Os novos caçadores de fortunas

Esta revolução é mais visível nos Estados Unidos onde a revista Fortune
já os comparou com o "Triunfo dos Porcos". Mas é universal. Uma camada
de profissionais da alta gestão conseguiu arrecadar fortunas incalculáveis, mesmo com a quebra nos negócios e com a destruição de vários biliões
de dólares de valor bolsista. Apesar da revolta dos accionistas, é pouco provável que a ascendência política e social deste grupo seja estancada.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.gurusonline.tv
Versão de Janeiro de 2004
Versão original publicada no semanário português Expresso em Outubro 2003

Ainda estão quentes as fraudes das valorizações bolsistas artificiais das empresas e grupos norte-americanos no período da "bolha" seguidas da realização atempada de mais-valias pelos seus dirigentes, cirurgicamente antes das falências. O caso mais emblemático destes escândalos financeiros foi o da Enron.

Contudo, a "raiva accionista" já se virou contra outro alvo. A revolta dos investidores nas empresas cotadas em bolsa atingiu em força, este ano, os pacotes de remuneração anual e de compensações em caso de despedimento ou demissão dos directores-gerais - CEO na designação anglo-saxónica - das grandes empresas.

Mas a história deste folhetim tem de começar dois anos atrás. Está, ainda por apurar o que rendeu aos CEO e outros directores e executivos, mais habilidosos e bem apoiados por consultores, auditores e analistas, o mecanismo que ficou conhecido por "dar à bomba e esvaziar de seguida" - ou seja, inflaccionar primeiro o valor das acções para depois, rapidamente, vendê-las e encaixar fortunas, antes da falência.

O milagre dos vasos comunicantes

Sabe-se hoje que os valores das acções nos Estados Unidos caíram de um pico de 17,1 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) para 9,9 no final de 2002 - desapareceram em dois anos das bolsas norte-americanas 7,1 biliões de dólares!

Estudo sobre as poupanças das famílias norte-americanas em Conjoncture,
Septembre 2003, nº8 ("Ls Etas-Unis, encore et toujours le moteur
de l'économie mondiale?"), boletim editado pelo BNP Paribas

No entanto, pelo efeito dos vasos comunicantes na riqueza das famílias, os activos tangíveis (imobiliário, nomeadamente) e os financeiros não denominados em acções (depósitos, por exemplo) cresceram, no mesmo período, 6,2 biliões. Ou seja, o que desapareceu de um lado, apareceu, quase por inteiro, no outro.

Pelo caminho "perdeu-se" 1 bilião até final de 2002, 2% da riqueza das famílias em 1999. O problema é que esses 2% afectaram irremediavelmente a família comum americana que acreditou no sonho do capitalismo popular.

Pelo caminho "perdeu-se" 1 bilião até final de 2002, 2% da riqueza das famílias em 1999. O problema é que esses 2% afectaram irremediavelmente os pequenos e médios accionistas, a família comum americana que acreditou no sonho do capitalismo popular, e os Fundos que geriram sobretudo essas aplicações dos empregados simples.

O mesmo fenómeno dos vasos comunicantes está a ser hoje redescoberto pelos accionistas em relação às remunerações dos dirigentes empresariais. A própria revista Fortune já mimoseou uma parte dos seus próprios leitores com uma capa bem provocatória: "Oink! As remunerações dos CEO estão fora de controlo! - Saiba porquê".

O artigo da revista Fortune de 28 de Abril de 2003

"Oink" é o grunhido do porco e na capa da edição de 28 de Abril deste ano a revista vestia um porco com um fato de executivo. No fundo, assistíamos ao triunfo dos porcos, numa alegoria à célebre "Quinta dos Animais" de George Orwell. Não por acaso, o dossiê da revista abria com um artigo intitulado "Não terão eles vergonha?", em que uma citação daquela obra de Orwell fazia honras de introdução.

O triunfo dos porcos

A falta de vergonha dos novos senhores viria dos encaixes nas remunerações e pacotes dourados de demissão ou reforma.

Os CEO que se demitiram das empresas norte-americanas adquiridas ou que se fundiram com outras cotadas levaram, em média, mais 4 a 5 milhões de dólares do que seria "normal". Um múltiplo de 6 a 9 vezes sobre os rendimentos anuais dos CEO antes da aquisição ou da fusão, diz um estudo de três académicos da Universidade de Nova Iorque e do Texas. Vender a empresa ou empurrá-la para uma fusão passou a ser um bom negócio pessoal.

Outra avaliação feita por Paul Hodgson, do The Corporate Library - um observatório do mundo das grandes empresas -, em relação aos anos de 2001 e 2002, já no período de crise, revela que cada uma das "saídas douradas" de CEO das 500 maiores empresas norte-americanas pertencentes ao índice bolsista S&P rendeu, em média, 16,5 milhões de dólares.

