Copiar com erros pode ser fixe

Um cientista-empresário francês fala da era actual da imitação, dos seus perigos e oportunidades. E aconselha a que sejamos "burros" a imitar.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, Agosto 2004

Entrevista em inglês com Eric Bonabeau

Eric Bonabeau Imitar com imperfeições, fazer asneiras ao copiar é normal. E ainda bem, pois pode ser um mecanismo inesperado de inovação. Copiar com erros pode ser eficaz - e fazê-lo propositadamente pode ser uma técnica de inovar. Pode parecer paradoxal mas é o que conclui Eric Bonabeau, um físico teórico, ex-investigador da France Telecom, hoje considerado um dos especialistas mundiais em sistemas complexos.

Copiar com erros pode ser eficaz - e fazê-lo propositadamente pode ser uma técnica de inovar.

«Nem toda a gente imita do mesmo modo. Mesmo os que imitam podem não ser capazes de replicar o que vêm. Pelo que se abre um campo à 'criatividade'. Outros, talvez uma minoria, não imitam de todo - diferenciando-se ou vendo para além do que os outros estão fazendo», sublinhou-nos Bonabeau, que não é um diletante na matéria, pois se baseia nos seus estudos sobre a complexidade e os comportamentos colectivos para dirigir a sua empresa de consultoria, a Icosystem em Paris e em Boston. Bonabeau escreveu obras de referência, como a Inteligência Colectiva (editada em Paris) ou a Inteligência de Enxame (editada nos EUA sob o título "Swarm Intelligence" (compra do livro), em co-autoria com Chris Meyer, a que já nos referimos em entrevista.

Alguns chamam a estas cópias conscientemente mal feitas de "imitação criativa" - algo a que os empreendedores portugueses não seriam alheios, segundo alguns estudos no final dos anos 80 sobre as "start-ups" tecnológicas lusas. Bonabeau garante que é um dos caminhos possíveis da inovação no mercado. Pelo que ser segundo ou terceiro a chegar pode ser útil: «Observe o que o seu concorrente inovou, analise os pontos fracos, adapte», eis uma das "dicas" do empresário-cientista num artigo ("The Perils of the imitation Age") recentemente publicado na revista Harvard Business Review (edição de Junho de 2004).

O disparo da imitação

Imitar, diz Bonabeau, é típico da natureza humana. O investigador francês estudou alguns fenómenos colectivos de imitação já antigos na economia - como as epidemias de ganância nas bolsas que levam aos tais períodos de «exuberância irracional» (como os apelidou o professor Shiller, de Yale) ou de «consenso de manada» (segundo a original designação dada por Ivo Welch, também de Yale). O fanatismo ideológico de massa segue a mesma linha no plano político ou religioso.

O último grito do mecanismo rápido de provocar fenómenos de "enxame" (ou de manada ou rebanho, numa versão menos erudita) é o uso do SMS, constata o investigador.

Mas, os tempos actuais são de febre de imitação. Bonabeau chamou-lhe de «Era da Imitação» e não se coíbe de alertar para os seus perigos - o referido artigo na revista norte-americana é justamente intitulado nesse sentido. Este disparo, que está a criar uma sociedade de modas, foi alimentado pelo marketing contemporâneo e pelas novas tecnologias de interacção humana «que amplificaram as tendências para copiar». O último grito do mecanismo rápido de provocar fenómenos de "enxame" (ou de manada ou rebanho, numa versão menos erudita) é o uso do SMS, constata o investigador.

No mundo empresarial, tem havido a tendência para a imitação com algum efeito benigno - no caso de "boas práticas" e de "casos de sucesso" e na exploração até ao limite da agregação em 'clusters' no plano geográfico ou de padrões de consumidores e clientes, criando comunidades de afinidade.

Eric não exclui a ferramenta de "benchmarking" (uso do método da comparação relativamente aos melhores), mas condena «a obsessão com a comparação, que mata a inovação estratégica e a criatividade».

Mas a imitação também pode ser mortal: conduz a guerras de concorrência auto-fágicas ou apaga a via da diferenciação pelo efeito de macaco de imitação. Em regra, «leva à destruição de valor», alerta Bonabeau, que não exclui a ferramenta de "benchmarking" (uso do método da comparação relativamente aos melhores), mas condena «a obsessão com a comparação, que mata a inovação estratégica e a criatividade».

No reino do imprevisível

A sociedade da cópia gera a sua própria saturação e como «a imitação é hoje muito diversificada causa instabilidade, o seu resultado é sempre imprevisível», sublinha o nosso interlocutor.

O resultado das tentativas de imitar - ou de anti-imitar - usando informação imperfeita é o imprevisível. Outro problema nestes contextos de diversidade da imitação, é a amplificação de pequenas diferenças. Sabe-se lá o que pode sair daí. Os fazedores de modas e de crenças que se cuidem.

Pode parecer também paradoxal, esta constatação do cientista. «Nem toda a gente copia do mesmo modo, nem as mesmas coisas. O que origina vários 'clusters' de imitação. Não há homogeneidade, não há um 'mix' global de imitação», argumenta Bonabeau, que conclui: «O resultado das tentativas de imitar - ou de anti-imitar - usando informação imperfeita é o imprevisível. Outro problema nestes contextos de diversidade da imitação, é a amplificação de pequenas diferenças. Sabe-se lá o que pode sair daí». Os fazedores de modas e de crenças que se cuidem.

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