Estamos condenados a viver
com duas economias

É o que acha o 'pai' da Nova Economia, W. Brian Arthur, à conversa
com Jorge Nascimento Rodrigues em Los Angeles

W. Brian Arthur Não é uma fígura conhecida dos meios de empreendedores europeus da quarta vaga. Como se sabe, o megafone da 'nova economia' tem estado nas mãos de Kevin Kelly, o célebre editor da revista «Wired», a primeira a levantar este estandarte.

Kelly tem feito com sucesso a 'agit-prop' do conceito cujos ecos têm chegado ao Velho Continente, mas o ideólogo é um reputado investigador da área da economia que fomos descobrir, quase incógnito, na Califórnia.

Os seus 'papers', publicados em revistas tão diferentes como a «Scientific American», o «The Economic Journal», e a «Harvard Business Review», deram à realidade emergente a argumentação teórica que lhe faltava, apesar do risco que W. Brian Arthur, o personagem em questão, corria ao desafiar abertamente a ortodoxia economista desde finais dos anos 80.

Os principais «papers» publicados
  • Competing Technologies, Increasing Returns and Lock-In by Historical Events, publicado no The Economic Journal, 1989, volume 99, nº 394 (não está disponível no «site» do editor em www.res.org.uk/econ.html)
  • Positive Feedbacks in the Economy, publicado na revista Scientific American, na edição de Fevereiro de 1990 (não está disponível no «site» do editor em www.sciam.com, mas pode ser adquirido em formato Pdf no site do autor em www.santafe.edu/arthur/Papers/Pdf_files/SciAm_Article.pdf)
  • Increasing Returns and the New World of Business, publicado na revista Harvard Business Review, na edição de Julho/Agosto de 1996
  • É uma pessoa modesta. Não se reclama de 'pai' da nova economia, mas a ele devemos a ousadia nos meios académicos de desafiar as teorias convencionais sobre a dinâmica do capitalismo, baseadas na lei dos rendimentos decrescentes dos factores e na teoria do equílibrio.

    As dúvidas de Marshall

    Os que andaram em Economia aprenderam que a partir de certo ponto um aumento nos factores não aumenta o resultado. Mais de um lado não dá mais do outro. As produtividades marginal e média decrescem a partir de um ponto de inflexão e os rendimentos passam a ser decrescentes. Por outro lado, haveria sempre um ponto óptimo de equilíbrio que significaria o uso mais eficiente dos recursos disponíveis em dadas circustâncias.

    «Devemos estas verdades a Alfred Marshall, mas o célebre economista inglês, já em 1890, nos seus Princípios de Economia Política, manifestava algumas dúvidas sobre algumas anomalias, mas não seguiu a fileira das suas interrogações, pois a realidade não o exigia», diz-nos W.Brian Arthur, 53 anos, que vive hoje em dia em Palo Alto e tem um escritório 'emprestado' no Xerox PARC.

    A anomalia veio a ser denominada de mecanisno de «feedback» positivo, ou seja um dado resultado obtido tem como que um efeito de megafone sobre os 'inputs', gerando um circulo virtuoso. Mais dá mais e cada vez mais. Daí nasce uma dinâmica de rendimentos crescentes dos factores, ao contrário do que se observava no capitalismo industrial.

    O que Brian fez, desde finais dos anos 70, confessa, foi prosseguir meticulosamente essas velhas interrogações de Marshall e o que, no princípio, lhe pareciam 'anomalias', veio a verificar ser uma realidade emergente «onde a teoria convencional não se aplica mais». Ele sublinha que se sentia, já então, bem acompanhado, pois, antes dele, ainda nos anos 40 e 50, o Nobel sueco Gunnar Myrdal e o keynesiano Nicholas Kaldor tinham identificado esse tal mecanismo.

    As investigações mais sistemáticas que fez ao longo dos anos 80 produziram vários «papers» científicos que naturalmente só uma elite leu. Brian Arthur compilou-os num livro editado em 1994, com o título de Increasing Returns and Path Dependence in the Economy (compra do livro). O argumento de base era este: a nova economia assente no factor crítico conhecimento já não opera na base das velhas leis.