Visite o sítio da The Corporate Library

As saídas de bolso cheio deram-se ao mesmo tempo que essas empresas atravessavam períodos muito difíceis - como nos casos da Tyco, Qwest, Lucent, The Gap, WorldCom e AOL/Time Warner. O triunfo das benesses teria chegado ao cúmulo: «Com pacotes de remuneração de 15 milhões para iniciar o cargo e de 16,5 para depois o largar, o CEO nem precisa de fazer grande dinheiro durante o exercício do cargo nem de cuidar da saúde da empresa - que estímulo tem ele para se mexer a favor da sustentabilidade da empresa, dos empregados e do valor para os accionistas, se tem o seu já garantido?», ironiza Hodgson.

Segundo um estudo da central sindical AFL-CIO, o diferencial nos EUA entre o pacote anual de um CEO e o salário médio de um empregado passou de 42 vezes em 1980 para 85 vezes em 1990 e para 531 vezes em 2001. Deste patamar - para alguns "obsceno" - desceu para 281 vezes em 2002.

Na história do capitalismo, chegara a hora dos novos caçadores de fortunas.

As desigualdades gritantes vieram, então, a lume. Segundo um estudo da central sindical AFL-CIO, o diferencial nos EUA entre o pacote anual de um CEO e o salário médio de um empregado passou de 42 vezes em 1980 para 85 vezes em 1990 e para 531 vezes em 2001. Deste patamar - para alguns "obsceno" - desceu para 281 vezes em 2002.

Ainda em 2002, as 50 grandes empresas cotadas norte-americanas que mais despediram - cerca de meio milhão de pessoas - viram o valor global das remunerações dos seus CEO chegar a mais de 570 milhões de dólares, segundo um estudo do Instituto for Policy Studies e do United for a Fair Economy.

Em Inglaterra, o fosso entre as dinâmicas de crescimento das remunerações dos CEO e dos empregados aumentou 6 vezes. Segundo um estudo da Incomes Data Services, os CEO das 100 principais empresas do índice bolsista londrino FTSE teriam auferido um aumento de 288% na última década - quase 30% em média por ano -, enquanto que a arraia miúda teria tido direito a 45% de aumento - ou seja, 4,5% ao ano.

Por seu lado, em França, em 2001, segundo a consultora Proxinvest, os 39 principais PDG (presidente-director geral) receberam uma remuneração média 554 vezes superior ao salário mínimo interprofissional (SMIC). E, segundo o jornal Le Monde, os 20 principais líderes empresariais tiveram um aumento médio anual de 20,75% em 2002, em plena recessão.

A galeria da infâmia

Não admira, por isso, que a tampa da panela tenha saltado nas Assembleias Gerais. 2003 foi o ano em que os media descobriram o activismo dos accionistas e passaram a fazer eco da sua "raiva".

A convicção transmitida pelas manchetes das secções de economia e finanças dos jornais é que os accionistas e os trabalhadores estão a pagar a crise, enquanto que os CEO e outros dirigentes empresariais estariam a lucrar com ela.

No Reino Unido, pela primeira vez na história, os accionistas de uma grande empresa, a Glaxo Smith Kline, rejeitaram, em Maio de 2003, um pacote de 31 milhões de euros a que a direcção da empresa se tinha auto-atribuído e ao seu líder Jean-Pierre Garnier. Esta benesse chocava com uma queda nos lucros de 25%, uma quebra de 30% no valor das acções e fracos resultados no "pipeline" de saída de produtos novos. O voto de protesto não tem, contudo, poder efectivo. Mas ficou o sinal.

O jornal inglês The Independent criou inclusive uma classificação dos dirigentes das empresas cotadas relacionando os seus pacotes dourados com a saúde bolsista e económica da empresa. Os lugares da galeria da "infâmia" são regularmente publicitados - o ex-líder da British Telecom e o ainda líder da Vodafone ocupam as posições cimeiras.

Na Alemanha, o concelho de administração do grupo Mannesmann AG e o seu ex-líder Joseph Ackermann (hoje CEO do Deutsche Bank) estão a ser investigados por abuso de confiança ao terem atribuído há 3 anos uma benesse de 56 milhões de euros para a antiga equipa dirigente.

Dois personagens ilustres da história da ABB - Percy Barnevick e Goran Lindahl - tiveram de devolver, no ano passado, mais de metade das suas reformas douradas: cerca de 100 milhões de dólares que voltaram aos cofres da bem necessitada ABB.

Por seu lado, na Suíça, dois personagens ilustres da história da ABB - Percy Barnevick e Goran Lindahl - tiveram de devolver, no ano passado, mais de metade das suas reformas douradas: cerca de 100 milhões de dólares que voltaram aos cofres da bem necessitada ABB.

