Chegaram (finalmente?) os bio-empreendedores

É a primeira vez que em Portugal é efectuado um financiamento de capital de risco a uma empresa de biotecnologia da área farmacêutica. O grupo José de Mello através do Banco Mello de Investimentos apostou numa start up portuguesa no quadro da sua estratégia na área da saúde. O montante de capital de risco investido continua no segredo dos deuses, mas trata-se de um negócio com fortes probabilidades de realizar uma boa rentabilidade. O objectivo é transformar a Biotecnol em efeito de demonstração e abrir uma porta à emergência deste novo sector no nosso país

Jorge Nascimento Rodrigues com Pedro Noronha Pissarra
na Biotecnol, no Taguspark, em Oeiras

 O que se passa na farmacêutica 

Curandel BiotecnolÉ a primeira vez que em Portugal um financiamento em capital de risco aposta numa jovem empresa de biotecnologia na área farmacêutica. A Biotecnol, uma «start up» fundada há três anos por Pedro Pissarra, um jovem doutorado naquela área no Kings College, em Londres, viu o seu esforço pioneiro atrair a atenção e os capitais do Banco Mello de Investimentos, que vê neste sector um alto potencial de crescimento no nosso país e uma oportunidade de negócio por preencher associada à revolução que a indústria farmacêutica está a atravessar neste virar de século (ver caixa).

«Corri este ano o país com um portátil e uma apresentação a explicar às capitais de risco como é possível ganhar dinheiro com a revolução trazida pelo genoma. Reconheço que foi a coisa mais difícil, até agora, na minha vida de empreendedor. Foi preciso muito esforço para desmistificar a ideia de que a biotecnologia é uma tecnologia distante. Só no nicho muito específico em que a Biotecnol está - os sistemas de espersão genética e de proteínas recombinadas - , o mercado em Portugal vale 25 milhões de contos por ano», conta, agora com alguma ironia à mistura, Pedro Pissarra, hoje com 32 anos.

As virtudes da sintonia

Depois de várias portas, e várias hipóteses, fechou com o Banco Mello «em menos de dois meses e meio». A rapidez deveu-se à sintonia estratégica: «O nosso negócio enquadra-se perfeitamente na estratégia definida por este grupo para a área da saúde. A sinergia entre as partes é fundamental para o êxito deste tipo de operações. Não basta injectar dinheiro», refere, ainda, o nosso interlocutor, que confessa ter ficado «surpreendido» com a nova postura do capital de risco em Portugal. «Houve uma mudança brutal este ano na atitude dessas entidades. Estamos a viver tempos de mudança que podem ser encorajadores para outros empreendedores como nós», conclui.

O montante do investimento feito pelo grupo José de Mello na Biotecnol continua no segredo dos deuses, mas o Banco considera que se trata de «um projecto com um 'break-even' baixo e probabilidades de ter uma forte rentabilidade», referiu-nos Pedro Ferreira Pinto, responsável da área de «Private Equity» daquela entidade bancária. A hipótese futura de ida à Bolsa portuguesa é provável. «O forte crescimento esperado poderá criar condições para trazer a empresa ao nosso mercado de capitais no espaço de poucos anos», admite Pedro Pinto.

Por ora, Pedro Pissarra e o seu colega e amigo do Kings College, Andrew Kelly - um doutorado em genética molecular e celular que aceitou o desafio de vir para Portugal e se transformar em seu sócio -, vão ter de demonstrar a viabilidade da produção comercial em escala piloto de uma nova substância. Na calha têm dois novos projectos que vão envolver oito investigadores a tempo inteiro e a mobilização de dois novos espaços laboratoriais da empresa no Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica situado na Quinta do Marquês, em Oeiras, não muito longe da sede da empresa no Taguspark, o parque de Ciência e Tecnologia onde a Biotecnol foi incubada desde 1997.

O objectivo é fazer a prova dos nove no sector da biotecnologia no nosso país. «A nossa iniciativa constitui a oportunidade de mostrar que não é nenhum bicho de sete cabeças investir em pequenas empresas que detenham tecnologia independente nesta área. Se tivermos sucesso - e vamos investir tudo nele - abrimos a porta para outras pequenas empresas nacionais no ramo», confia Pedro Pissarra.

Primeiro emprego

A história da Biotecnol entra no rol das iniciativas de jovens empreendedores que se têm multiplicado nos últimos cinco anos. «Eu já estava fora do país há 9 anos e depois de acabar o doutoramento decidi que viria para Portugal. Estava convicto que era possível fazer cá o mesmo que por toda a Europa já se faz nesta área da biotecnologia», recorda Pedro Pissarra, que admite alguma ingenuidade inicial própria de um «estrangeirado» quando desceu do avião em 1996. Para trás das costas ficavam duas propostas de emprego tentadoras na Holanda e na Dinamarca.