    Consulte a obra mais recente de W.Brian Arthur: The Economy
    as an evolving complex system
    , editada em 1997 (compra do livro)

    Ele vai, agora de novo, voltar ao ataque da escrita - para o próximo ano é esperado o seu novo livro, intitulado, como não podia deixar de ser, The New Economy.

    «A gente que está desde há muitos anos no hi-tech ou no Silicon Valley percebe perfeitamente o que eu digo. Sabem-no intuitivamente. O próprio Bill Gates tira disso partido. E a Sun usou ainda recentemente as minhas teorias para a estratégia de lançamento do 'Java'», explica-nos Brian, que foi professor de economia na Universidade de Stanford até 1996 e que agora está na direcção do Santa Fé Institute, no Novo México.

    O acaso histórico

    O outro pilar que foi derrubado por Brian Arthur foi a sacrossanta teoria do equílibrio. A batalha não era fácil. Mesmo uma mente aberta à «destruição criativa» como Joseph Schumpeter considerava que uma hipótese de múltiplos equilíbrios era do ponto de vista científico uma aberração. Considerava-a, recorda Brian, como «conduzindo a um caos fora de qualquer controlo analítico».

    Ora, a possibilidade de vários equilíbrios é que é a realidade, ainda que não esteja debaixo do controlo dos dogmas dos economistas. Não se pode predizer um equilíbrio óptimo. Diz-nos Brian Arthur: «Há várias hipóteses em aberto e, em geral, são acontecimentos fruto do acaso histórico que seleccionam uma dada solução, que por vezes nem sequer é a melhor do ponto de vista tecnológico. Essa vantagem selectiva inicial permite o desenvolvimento de uma rede de aderentes e de dependentes que reforçam positivamente o posicionamento de liderança, de que o exemplo mais forte é a rede liderada pela Microsoft e a Intel».

    Aconteceu o mesmo com o nascimento do Silicon Valley, fruto de um acto casual, aparentemente insignificante, de um reitor de engenharia, visionário, que nos anos 30 resolveu emprestar do seu bolso pouco mais de 500 dólares a dois alunos, que viriam a criar a HP a partir de uma garagem.

    Veja aqui a história do Silicon Valley

    Mais recentemente o acaso foi bater em 1993 à porta de dois jovens do Illinois que teimosamente queriam dar uma interface amigável à World Wide Web, contra a própria opinião do criador da Web. Foi assim que Marc Andreessen e Eric Bina criaram o primeiro 'browser', que não lhes passava pela cabeça poder despoletar um novo furor económico.

    «Há aqui um paralelismo com a moderna teoria física da não linearidade. Pequenas mudanças, em que não reparamos à primeira vista, mas que ocorrem em momentos críticos, geram novas situações inesperadas», prossegue Brian Arthur, que vai depois buscar ao filósofo Jacques Monod a imagem de um feliz encontro entre o acaso e a necessidade.

    Veja aqui o livro de Monod sobre o acaso e a necessidade (compra do livro)

    A dualidade actual

    O que daqui resulta é que hoje convivem duas realidades económicas distintas. Por vezes, inclusive, dentro da mesma empresa, que tem actividades a operar na velha economia e outras na nova.

    «Para mim esta dualidade não é nenhum bicho de sete cabeças. A realidade está cheia de exemplos disso», sublinha o nosso interlocutor. E prossegue: «Grosso modo podemos dizer que a lei dos rendimentos decrescentes vive na parte tradicional da nossa economia, e que a lei dos rendimenros crescentes é típica das áreas baseadas no conhecimento. A economia dos nossos dias bifurcou-se em dois mundos interligados - são dois mundos com lógicas económicas diferentes».

    Donde nos deixa um conselho: não misture alhos com bugalhos. «São duas economias diferentes no estilo, no comportamento, na cultura. Exigem técnicas de gestão diferentes, estratégias e códigos de regulamentação distintos. É errado teimar que o que funciona numa funcionará na outra», conclui W.Brian Arthur, para nos convencer que, neste caso, não há outra solução senão a bigamia.

    Agora que acabou de ler, quer saber o que diz Kelly sobre Brian? Então veja aqui


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