Ainda na Europa, mas em França, o PDG da Alstom, Pierre Bilger, por pressão dos media e judicial, acabou por restituir 4,1 milhões de euros da sua indemnização quando saiu e deixou o grupo na falência. O mediático ex-PDG da Vivendi, Jean-Marie Messier continua em litígio por 20,5 milhões de euros de indemnização a que ele acha que tem direito quando foi corrido da empresa no ano passado.

Nos EUA, Richard Grasso, responsável da Bolsa de Nova Iorque, demitiu-se em Setembro, em virtude da revelação de um pacote dourado de 188 milhões de dólares, segundo o The Economist. Mesmo em plena depressão, no ano passado, os 15 principais dirigentes empresariais mais bem pagos dos EUA ganharam, em média, cada um, 35,8 milhões de dólares, segundo a Standard & Poor's.

O próprio Jack Welch, ex-CEO da General Electric, um mito dos anos 90, começou a ser olhado com reprovação face aos milhões de dólares anuais de pensão de reforma e outras benesses reveladas pela sua ex-mulher no processo de divórcio.

A revolta dos capitalistas colectivos

Entretanto, os grupos de accionistas começaram a agir. Desde os anos 70 que surgiram o que Peter Drucker baptizou de "capitalistas colectivos", os Fundos que recolhem as aplicações de milhões de empregados. Desde 2001, que alguns destes Fundos organizaram uma rede informal, que agrupa o Morley Fund Management (inglês), o poderoso CalPERS - California Public Employees' Retirement System e outros protagonistas na Alemanha, Canadá, Suécia e Japão. No Canadá formou-se em 2002 uma denominada Coligação para a Boa Governação Empresarial, que abrange 19 fundos muito activos.

Visite o sítio da CalPERS

Os efeitos deste activismo começaram a sentir-se. Nos EUA cerca de 300 resoluções de accionistas já deram entrada este ano na Securities and Exchange Commission (SEC, a entidade reguladora) propondo acções de alteração da forma como os gestores de topo são pagos. Uma campanha organizada pela central sindical AFL-CIO - que tem volumosos investimentos em Fundos - levou ao envio de 8000 cartas à SEC.

Em França, a Assembleia Nacional relançou este mês uma Missão de Informação sobre os salários dos altos dirigentes das empresas e o próprio comissário europeu para o Mercado Interno, Frits Bolkestein, pronunciou-se publicamente contra os pacotes dourados dos CEO europeus.

O poder de portagem

Contudo, a questão central não reside nas remunerações dos CEO olhadas individualmente. Elas derivam de um "direito de portagem" como lhe chamou Roger Martin, um canadiano, reitor da Escola de Negócios da Universidade de Toronto. A cobrança de portagem exerce-se sobre a riqueza gerada pelas empresas cotadas. Esta camada emergente de gestores de topo tem-se afirmado desde os anos 70 e com a "bolha" da Nova Economia viu a janela de oportunidade para a galinha dos ovos de ouro.

Entrevista com Roger Martin en Gurusonline

O direito de portagem advém do facto dos 5000 executivos que se sentam nos conselhos de administração das 500 empresas cotadas do índice S&P gerirem 7,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares. Gerem-nos em nome dos "capitalistas sem rosto" dos Fundos e dos accionistas dispersos.

O direito de portagem advém do facto dos 5000 executivos que se sentam nos conselhos de administração das 500 empresas cotadas do índice S&P gerirem 7,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares. Gerem-nos em nome dos "capitalistas sem rosto" dos Fundos e dos accionistas dispersos.

Mas o verdadeiro poder não vem só dessa cadeira - deriva das "conexões" quer sejam formais (outras cadeiras em conselhos de outras empresas e organizações) ou informais (as relações interpessoais).

Há um organismo nos EUA que se dedica a analisar essas relações. O The Corporate Library, a que já nos referimos, publicou em Setembro um estudo sobre as interligações entre directores e empresas. Usando uma ferramenta informática, a análise feita pelo investigador Jackie Cook abrange 2100 empresas cotadas e 20 mil directores em 21500 direcções e conselhos, e dispõe, ainda, de uma listagem de 1500 organizações (fundações, organismos caritativos, clubes, "think-thanks" e redes de ex-alunos) e de 10 mil relacionamentos deste tipo.

Consulte o estudo da The Corporate Library

O estudo revelou o papel central de 15 personagens com o maior número de ligações e de 15 empresas com a maior malha de conexões - como a Verizon, Pfizer, USSteel, Bank of America, AMR, J.P. Morgan Chase, Sara Lee, General Electric, Dow e 3M.

