A primeira biografia de Peter Drucker

Jack Beatty escreve The World According to Peter Drucker

Jorge Nascimento Rodrigues com Jack Beatty em Boston

Pode parecer paradoxal. Mas o homem a quem o capitalismo deste século mais deve em termos de eficácia do seu coração - a empresa -, sempre manifestou sérias reservas sobre ele, apesar de ser a favor do mercado.

A sua procura, primeiro, de uma sociedade industrial em que o trabalho fosse encarado como um recurso de ouro (e não um custo a cortar sistematicamente) e o capital assumisse uma "responsabilidade pelo bem público", e mais tarde da sociedade do saber, são a prova disso mesmo.

Foto: Jack BeattyFoi este "moralismo social" permanente ao longo da obra de sessenta anos de Peter Drucker, que um jornalista sénior americano, Jack Beatty, 52 anos, editor da revista The Atlantic Monthly, agarrou e vai publicar em livro no princípio do próximo ano.

Por oposição à «mão invísivel» do mercado, Drucker teve sempre subjacente uma "consciência invísivel" que o leva "a não se rever no sistema", disse-nos Beatty no seu escritório na sede da revista, nos antigos quarteirões portuários de Boston. "Ele é uma pessoa íntegra - ele próprio não vive segundo os valores do Senhor Dinheiro. Vendeu seis milhões de livros, mas habita numa vivenda tipicamente americana de subúrbio, confortável, mas simples, e dedica imenso tempo, gratuitamente, ao universo das organizações sem fins lucrativos", frisou-nos, salientando que este «traço» pessoal de Drucker o impressionou imenso.

Porque Drucker não gostou de Dr. Management

Talvez tenha sido por isso que o título da obra de Beatty levou uma volta. Tinha sido pensado como «Dr.Management», mas o próprio Drucker sugeriu que fosse mudado. Ele não quer ficar prisioneiro da gestão dos negócios - o que ele deu à luz, nos anos 40 e 50, foi um continente muito maior (ver entrevista a Drucker).

Também nunca foi um académico. Por exemplo, nunca aceitou dar aulas na Harvard Business School. E, acima de tudo, ele é um "pintor de conceitos" sobre a sociedade, o que o leva mais longe do que a gestão.

Assim, o título da obra de Beatty acabou em O Mundo segundo Peter Drucker (The World According to Peter Drucker), editado pela Free Press em Janeiro de 98 e que vai ser traduzido também em português pela Editora Civilização. Um resumo da obra pode ser consultado na Executive Digest de Fevereiro de 1998.

Pela mesma altura, Drucker editará na John Wiley & Sons a continuação da sua saga «autobiográfica» Adventures of a Bystander (o primeiro volume) [traduzido em português pela Difusão Cultural], que neste segundo volume terá o pós-título Trailblazers, Rediscovering the Pioneers of Business (o segundo volume).

Mas como não havia nenhum «guia» sobre a sua obra, Beatty devorou dezenas de livros e artigos de Drucker, desde os anos de juventude até à velhice. Ele tinha este projecto na ideia há anos - "Editei alguns dos ensaios dele aqui na Atlantic e ficou-me este bichinho. Queria colocar a sua obra no contexto. Não é bem uma biografia. É como se fosse uma pintura intelectual do homem", referiu-nos.

E as pinceladas que sairam merecem ser lidas. Menos de 200 páginas que nos levam a visitar o percurso de Drucker, da infância na Áustria que o moldou como "incurável estudante para toda a vida e viciado na escrita", aos primeiros anos de "reformista" confesso do sistema até à maturidade de "um pragmático crítico", diz Beatty que o critica aqui e acolá de um ponto de vista mais à esquerda.

Mas quem é o personagem? "Começemos por ver aquilo que ele não é", responde Beatty. Não é um economista. Percebeu isso, logo, aos vinte anos na Wall Street em Londres: "O que me interessa é o comportamento das pessoas", não do capital ou das mercadorias, disse ele numa ocasião. Mas não é um especialista em ciência política. Ele é "instintivamente hóstil a visões a priori, sistemas filosóficos, ideologias políticas, salvações ou utopias", escreve Beatty, que lhe chama "um pós-político".