O descer ao terreno da farmacêutica em Portugal fê-lo bater com a cabeça na realidade. Diz-nos o fundador da Biotecnol: «Encaravam-me como tendo qualificações a mais para o que era preciso, o que me empurrou para que fosse eu próprio a criar o meu primeiro emprego - a minha própria empresa».

Mas, o «país real» mostrou-lhe, também, a outra face da oportunidade: a farmacêutica portuguesa iria sofrer o embate da revolução tecnológica em curso e as competências do jovem doutorado tornar-se-iam preciosas. Efectivamente as competências centrais em computação genética estrutural e metabólica que Pedro e Andrew detêm são o «ouro», o capital intelectual da empresa que viriam a criar.

O segredo de infância

O modelo de negócio que os dois amigos puseram em prática explica, também, o segredo da sobrevivência de uma micro empresa nesta área. «No mercado da biotecnologia é essencial para uma empresa recém-nascida manter um certo virtualismo de operações até ganhar alguma maturidade», desvenda Pedro Pissarra. Por «virtualismo», a Biotecnol entendeu, na sua infância, concentrar a sua actividade nas suas competências centrais e colocar em «outsourcing» (como agora é moda dizer) tudo o resto da cadeia de valor dos projectos.

A colaboração fortíssima com instituições académicas a nível laboratorial e alguma subcontratação de operações no estrangeiro foram o modelo posto em prática. No caso dos primeiros projectos desta dupla de bio-empreendedores, a relação estreita - «e extraordinária» - com o Centro de Engenharia Biológica e Química do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e com o Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho foi decisiva.

Todo este modelo é coroado com «a importância de inserir a empresa nas redes internacionais, e em particular europeias», sublinha o fundador da Biotecnol. A decisão de criar a Associação Portuguesa de Bio-Indústrias com outra «start-up» portuguesa, a Stab - uma pequena empresa de biotecnologia ligada ao ambiente -, foi a chave para o acesso a importantes foruns e organizações europeias e serviu de ponte para a inserção em projectos europeus e a ligação a empresas europeias do sector.

O relacionamento com a EuropaBio, a associação europeia do sector, tem sido uma das alavancas além fronteiras da actividade dos nossos bio-empreendedores. Em virtude do seu dinamismo, Pedro Pissarra é inclusive membro da comissão consultiva do Forum de Biotecnologia e Finança promovido pela European Association of Security Dealers ligada ao EASDAQ (o mercado de capitais europeu similar ao célebre NASDAQ norte-americano).


Farmacêutica em turbilhão
Os últimos cinco anos estão a assistir a uma mudança radical na farmacêutica. «Para fazer uma analogia, podemos comparar a evolução da medicina associada à biotecnologia com a evolução dos sector das tecnologias de informação depois do impacto da massificação da Internet», refere Pedro Ferreira Pinto do Banco Mello de Investimentos que apostou na Biotecnol como proveta de ensaio da oportunidade criada também em Portugal por esta alteração.
O que se está a passar é resultado do efeito de dois movimentos «tectónicos»: a revolução demográfica com a subida de peso da população idosa e os resultados da investigação no campo do genoma humano. O crescimento das situações crónicas no campo da saúde em virtude do crescente número de idosos vai exigir total prioridade à medicina preventiva. Ora esta alteração estratégica pode receber uma ajuda inestimável do que se está a passar na chamada jovem disciplina da «genómica». A possibilidade de estabelecer relações entre as funções genéticas deficientes e a causa de doenças abrirá a porta ao «boom» da terapia genética como segmento da biotecnologia.
Ora a farmacêutica não pode perder este combóio. Trata-se de uma indústria madura em que a adaptação a esta viragem só poderá ser gerida em função de alianças, parcerias ou aquisições com as jovens empresas inovadoras. Não admira, por isso, que 1999 se esteja a revelar como o ano de um turbilhão de fusões, aquisições e participações. Segundo o Deutsche Bank, o valor deste movimento no primeiro semestre deste ano já valeu 19 mil milhões de dólares (mais de 17 mil milhões de euro, cerca de 3,5 mil milhões de contos).
O exemplo paradigmático desta atenção dos grandes grupos farmacêuticos às empresas inovadoras é dado pela entrada da Bayer no capital da Millenium Pharmaceuticals. Tratou-se de uma injecção de 500 milhões de dólares para 5 anos com vista à geração de 225 novos compostos com potencial terapêutico de que possam vir a nascer produtos para a Bayer comercializar.
Como diz Peter Drucker, na sua mais recente obra - Management Challenges for the 21st Century -, «estas companhias das novas tecnologias do campo da genética, da biologia molecular ou da electrónica médica, podem ser relativamente pequenas e terem uma grande necessidade de capital. Mas possuem tecnologia independente e uma enorme capacidade de inovação, com um capital humano de valor incomensurável».
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal