TENDÊNCIAS SÉC. XXI

A era dos bionegócios recebe consagração
na Business Week

Jorge Nascimento Rodrigues, Maio 2003

Comentário à edição especial da revista Business Week com o ranking The Best Performers - The Business Week 50 (Edição Spring 2003)
50º Aniversário da descoberta da estrutura do AND - Revista Nature, nº 422, 2003
Consultar Acções Biotech na AMEX (Biotech Index) e no NASDAQ Biotech Index
Edição Especial da Revista Science sobre o aniversário do ADN (edição de 11 de Abril)

Pela primeira vez, os sectores de negócio ligados à saúde humana dominam os lugares cimeiros de uma listagem sobre as empresas norte-americanas mais sustentáveis em termos económicos. Mais de 1/3 das 50 empresas classificadas, este ano, como mais "performantes" pela revista Business Week situam-se na fileira biotecnologia-farmacêutica-cuidados de saúde. A dimensão desta tendência emergente pode avaliar-se ainda melhor nestes números esmagadores: 4 das 5 primeiras pertencem a este sector; bem como 70% das 10 primeiras; e 45% das 20 de topo.

A cadeia de valor desta fileira agrupa a farmacêutica, a biotecnologia, as próteses e implantes e outras componentes, a área financeira dos seguros, a distribuição, o software e o diagnóstico. Segundo o analista americano Peter Cohan, é «a afirmação clara de um sector que já hoje domina 30% do PIB norte-americano».

Alguns dos nomes são menos conhecidos do leitor - como as líderes da listagem, a Forest Laboratories, Wellpoint Health Networks e United Health Group - mas outros são marcas bem globalizadas, como a Johnson & Johnson, a Pfizer, a Merck, a Pharmacia ou a Abbott.

Diferença fundamental

A listagem das 50 baseia-se exclusivamente em firmas cotadas em bolsa e pertencentes ao índice Standard & Poor's 500. O facto é tanto mais de assinalar quanto a revista apertou significativamente a malha dos seus critérios, adicionando inclusive novos indicadores como o rácio de endividamento de longo prazo. Trata-se, também, do reconhecimento de uma vantagem fundamental nos modelos de negócio: «A diferença entre as empresas da fileira das tecnologias de informação, multimedia e telecomunicações - conhecida por TMT nos mercados financeiros - e este sector emergente é que a indústria da biotecnologia se insere num modelo de negócio totalmente estabelecido e que é uma peça fundamental para a geração de inovação dentro da indústria farmacêutica», comenta Pedro Pissarra, o fundador da Biotecnol, uma das jovens empresas do sector em Portugal.

Este jovem doutorado acrescenta que a força estratégica desta Nova Economia do século XXI «é uma capacidade de inovação fora do vulgar e um crescente grau de especialização». Não se verifica o experimentalismo dos modelos de negócio da Nova Economia dos anos 90 ligada à Internet e à Web. Não será, por isso, de admirar que qualquer comparação entre a evolução dos índices bolsistas ligados à biotecnologia - como o BTK no Amex e o NBI no Nasdaq - e os restantes índices (como o Nasdaq compósito, o Dow Jones e o S&P 500) seja largamente favorável desde meados de 2000 às acções das firmas biotecnológicas cotadas.

Coincidência feliz

A afirmação do peso estratégico deste "cluster" económico - como lhe chamaria Michael Porter - dá-se, por coincidência, no ano em que a descoberta da estrutura do ADN humano - baptizada como a chave para a compreensão do livro da vida humana - faz 50 anos. Foi a 25 de Abril de 1953 que dois cientistas, J.D. Watson e F.H.C. Crick, escreveram um artigo revolucionário no número 171 da revista científica Nature. A mulher de Crick, Odile, desenharia a célebre hélice, por muitos já considerada a "Mona Lisa" da ciência moderna.

"The Mona Lisa of Modern Science", a ver na revista Nature nº421, 2003, artigo de Martin Kemp, muito bem ilustrado

A coincidência é também feliz já que o projecto de mapeamento e sequênciação do genoma humano, iniciado em 1988 nos EUA, foi dado agora por encerrado pelo Human Genome Research Institute, iniciando-se uma nova fase. A oportunidade que se abre é imensa para o desenvolvimento desta fileira. «Ainda que nem todas as cerca de 30 mil proteínas humanas associadas ao código genético venham a permitir o desenvolvimento de produtos farmacêuticos, há, como se vê, um enorme campo por explorar na intervenção terapêutica», dizem os cientistas daquele instituto na revista Nature (nº422, 2003) sobre o 50º aniversário do ADN, num artigo denominado "Uma visão para o futuro da investigação genómica".

"A Vision for the future of genomics research", on behalf of the US National Human Genome Research Institute, a ver na revista Nature nº422, 2003

Este facto é reforçado «por um período muito favorável à indústria farmacêutica», sublinha Peter Cohan, que refere «a enorme capacidade de lobbying do sector farmacêutico para manter preços altos e barreiras elevadas à entrada no negócio, bem como o envelhecimento da população que vai influenciar os perfis de consumo na área».

Ainda que nem todas as cerca de 30 mil proteínas humanas associadas ao código genético venham a permitir o desenvolvimento de produtos farmacêuticos, há um enorme campo por explorar na intervenção terapêutica

Rui Dias Alves, fundador da consultora portuguesa Innovagency, acrescenta outros factores favoráveis como «a emergência dos modelos privados de financiamento dos cuidados de saúde, a evolução das tecnologias clínicas no campo da telemedicina, das técnicas de ambulatório e dos novos biomateriais, a evolução dos sistemas de informação de suporte e a institucionalização dos processos de gestão dos cuidados de saúde».

OPORTUNIDADE EM PORTUGAL
O nosso país poderá ter «algumas características particulares que podem favorecer o desenvolvimento de um 'cluster' de inovação na saúde», afirma Rui Dias Alves, da Innovagency. Refere «um ciclo de forte investimento na construção de infra-estruturas no modelo de parcerias público-privadas, o interesse de grupos portugueses no investimento nesta área, como o grupo Mello, Espírito Santo e Caixa Geral de Depósitos, a ambição de crescimento de grupos farmacêuticos nacionais, como a Bial e a Jaba, o peso crescente dos seguros de saúde e o desenvolvimento nacional de sistemas de informação em ambiente hospitalar». Também, Patrício Soares da Silva, director do Departamento de Investigação e Desenvolvimento da multinacional portuguesa Bial, vê «na biotecnologia uma oportunidade comercial relevante» que a empresa tem estado a aproveitar. Por seu lado, Rui Alves é optimista ao ponto de considerar que Portugal pode ser líder mundial «no desenho de projectos piloto para ofertas inovadoras de residências assistidas ou para o acompanhamento de doentes crónicos».

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