Em França, há alguns anos atrás, o jornalista Gabriel Milési fez um levantamento, ainda que sem a ajuda do software, que foi divulgado em As Novas 200 Famílias - as dinastias do dinheiro, do poder financeiro e económico, editado pela Belfond.

Os analistas do The Corporate Library opinam que é sobre esta rede que as regras de transparência da boa governação devem actuar em prioridade. São estas redes que tomam todas as decisões estratégicas, incluindo atribuírem-se uns aos outros os famosos pacotes dourados.

A questão da ética nos negócios tem sido levantada como solução-chave por muitas escolas de negócio que querem transformar a "business ethics" num segmento de negócio na formação. Tanto nos EUA, como na Europa - em que o mais recente escândalo, de final de ano, envolvendo a Parmalat italiana, aqueceu, ainda mais, o tema.

Nos Estados Unidos, a história do rebentar de escândalos empresariais durante a época de recessão e depressão, após as euforias bolsistas e o aquecimento cíclicos das economias, é já longa. Nos anos 20 foi o Teapot Dome, com a venda secreta de reservas de petróleo federais e nos anos 70 e 80 os escândalos ligados aos contratos da área da Defesa. Também nos anos 80, o "inside trading" bolsista levou às práticas pioneiras das "junk bonds" para financiar os "raiders". Nos anos 90, assistimos à loucura dos "derivados" e ao escândalo financeiro no seu uso. Na Nova Economia assistimos, de novo, à "criatividade" nos mecanismos contabilísticos.

Nas épocas de euforia, desenvolvem-se, sempre, "janelas de oportunidade" para os crimes especulativos e de "criatividade" contabilística.

Guerra perdida?

Muitos analistas duvidam que esta "guerra" dos accionistas contra os novos caçadores de fortuna seja ganha nas próximas décadas, apesar do crescente peso da ética no discurso dos negócios e da vigilância constante exercida pelos media e até por "blogs" pessoais na Web.

Os novos caçadores de fortuna revelam um talento especial para a gestão de topo - tal como a nata dos artistas, dos jogadores e dos gurus de management e tecnologia revelam nas suas áreas, dizem os seus defensores. São "estrelas" e são disputadas a peso de ouro, afirmam os "caçadores de cabeças" (os "headhuntings") para as grandes empresas.

Não haveria alternativa a lutar até ao limite por um bom pacote dourado, dada a volatilidade das carreiras e dos lugares de CEO, que são cada vez mais de desgaste rápido, sujeitos ao paradigma da fralda descartável - usar e deitar fora. Jean-Pierre Garnier, da Glaxo, a que já nos referimos, teria dito ao Daily Telegraph que «não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá».

O argumento usado pelas próprias grandes empresas cotadas é que esses pacotes dourados são uma cenoura indispensável - uma "vantagem competitiva" na atracção dos talentos, como o explicou aos accionistas Carly Fiorina, a mulher que dirige os destinos da Hewlett-Packard.

«Mas logo que o mercado de capitais retome - e que os accionistas se sintam melhor das perdas astronómicas - toda essa fúria passará para segundo plano», alvitra o consultor Peter Cohan, que gostaria que as remunerações dos CEO fossem indexadas a um "quociente de valor" da empresa, uma metodologia que ele acaba de divulgar no seu livro Value Leadership.

Mas Roger Martin adverte que o que está aparentemente ligado ao ciclo eleitoral e ao período baixo das bolsas, poderá transformar-se em algo "estrutural". Iremos assistir a um "choque classista" entre o Capital colectivo dos accionistas e o Talento dos gestores de topo pela partilha do bolo da riqueza e do próprio poder político.

Quer Cohan, quer o reitor Martin - o criador do tal conceito de "portagem" - são de opinião que o actual ataque às benesses dos CEO é fruto de "uma estratégia política temporária", de captação eleitoral populista enquadrada nos EUA por uma parte do Partido Republicano.

Mas Roger Martin adverte que o que está aparentemente ligado ao ciclo eleitoral e ao período baixo das bolsas, poderá transformar-se em algo "estrutural". Num artigo recente que publicou na edição de Julho da revista Harvard Business Review - a bíblia dos gestores -, opina que iremos assistir a um "choque classista" entre o Capital colectivo dos accionistas e o Talento dos gestores de topo pela partilha do bolo da riqueza e do próprio poder político.

Foi em 1951 que James Burnham, um ex-esquerdista dos anos 30 tornado ideólogo da nova direita dos anos 50, falou da "revolução dos gestores" (no livro The Managerial Revolution) e do seu impacto político, pintando os gestores de topo como a classe dirigente emergente. A profecia de Burnham irá tornar-se realidade?

© jnr, 2004

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