e vodka

O período, também, não foi fácil politicamente. O projecto "Dunga" apanhou os portugueses em plena crise dos Balcãs e de intervenção da NATO. «A Jugoslávia significava eslavos do sul, uma espécie de primos», o que obrigou os portugueses a uma sábia explicação de geo-política aos locais. Mas o choque cultural é provavelmente o maior desafio para os expatriados em qualquer parte do mundo, o que os portugueses souberam contornar recorrendo... a um pouco de culinária. «Transformámos uma enfermeira cazaque em 'Chef' de cozinha, exímia... nos pasteis de bacalhau, graças a umas postas que vinham de Portugal e a umas ilustrações de um livro de culinária de Filipa Vacondeus, o que conquistou o estômago de muitos notáveis da região», recorda, com humor, Raul Quintas, que descobriu, também, que uma varicela que apanhara se cura «com limpeza das erupções com vodka e pintando-as de verde».

Os dois portugueses do Cáspio trabalham hoje para a Transgás Atlântico na montagem do terminal de LNG em Sines.

Cazaquistão: Mais uma potência petrolífera emergente

A região do Mar Cáspio saiu do anonimato nos últimos anos para se projectar como mais uma das áreas mundiais de grandes reservas do ouro negro. Estimam-se para a zona - abarcando o Azerbeijão, Norte do Irão, Cazaquistão, regiões limítrofes da Rússia e Turquemenistão - um total de 243 mil milhões de barris de reservas, onde o Cazaquistão detém 40%, mais do que qualquer outro dos parceiros ribeirinhos deste mar interior. Em termos de "reservas provadas" este país soma 5,4 mil milhões de barris, 54% das reservas provadas de toda a zona do Cáspio. As reservas do campo de Dunga estão estimadas em 800 milhões de barris.

A progressão de exploração desta riqueza por parte do Cazaquistão tem sido notável - de 130 mil barris diários em 1992, após a independência, para 631 mil no ano passado e uma estimativa de 900 mil para este ano. As autoridades cazaques pretendem atingir um milhão de barris diários em 2003 e 2 milhões por dia em 2010, o que significará mais de 60% de toda a produção possível do Cáspio. Os rendimentos do petróleo são estratégicos para o Orçamento de Estado daquele país.

Mais informação em Ardina na Crise - A Caixa de Pandora do Crude.


CARTA DE LEITOR DE CRÍTICA AO ARTIGO

De: José Rosa

Caro Jorge Nascimento Rodrigues,

A presente carta expõe de um modo directo e claro (espero eu) o modo como foi conduzido o investimento da Fundação Gulbenkian, i.e. Partex Oil and Gas, no campo Dunga, no Cazaquistão, nomeadamente nas suas implicações de custos.

Em Janeiro de 1998 foi entregue á Petroprimo, empresa do grupo Partex Oil and Gas, um «Projecto pronto para execução» para construção das instalações de superfície do Dunga. O «Projecto pronto para execução» entregue foi elaborado durante 18 meses, desde Agosto de 1996 até Janeiro de 1998, pela empresa inglesa Expro North Sea.

O «Projecto pronto para execução» apresentava graves deficiências de projecto de engenharia, não estava pronto para execução e tinha um custo largamente superior a 15 milhões USD.

Este custo correspondia a preços tipicamente 5 vezes superiores aos preços de mercado para instalações/equipamentos semelhantes.

A equipa da Petroprimo incumbida em Janeiro de 1998 da execução do projecto Dunga, na qual eu fui incluído em Março de 1998, logrou produzir, em apenas 1 mês, entre Março e Abril de 1998, um Projecto Alternativo, com viabilidade do ponto de vista técnico, com um custo de 2.4 milhões USD.

Em Junho de 1998 a mesma equipa da Petroprimo (designada informalmente por Project Team, constituida por apenas 3 elementos) foi incumbida de projectar de raiz e de construir um Pipeline para exportação do óleo do Dunga.

Em três meses o Project Team realizou o projecto e negociou os contratos para a construção do pipeline.

Em Setembro de 1998, foi feita a adjudicação do Projecto Alternativo para a construção das instalações de superfície, que são as instalações efectivamente construidas e a funcionar no Dunga. Logo após a adjudicação deste contrato, o Professor Diogo Pinto, até então Presidente do Conselho de Administração da Petroprimo, que tinha constituido o Project Team e determinado que se agisse para corrigir erros e anomalias detectados no Dunga foi afastado.

Até Outubro de 1998 a totalidade dos custos das instalações de superfície e pipeline estavam abaixo do orçamentado e controlados.

No início de 1998, a totalidade dos custos previstos no Dunga, incluindo engenharia e construção de (i) instalações de superfície (Central Gathering Facilities e Flowlines), (ii) contrato de perfuração dos 7 poços, mas excluindo a construção do Pipeline era 50 milhões USD.

No final de 1998, tinha-se poupado 20 milhões USD. A totalidade dos custos previstos no Dunga incluido engenharia e construção de (i) instalações de superfície, (ii) contrato de perfuração de 7 poços e também (iii) Pipeline de exportação era 30 milhões USD!

A partir de Outubro de 1998, sob a responsabilidade da nova administração da Petroprimo, designadamente dos administradores Pedro Pedrosa Machado e Luis Gomes Moreno, foram sistematicamente afastados da Petroprimo, por rescisão, terminação de contrato ou por demissão, os elementos da Petroprimo que prosseguiam activamente a contenção dos custos e a denúncia de situações anormais no Dunga.

Após 1998, especialmente durante a fase de execução dos contratos, voltou-se a verificar a ocorrência de custos muito superiores aos de projectos petrolíferos semelhantes.

Em 1999, voltaram a ser envolvidos no projecto Dunga elementos que tinham sido responsáveis pela condução do projecto até Dezembro de 1997.

Em 2002, os custos do Dunga atingem um montante na ordem de 120 milhões USD.

Dificilmente, ainda que se quisesse deliberadamente causar dano ou malbaratar o património da Fundação Gulbenkian, se poderiam atingir piores resultados. O sorvedouro de dinheiro que constituiu o Dunga tem especial significado dada a situação de aperto financeiro que a Fundação bGulbenkian viveu nestes dois ultimos anos.

Com os melhores cumprimentos

José Rosa


COMENTÁRIO DE JOÃO MORGADO, um dos entrevistados

De: João Morgado

Nós assistimos ao fabrico, instalámos, compatibilizámos e colocámos em serviço o equipamento de origem local, 5 vezes mais barato. Este equipamento produziu em Fev 2002 o 1º milhão de barris.

João Morgado

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