Um profissional de tendências

Então, talvez se possa chamar-lhe um profissional de tendências. "O pensamento dele é um modelo de procura de padrões - ele identifica as constelações com significado, no fluxo caótico da informação. Ajuda-nos a navegar, como agora se diz. Faz-nos «ver» o que já lá está, mas permanecia invísivel para nós", explica o autor de O Mundo segundo Peter Drucker.

O problema de o classificar é difícil, porque ele pertence a uma área que está ainda por nascer: "Uma disciplina que explore os acontecimentos e os fenómenos em termos da sua direcção, mais do que em termos de causas - ou seja, mais uma avaliação do potencial, do que uma análise de probabilidades".

Drucker, por isso mesmo, recusa o futurismo liminarmente. A primeira vez que o tentou deu errado - escreveu um artigo em Setembro de 1929 sobre o clima bolsista e no mês seguinte o «crash» deu-lhe cabo de todas as previsões. A partir daí só fala do "futuro que já aconteceu", como ele gosta de escrever. Foi esse método que o levou a perceber dois "movimentos continentais" no século XX: o auge da sociedade industrial nos anos 40 e 50, e o nascimento da sociedade do futuro, a sociedade do saber, pós-capitalista, a partir dos anos 60.

O primeiro levou-o ao entendimento dos três pilares básicos do industrialismo maduro: a grande empresa (a «corporation», como lhe chamam os americanos), a gestão como nova disciplina e a produção em massa como forma superior de organização do processo produtivo. Mas ele não se limitou a descrevê-los. Deu coerência ao todo. E deitou-lhes em cima muito sal do seu "moralismo social".

A tal ponto que os seus primeiros livros, como O Futuro do Homem Industrial ou Conceito de «Corporation», foram olhados de esguelha quer por académicos, como por capitães da indústria. Até anos recentes, as bibliotecas das Universidades não tinham um único livro dele. A «momenkatura» académica não lhe concedia o estatuto de «teórico».

Por outro lado, na Westinghouse, o presidente correu com ele para fora da empresa, vendo no homem um «bolchevique» naqueles idos anos 40, e na própria General Motors, que ele estudou e que inspirou literalmente Conceito de «Corporation», Alfred Sloan (o carismático chefe) e a maioria não gostou nada do que ele propunha. "Só os japoneses lhe deram ouvidos. Conceito de «Corporation» foi rapidamente traduzido para o japonês. Tal como Juran e Deming, os gurus da Qualidade, Drucker foi o terceiro pilar intelectual do milagre japonês", refere Beatty.

Os três contributos de Drucker

A "descoberta" da gestão é o seu atributo mais popular. Até aos anos 40 haveriam, talvez, três ou quatro obras que se poderiam classificar como tal. Os editores interrogavam-se sobre "quem é que se interessaria por uma coisa dessas?". Um académico aconselhou-o: "Será preferível que dedique o seu talento a um assunto mais respeitável". Os intelectuais críticos da época desancavam sobre a grande empresa - e onde esses viam a fonte de todos os problemas, Drucker descobriu o coração da sociedade industrial madura. A gestão já existia, mas não era entendida como tal. "Ele deu consciência aos gestores da sua profissão e criou uma disciplina que podia ser ensinada e estudada, e não couto de iluminados", explica-nos Beatty.

Drucker foi, depois, dos primeiros a perceber a transição do industrialismo para algo novo no final dos anos 50. Falou de um mundo «pós-moderno» e do surgimento do trabalhador do saber. Avisou que as grandes empresas íam ver os seus castelos atacados a partir de dentro - não pelos sindicatos, mas em nome dos novos capitalistas financeiros (os Fundos de Pensões). Avançou com a ideia de privatização (reprivatização - acentuava ele) de muito do que os governos - o Estado capitalista - faziam. Mas nunca deu a sua benção, a tudo o que se fez em nome disso depois.

Mas, o coroar de toda a sua peregrinação intelectual deste século, foi a «descoberta» da emergência da sociedade do saber. "Para quem sempre se sentiu desconfortável com o capitalismo, esta ideia do saber é um ponto de chegada notável", confessa Jack Beatty. Nesta última década, Drucker chamou à atenção também para o papel, de novo, dos "empreendedores", e para a necessidade de perceber que a sociedade é mais do que as empresas e o Estado. Falou da ascensão do sector social sem fins lucrativos, o «terceiro sector».

Por tudo isto, Drucker é um marco deste século.

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